fevereiro 28, 2005

Jornalismo como um romance

O inefável Nuno Rocha, de quem Miguel Urbano escreveu um dia que tinha um conflito insanável com a pontuação, dirigiu há muitos anos um semanário chamado "Tempo". Certo dia, quando o Conselho da Revolução tinha agendada a discussão da lei de delimitação do sector público e privado, esse semanário fez manchete com as tomadas de posição nessa reunião dos diversos conselheiros da revolução. A notícia era muito pormenorizada, tinha citações completas das intervenções e era quase uma acta da própria reunião. Parecia que o diligente Nuno Rocha tinha assistido ao encontro debaixo da mesa...
O único problema do grande "furo jornalístico" é que, como o próprio "Tempo" reconhecia na sua última página, a reunião do Conselho da Revolução, à última hora, não se tinha realizado, e tinha ficado adiada para a semana seguinte...
No número seguinte do jornal, o director do "Tempo" justificou-se e garantindo que se tinha verificado um "pequeno erro técnico", mas que no essêncial a notícia estava correcta, porque na semana seguinte certamente os conselheiros da revolução tomariam as posições que o semanário do Nuno Rocha tinha escrito por eles.
Depois desse episódio genético do jornalismo português, foi sem supresa que o publico português assistiu à edição de um texto teórico sobre jornalismo, por parte de Nuno Rocha, que levava o singelo título de: "Jornalismo como um romance".
O exemplo de um dos nossos maiores frutificou e. actualmente, é raro o jornalista de política que confirme as notícias que escreve. Por exemplo, uma amiga minha aparece regularmente como candidata a qualquer coisa na primeira página do Expresso: às vezes é cabeça de lista do Bloco às Europeias, outras vezes é candidata à Câmara de Lisboa...apesar de ser primeira página, nunca os jornalistas do semanário de referência se dignaram a confirmar a notícia com ela. Eu já lhe sugeri, que por via das dúvidas, mandasse uma carta ao Expresso, esclarecendo que não era candidata à presidência da República, até porque não tem idade para isso...

Publicado por NRA em 02:56 PM | Comentários (0)

fevereiro 25, 2005

Crónicas Laborais

Hoje ouvi o Fórum TSF sobre o pacote liberal, o presidente da CIP que pediu a manutenção da legislação feita por Bagão Félix - ministro, muito religioso, que sabe que o caminho para o céu, dos ricos, se faz pela multiplicação dos pobres disponíveis para dar esmola, e como tal, faz tudo para aumentar o número de pobrezinhos . No programa da TSF, o chefe dos patrões garantiu que estava tudo bem, e que a prova disso é que quase não houve "conflitualidade social", durante este ano. Se o inefável Bello Van-Zeller tivesse trabalhado alguma vez na vida... por contra de outrém, saberia que a maior parte dos trabalhadores deste país encontra-se ameaçada com o desemprego galopante, a que as políticas neoliberais conduziram Portugal. Acresce ainda, que não há patrãozeco que se preze que não ameace repetidamente os seus funcionários com um expressivo: "ó fazem o que eu mando ou..."
A situação que se vive em Portugal faz-me recordar uma pequena anedota: Encontraram-se dois russos, que há muito não se viam, depois do fim da União Soviética. Falaram do passado e dos novos tempos. Um disse ao outro: "já viste que o que nos disseram sobre o comunismo era mentira". Ao que o outro anuiu e acrescentou prontamente: "mas, infelizmente, tudo o que nos disseram sobre o capitalismo era verdade".

Publicado por NRA em 03:52 PM | Comentários (2)

fevereiro 23, 2005

Capitalismo científico

A economia neoliberal baseia a sua cientificidade na persistência e na fé ideológica. No fundo, essa espécie de capitalismo com pretensões científicas vai dizer-nos amanhã porque razão aquilo que previu ontem não aconteceu hoje.
Em qualquer actividade humana aquilo que nunca resulta seria imediatamente escorraçado como errado. Na política neoliberal, o facto de andarmos de crise em crise, de aumento de desemprego em aumento de desemprego só prova que estamos no bom caminho.
Claro que estou a esquecer-me de um pequena parte da história: para muito poucos o aumento de desemprego significa mais lucros. A crise seria, como um dia disse Schumpeter, uma "destruição criativa".
Hoje, todos temos consciência que se a economia neoliberal funcionasse e fosse científica, tinha sido primeiro experimentada nos macacos...

Publicado por NRA em 09:09 PM | Comentários (2)

Azar o meu

Sempre que vou de férias, distribuem, aproveitando a minha ausência, coisas boas na redacção em que trabalho. Desta vez, foram certamente ácidos. Resultado o pessoal titulou, numa revista que viu hoje as bancas, "PSD ainda Líder". Gente egoista é malta tramada, não sobrou nem um bocadinho de "mata-borrão" para mim...

Publicado por NRA em 05:29 PM | Comentários (0)

fevereiro 20, 2005

O Momento do penalti

Já é a segunda amiga minha que diz que é capaz de votar PS com medo que a direita se mantenha. Felizmente que as minhas amigas representam uma percentagem diminuta da população nacional. No entanto, se o exemplo frutifica, o PS vai aos 48% e fica com as mãos livres para cumprir as "reformas" do PSD: pacote laboral, despedimentos de funcionários públicos, privatizações, abandono do serviço nacional de saúde, manutenção da lei do aborto e toda uma série de medidas que significarão mais do mesmo. O "voto útil" garante as alternâncias, mas não permite as alternativas.
Para que conste, cá vai a previsão:
PS- 46
PSD-29-30
CDU-8
CDS-7
BE-5-6

Publicado por NRA em 04:16 PM | Comentários (0)

fevereiro 19, 2005

Uma descoberta gastronómica

O brilhante João César das Neves dá uma genial entrevista ao Indepedente.
Fiquei a saber que fazer sexo com preservativo é o mesmo que comer pasteis de nata. Li a frase e fui, esperançado, a correr comprar pasteis de nata. Infelizmente, não consegui o efeito pretendido. Pus-me a pensar e por mais que dê a volta à cabeça não consigo imaginar posição, geometria, dinâmica, arquitectura, tesão, arte e esforço que tornem o sexo com preservativo (presumo que uma espécie de canela no pastel) igual ao adocicado e famoso bolo de Belém. A vida sexual de João César das Neves é muito estranha!

Publicado por NRA em 12:00 PM | Comentários (2)

fevereiro 15, 2005

Vontade de escrever histórias

Tenho estado de férias. Tirei 15 dias. Sai da redacção em que "edito" mais de 80 páginas de uma revista com bons jornalistas, mas que não me satisfaz, a mim, nem a eles. Escolhi fazer uma pausa. Apetece-me mudar de vida e voltar andar em reportagem. Ando por estes dias em campanha eleitoral,
Depois do carrocel das feiras, arruadas, almoços e comícios guardo algumas horas para ultrapassar a lufa a lufa dos dias e leio o último livro de Paul Auster. "A Noite do Oráculo" começa com o protagonista a escrever num "caderno português" (que raio será?). As linhas amontoam-se a partir de uma história contida numa passagem do "Falcão de Malta", de Dashiell Hammett, em que se conta a história de um homem que um dia foge de casa, abandona a mulher e a família. Filcraft, assim se chama este homem comum, tinha vivido a sua vida normalmente até ao momento que uma viga de umas obras fica a uns centimetros de o matar. Ai tudo se torna insuportável. Sem olhar para trás nem se despedir, resolve "viver". Desaparece, vai para uma outra cidade e começa tudo de novo. Passado uns anos, é encontrado a viver uma existência absolutamente igual à que deixou.
Aparentemente segundo Auster e Hammett, tentamos mudar tudo, para que tudo fique na mesma. Mas é esta ilusão de mudança que nos faz querer acordar.
Tropecei recentemente em duas histórias, que me apetece vir um dia a escrever.
Conheci, há muito tempo, uma rapariga, era namorada de um amigo meu, que foi modelo, saía em capa de revistas. E que a certa altura resolveu tornar-se freira. Depois de viver em clausura parece que quebrou e estilhaçou-se. Saiu do convento para curar-se, porque só assim poderia voltar a envergar o hábito sem o qual não consegue aguentar os dias. Parece que está muito diferente, já não se parece com a rapariga despida numa banheira que fazia a capa de uma revista da moda dos anos oitenta. Quando pensei em escrever esta história, fui à procura das revistas e fotografias. Olhei para elas a tentar perceber o que pensava o olhar da foto.
As imagens têm esta capacidade de pararem no tempo e de nos parecerem querer revelar as ideias de quem lá está inscrito num momento suspenso do universo.
Por coincidência, descobri hoje a fotografia de alguém com quem trabalho, junto com um jovem que foi morto a tiro pela polícia. A fotografia mostra o rapaz que veio a ser morto sentado e duas raparigas, em pé atrás dele. Devem ter quase 17 anos. As mãos das miudas estão reposadas nos ombros do rapaz de uma forma cumplíce. Ele olha em frente com a segurança de quem a vida é para ser respirada às golfadas. A minha conhecida é normalmente uma pessoa reservada e timida. A expressão que tem na foto parece muito diferente.
Um dos livros mais geniais de Jorge Luis Borges (Ficciones) tem uma história que dá pelo nome de "O Jardim dos Pinheiros que se Bifurcam". Aqui existem vários tempos sobrepostos que abarcam todas as possibilidades. "Não existimos na maioria desses tempos; em alguns existe você e não eu; em outros, eu, e você não; em outros, os dois. Neste que a sorte me permite, você chegou a minha casa; em outro, você está atravessar o meu jardim e encontra-me morto" (a tradução é minha e demasiado simplista).

Publicado por NRA em 02:27 AM | Comentários (0)

Citações para Santanas perdidos

"Não é por causa do espelho que tens a cara torta" Gogol

Publicado por NRA em 01:25 AM | Comentários (0)

A vigilância popular

Recentemente, António Barreto, a propósito da onda orquestrada de boatos contra José Sócrates, defendeu que os líderes políticos deviam dar o máximo de informações sobre a sua vida privada, para não serem vítimas da maldicência e de chantagens políticas. Acho a ideia muito duvidosa. Por um lado, a vida privada está longe de ser o melhor aferidor da qualidade dos homens e das mulheres. Ser bom chefe de família não garante nada. Consta que antes de matar a mulher e os filhos, para depois se suicidar, Goebbels era um excelente pai de família, mas isso não o impediu de ser um dos obreiros do poder nazi.
Por outro lado, dispenso bem qualquer informação sobre a vida pessoal das diversas lideranças. É um tipo de informação comezinha que apenas serve para alimentar o voierismo e desviar a política das verdadeiras questões. A vida sexual do dr. Paulo Portas e dr. Santana Lopes, qualquer que sejam as suas escolhas, não os distinguem de milhões de outras pessoas e não afectam a vida dos portugueses, já a sua política de governo é um desastre que merece ser discutido e condenado.
Para os adeptos destes conhecimentos inúteis deixo-os uma muito útil citação dos tempos do Presidente dos Estados Unidos Gerald Ford, de quem um cronista afirmou maldosamente que "não conseguia andar e mascar pastilha elástica ao mesmo tempo". Em 1976, os medias estavam muito interessados no estado de saúde de Ford, para responder a esta preocupação a Casa Branca divulgou um relatório de saúde muito completo sobre o ocupante presidencial: "O senhor Ford tem problemas com os joelhos, ambos operados tempos atrás; compensa-os entretanto através de vigorosos exercícios físicos quando se levanta às 5.30 h da manhã nadando diariamente 400 m na piscina ao ar livre que mandou construir na Casa Branca. À noite, ele só se levanta uma vez para aliviar a bexiga, dorme bem, não teve reacções nervosas depois das tuas tentativas de assassínio de que foi vítima. Os seus dentes estão manchados pela nicotina, Tem testículos normais e simétricos. O presidente não apresenta tendências depressivas. As suas fezes são escuras e bem formadas".
Isto sim é democracia, quando é que conseguiremos este nível e saber, a tempo e horas, as aplicações de botox do Paulo Portas e a textura das fezes de Santana Lopes. Agora consigo entender os argumentos daqueles que defendem a aproximação entre eleitos e eleitores e denunciam o nosso défice democrático.

Publicado por NRA em 12:27 AM | Comentários (0)

fevereiro 14, 2005

Formatação e transparência

Um antigo Presidente dos Estados Unidos da América Woodrow Wilson observou certa vez, a respeito das campanhas eleitorais, "Seremos sempre obrigados a escolher o nosso primeiro magistrado entre atletas sábios e prudentes- uma categoria bastante limitada". É certo que Woodrow Wilson analisava as campanhas norte americanas que duram mais de três meses, entre primárias e eleições. Mas é verdade que a maratona de mercados, jantares, almoços, arruadas e comícios é cansativa e estranhamente inútil. Na maior parte dos casos, as coisas só têm importância quando aparecem na televisão e restantes medias. A nossa acção política limita-se à tentativa de arranjar um cenário, que se tenta que seja diariamente diferenciado, para a cobertura mediática que vai passar a imagem que prova que os candidatos estão a fazer campanha e existem.
O exemplo histórico mais esclarecedor foi o nascimento do mítico "Paulinho das Feiras": há duas eleições legislativas Paulo Portas estava a realizar um comício no início da campanha eleitoral. Na altura, começou a chover abundantemente, militantes, simpatizantes e mirones conseguiram abrigar-se todos em metade do minúsculo palco que encabeçava o evento. A imagem fez a delícia dos comentadores. Nas acções seguintes, Paulo Portas optou pelas feiras e mercados - estão sempre cheios e são um excelente cenário para a sua verve inteligente e simplista.
Um dia conseguiremos perceber que são os media que formatam as campanhas; e estas que formatam o discurso político; e não o contrário. Há que reinventar, ou mesmo inventar, um modelo de acção político que subverta as mediações mediáticas (desculpem a repetição), cada vez mais ditadas pela lógica da simplicidade e do espectáculo. Se não o conseguirmos fazer não haverá expressão política radical e livre que consiga sobreviver.

Publicado por NRA em 11:54 PM | Comentários (0)

fevereiro 04, 2005

Espantoso e totalmente inusitado

Depois do debate de ontem, aconteceu algo de surpreendente e nunca visto. Ainda me estou a beliscar, a tentar acreditar se os meus sentidos não me enganaram: o António José Teixeira afirmou que o Sócrates tinha ganho o debate, e ,pasme-se, Luís Delgado garantiu que Santana Lopes tinha sido o vencedor

Publicado por NRA em 11:39 AM | Comentários (3)

fevereiro 03, 2005

Ó Saloio olha o balão!

Fico sempre maravilhado com as palavras comedidas e sábias de alguns comentadores sobre a beleza do "modelo americano" de debates televisivos. Nos Estados Unidos da América teriamos debates em número suficiente, feitos com os "verdadeiros" candidatos ao cargo, etc, etc...
Quando enunciam com ar basbaque, com que um boi olha para um palácio, esquecem-se sempre de referir um pormenor: os debates nos EUA são organizados pelos dois partidos, que decidem tudo, sem intereferência dos jornalistas. Esse modelo foi seguido pelos republicanos e democratas, apenas para impedir que o seu monopólio de poder fosse perturbado por terceiros. Depois do fenómeno Perot os dois partidos do sistema tomaram os debates em mão para impedir, nomeadamente, a presença de Nader nos debates com Gore e Bush. Viva a liberdade de imprensa!

Publicado por NRA em 04:13 PM | Comentários (0)

Propaganda trocada

Afinal as agências de publicidade estão trocadas! A que assina PS, acaba por fazer propaganda para o PSD e a que assina PPD/PSD é autora de uma genial campanha para garantir a maioria absoluta do PS.
O último cartaz atribuído "falsamente" ao PSD é exemplar: vê-se um conjunto de ex-ministros do PS, mais José Sócrates, sublinhados com uma legenda deste tipo: "Quer mesmo que eles voltem?". É preciso dizer ao genial criativo laranja, quando alguém se lembra do governo do Pedro Santana Lopes, fica disposto a aceitar todos os regressos e até prefere um governo constituído pelo Pateta, o Pluto e a Abelha Maia.

Publicado por NRA em 03:17 PM | Comentários (0)