junho 30, 2004

Cruyff

"Um jornalista brasileiro chamou-a de "desorganização organizada". A Holanda tinha música e o que regia a melodia de tantos sons simultâneos, evitando a confusão e a desafinação, era Johann Cruyff. Maestro da orquestra e músico, Cruyff trabalhava mais do que todos.
Aquele magrinho eléctrico tinha entrado para o Ajax quando era menino: enquanto a mãe servia na cantina do clube, ele recolhia as botas que iam para fora, limpava as chuteiras dos jogadores, colocava as bandeirinhas nos cantos do campo e fazia tudo o que lhe pedissem e nada do que lhe mandassem. Queria jogar e não deixavam, pelo seu físico demasiado frágil e o seu carácter demasiado forte. Quando o deixaram entrar, ele ficou. E ainda miudo estreou-se na selecção holandesa, jogou estupendamente, marcou um golo e com um murro fez o árbito desmaiar.
Depois continuou sendo esquentado, trabalhador e talentoso. Durante duas décadas ganhou 22 campeonatos na Holanda e na Espanha. Parou aos 37 anos, quando acabava de fazer o seu último golo, nos braços da multidão que o acompanhou do estádio até a sua casa".
EDUARDO GALEANO

Publicado por NRA em 03:49 PM | Comentários (0)

Viagens e livros (1)

Gosto muito de viajar. Gosto da sensação de poder estar num sítio 40 dias a tentar imergir, sabendo que posso voltar a fugir, e que, ao contrário de Portugal, não sou obrigado a lá viver. Estranhamente, não gosto de turismo, prefiro deslocar-me para fazer algo, ou deambular à procura de qualquer coisa. Infelizmente, já não sou jornalista da SIC e, também, a concepção de notícia da maior parte das televisões alterou-se muito: a maior viagem/reportagem que um jornalista pode ambicionar nas redacções é ir à beira da piscina do José Castelo Branco ou a um paquete dos "famosos".
Por isso, resta-me ler enquanto imagino uma próxima saída.
Fica aqui uma passagem de um livro de viagens de Roger Vailland, o livro chama-se "Borubudur" e é uma espécie de apontamentos de viagem do escritor à Ásia e à Indonésia, durante os anos 50 (?).
"Neste mesmo dia de Natal, às 10 horas da noite, o nosso avião pousa em Carachi, capital do Paquistão; é já a India, onde dispomos de três horas para jantar e para o avião se reabastecer.
Os passageiros desatam o cinto e levantam-se para sair do avião:
-Não, não - exclama a hospedeira, que tem a experiência da carreira. -Por favor, por favor fiquem sentados...
Passa um instante.
A porta da cabina entreabre-se. Duas mãos enluvadas de branco segurando uma espécie de grande irrigador passam pela abertura. O irrigador lança na cabina uma nuvem que tem o cheiro daqueles desinfectantes que se vaporizam para matar moscas, mosquitos, traças, percevejos, etc...

O irrigador afasta-se, fecha-se a porta, os passageiros levantam-se outra vez:
Não, não - grita a hospedeira do ar. - Fiquem sentados...
É que são precisos dez minutos, segundo o regulamento do serviço de saúde paquistanês, para que a primeira vaga de desinfectante tenha tempo para matar os mais virulentos miasmas que somos portadores.
Dez minutos passam.
Sobe a bordo um enfermeiro paquistanês, transportando o mesmo irrigador precedente. Aproxima-se de cada passageiro, um por um, envolve-o numa nuvem individual de desinfectante, irriga-o sob a camisa, nos cabelos, na dobra das calças. Depois de terem sido chamados piolhosos durante dezenas de anos por velhas inglesas que não se lavavam numa bacia paquistanesa sem a terem purificado queimando-lhe álcool, os paquistaneses, agora independentes, vingam-se a pulverizar de Flyt os brancos que fazem escala nos seus aeroportos. Os meus companheiros de viagem habituados às atenções dos rapazes da colónia, formulam desejos, em voz baixa, para que o Paquistão inteiro seja votado à destruição atómica.
Só os passageiros provenientes do Ocidente são submetidos a esta desinfecção.Os aviões vindos do Extremo Oriente não são sujeitos a tais medidas preventivas. O Paquistão só teme os miasmas ocidentais".

Publicado por NRA em 03:18 PM | Comentários (2)

Manual de receitas do activista (1)

Dado os tempos conturbados que se aproximam vou inaugurar uma secção de natureza pedagógica, com o fito de abordar as mil e uma maneiras de cozinhar o Santana e de animar a malta. Devido à proximidade do Conselho Nacional do PSD vou começar com uma entrada sobre "o cacerolazo" (uma espécie de concerto com tachos).

CACEROLAZO

Os concertos com tachos e panelas começaram mal: no Chile de Allende foram usados em manifestações de donas de casa da burguesia abastada para contestar o governo eleito da "Unidade Popular"; em Portugal a extrema-direita ligada à Vera Lagoa tentou fazer algumas acções deste tipo durante o PREC. Apesar destas ligações pouco simpática, o "cacerolazo" foi reablitado pelo movimento popular argentino e pelas assembleias de bairro, que a partir de 2001 começaram a utilizar esta forma de acção como forma de expressar a oposição aos constantes aumentos de preços e à submissão dos governos da argentina à desastrosa política económica neoliberal do FMI. Esta forma de contestação foi "exportada" e também utilizada durante o Fórum Económico Mundial em Nova Iorque e em acções de "sem papeis", "sem casa", "sem trabalho", em Paris.
As vantagens são óbvias: é fácil de realizar, funciona bem para os media, cria agitação e tem, em condições de descontentamento grandes, uma grande capacidade de expansão. Em português (desconheço se se verifica em outras línguas), tem o picante de "tacho" ser utilizado para lugar político que se ganhou sem merecimento e por "cunha".

Publicado por NRA em 02:43 PM | Comentários (1)

Citações para uso em estádios e casamentos

"A nossa nacionalidade é como o nosso relacionamento com as mulheres: demasiado envolvida com a nossa natureza moral para ser honrosamente alterada e demasiado acidental para que valha a pena ser mudada."
GEORGE SANTAYANA

Publicado por NRA em 02:27 PM | Comentários (1)

O Tacho do Durão e o voto do Zé

É oficial, na próxima quinta feira, às 18.30, à frente da sede do PSD, na Rua São Caetano a Lapa, vai acontecer a primeira acção de guerrilha culinária. Um animado grupo, que quer "cozer" o Santana, promove uma batucada de tachos, sob o lema: "Abaixo os tachos, vamos votar!". O discurso ideológico é muito mais completo. O comunicado a que o "Muro" teve acesso, diz a certa altura: "nem conselho, nem congresso, o zé e a Maria (profusamente citados pelo José D. Barroso nos congressos) querem votar!"
A batucada de tachos, aberta a todos os gastronomos, vai acontecer durante a reunião do Conselho Nacional do PSD que vai "entronizar" Santana.
Aparece, leva um tacho e uma colher para animar os laranjinhas....

Publicado por NRA em 03:50 AM | Comentários (3)

junho 29, 2004

O candidato a candidato

Apetece-me ir para longe. Fazer "Game Over". Estou farto da procissão de santanas, comentadores e treinadores de bancada. Mando SMS e mails para a manif de logo, não pelo medo da tragédia, mas pela consciência do ridículo.
Lembro-me dos discursos do Santana Lopes nos congressos do PSD, da azáfama dos jornalistas, nos previamente anunciados momentos da emoção. Santana subia ao palanque, aquecia os motores virava-se para o líder de turno e iniciava o intímo tratamento por tu; a função sucedia-se com os costumeiros ademanes de toureiro e a cascata de frases redondas. Tudo para as lantejoulas, nada para o conteúdo!
Claro que Portugal com Santana não é uma ditadura, é apenas um circo triste com pretensões a "democracia" madeirense.
Esta porcaria toda será solúvel pelo riso?
- É capaz de não bastar, mas ajuda muito.
Exemplo do humor em tempos verdadeiramente difíceis é a biografia do médico Noel Nutels feita por Moacyr Scliar, "A Majestade do Xingu". Gosto particularmente do início (acho que inspira qualquer um):
"Chegaram no quarto, bateram na porta e, como ninguém respondesse, foram entrando. Ali estava o Noel, deitado, olhos fechados, respiração estertorosa-morrendo. Os generais, consternados , não sabiam o que fazer. O que podem cinco generais fazer ao redor de um moribundo? Nada. Olhavam, simplesmente. E esperavam que alguma coisa acontecesse.
Aconteceu. De repente o Noel abriu os olhos. Abriu os olhos e olhou os militares. Os dois que estavam a oeste da cama, os dois que estavam a leste, o que estava ao sul - a norte não havia general algum, faltava general para norte, e mesmo que houvesse de nada adiantaria, ao norte a cama estava encostada à parede, nenhum espaço sobraria para um general, por magro que fosse; olhou todos, um por um, com aquele olhar debochado dele. Um dos generais perguntou como ele estava. E o Noel, que, mesmo morrendo, continuava o gozador de sempre, respondeu: estou como o Brasil, na merda e cercado de generais".

Publicado por NRA em 03:54 AM | Comentários (0)

junho 28, 2004

Correr com Santana!

Terça feira, às 19 horas, quando Durão anunciar a sua "saída", todos a Belém contra a golpada de Santana.
Astronautas, donas de casa, agricultores e demais tribos urbanas são fundamentais.
(Resolução voluntarista de alguns milhares que foram a Belém ontem à noite).

Publicado por NRA em 11:34 AM | Comentários (3)

junho 27, 2004

Quem tem medo das eleições?

Um dos animadores do Blasfémias escreveu isto no respectivo Blog: "Winston Churchill, primeiro-ministro. Foi nomeado após a demissão de Chamberlain. O povo não votou nele".
O exemplo é muito elucidativo, resta saber se serve para alguma coisa. Podia dizer-se com igual candura que Kim Jung Il sucedeu a Kim Il Sung e, também, não houve eleições. Hitler foi eleito por duas vezes, portanto devemos proibir as eleições?
A questão em Portugal é, em minha opinião, bastante diferente:
Depois do PSD e o PP terem perdido estrondosamente as eleições europeias torna-se politicamente pouco sustentável mudarem de primeiro-ministro, de governo e eventualmente até de programa sem irem previamente a votos. Será que alguém acredita que na situação de crise em que o país se encontra que não é preciso um governo politicamente forte? Será que há algum português, para além do próprio Santana, que pense que ele ganharia umas eleições antecipadas?
O facto de ser constitucionalmente "legal" manter o PSD no governo, nestas circunstâncias, não é o único critério. O Presidente da República, que é eleito por sufrágio universal e directo, serve exactamente para ver das condições políticas que estão contidas no espírito desta magna carta e não, exclusivamente, na letra da dita lei fundamental. Foi neste sentido, que por exemplo ,o na altura, Presidente Mário Soares impediu a formação de um governo PRD/PS que resultava de uma maioria parlamentar, após a queda do governo minoritário de Cavaco Silva, e convocou eleições antecipadas.
O governo que resultar dos arranjos de bastidores do PSD e PP não terá nem força, nem legitimidade política para governar nestes tempo difíceis. E tendo à frente o populista Santana apenas terá como objectivo ser reeleito daqui a dois anos. Serão colados milhares de cartazes, desperdiçados milhões de euros em apoios duvidosos e em medidas demagógicas e o país ficará estavelmente de tanga!

PS- Já sei que vamos acordar com panos em todas as obras e cartazes em todas as terras a dizer: "Já reparou que a retoma já chegou!". Mas tirando para o "marqueteiro" brasileiro do Dr. Santana, a dita retoma continuará uma miragem.

Publicado por NRA em 04:56 PM | Comentários (2)

junho 26, 2004

Todos a Belém, para apanhar o Santana.

Não sei quem convocou a manif contra Santana, mas já me enviaram 10 SMS sobre isso. Aqui fica um dos textos: "Todos a Belém no Domingo às 19 h contra Santana Lopes primeiro-ministro! Abaixo o governo da treta! Envia este SMS a toda a gente, já!

Publicado por NRA em 06:29 PM | Comentários (1)

junho 24, 2004

Ganham os Emigrantes

Num excelente texto publicado no "El Pais" durante o anterior europeu de futebol, Jorge Valdano escrevia que as equipas dos paises com campeonatos "mais pobres" que exportam jogadores, estavam a começar a ganhar às selecções dos grandes campeonatos/negócio.
No Euro 2004, já se foram embora a Espanha, a Itália e a Alemanha. Só falta a Inglaterra, esperemos que não seja a excepção para confirmar a regra.
Daqui a dois anos, quando voltar a haver pachorra para ouvir falar de futebol recomendo dois livrinhos divertidos:
"Futebol ao Sol e à Sombra" de Eduardo Galeano, e a "Colina da Saúdade" de Moacyr Scliar.
O segundo livro, que infelizmente emprestei e acho que esqueci o título, fala da competição entre duas equipas no Rio Grande do Sul, e como, paulatinamente, a equipa financiada pelo industrial vai ganhando à equipa do "coronel" possuidor de terras. Tudo se transforma quando a equipa derrotada vende o Estádio e terrenos para um mega centro mortuário, uma espécie de pirámide dos mortos. A partir dai, o "time" vai poder contratar novos jogadores, pagando as transferências em jazigos perpétuos. Como em quase todos os livros de Scliar o humor e a estranheza estão ligados a histórias reais.
O livro de Galeano é uma homenagem ao futebol, através das pequenas histórias dos seus jogadores. Quando vi, há dias, um documentário sobre o futebol e o fascismo lembrei-me dele.
Aqui fica, com a devida vénia, uma passagem: "Depois chegou a final, que a Itália disputou contra a Hungria. Para Mussolini, este triunfo era uma questão de Estado. Na véspera, os jogadores italianos receberam, de Roma, um telegrama de três palavras, assinado pelo chefe do fascismo: "Vencer ou morrer". Não houve necessidade de morrer, porque a Itália ganhou por 4 a 2. No dia seguinte, os vencedores vestiram uniforme militar na cerimónia de comemoração, presidida pelo "Duce".
O jornal "La Gazzetta dello Sport" exaltou então "a apoteose do desporto fascista nesta vitória da raça". Pouco antes, antes a imprensa oficial italiana tinha comemorado assim a derrrota da selecção brasileira: "Saudamos o triunfo da inteligência itálica contra a força bruta dos negros".

Publicado por NRA em 02:40 PM | Comentários (2)

junho 22, 2004

Levem todos, SFF

(Acho que há alguns egoismos saudáveis, por isso mudei de opinião, de um post para o outro, há que fazer a pátria sobreviver...)

Sempre que temos um mau primeiro ministro - e não me lembro de nenhum bom -, a Europa tentar salvar-nos e levá-lo para presidente da Comissão Europeia. Será que não podem também levar os ministros? Cá vai a lista:
A Piranha de água benta (Bagão), o Portas, a Manuela....

Publicado por NRA em 10:51 PM | Comentários (2)

Fica Barrosão

Deve ser feita uma lei com sentido - como diz o inefável José Luís Arnaut - de "portugalidade", que impeça a ida para Bruxelas de Durão Barroso. Há determinadas coisas, que a bem da nação, devem ser mantidas em segredo. Já basta o Durão ser uma vergonha nacional, escusa de ser um escândalo internacional.

Publicado por NRA em 10:35 PM | Comentários (0)

junho 19, 2004

Aritmética da morte

O relatório da comissão de inquérito norte-americana aos atentados de 11 de Setembro tem vários detalhes assombrosos do ponto de vista político, mas não é nessa discussão que quero entrar. A guerra tem milhares de anos e práticas, numerosos teóricos e celebrados praticantes, e a violência mais ainda. Talvez não haja, portanto, surpresa nesta cena de uma macabra peça. Algures numa base da Al-Qaeda, no Afeganistão, «os recrutas eram livres de pensar criativamente em formas de cometer assassínios em massa». Excluamos agora a ideológica escolha das palavras, para nos concentrarmos nesta tenebrosa imagem de um brainstorming de morte, com os “alunos” a disputarem entre si a criatividade de um mal maior feito de mortes inocentes. Ser capaz de reduzir o outro a este nada é a vitória do terror. Ora a cultura árabe (a quem se atribui a invenção do zero, por junto com a Mesopotâmia...) não tem, longe disso, este exclusivo – não esqueçamos Hiroshima. A fractura civilizacional está, pois, na recusa da violência, no reconhecimento do outro como igual, na interrupção desta aritmética de morte. Há que começar algures em nós.

Publicado por João Paulo Cotrim em 10:55 PM | Comentários (0)

Santamista

O alinhamento temático dos jornais varia qualquer coisa, mas nem tanto assim. Há pequenas diferenças entre o lugar do desporto, da economia ou da cultura na pequena ordem das coisas que vai da capa à contracapa. Tendo em conta o peso, o mistério e o charme penteado de uma das nossas figuras políticas, sugiro uma nova secção: santamista, uma tosta-mista de policial, negócio e baixo jet set. Espreitem três dos periódicos de referência este fim de semana, que até me parecem distraídos de tanto que haveria para dizer:
Expresso, uma página inteira falando de um negócio inexplicável na 24 de Julho, de um despedimento por algumas horas por causa do hipódromo em Monsanto, sem falar das mais recentes evoluções do caso Parque Mayer, agora envolvendo a EPUL (só disponível em papel ou pagando on-line).
Diário de Notícias, outra página dando conta da novela «túnel do Marquês, esse grande buraco».
Público, primeira página do Local Lisboa, dando conta da homofobia do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, mas mais umas quantas no miolo.
É um exemplo de hoje, só para não vos maçar com muitos outros. Para mim, inexplicável é só a indiferença perante este fenómeno da nossa política: vazio de ideias, zero de concretização, negociatas inenarráveis. Como diz o outro, quem se chega à frente?

Publicado por João Paulo Cotrim em 08:01 PM | Comentários (1)

junho 18, 2004

Quem se chega à frente?

Estou de acordo. O tempo não veste de azul (algum, alguma vez usou a cor dos céus?), pelo que se adivinham tempestades. Estou de acordo com José Manuel Fernandes, partindo do princípio que as nuvens não são resultado de camuflagem estratégico-militar. E o editorial lá vai descambando, como é hábito, para o patético-poético nas descrições do mau tempo que nos espera, com as «nuvens a adensarem-se em todos os horizontes». Até que chega a conclusão, perigosa como sempre: precisamos de «homens determinados até à teimosia e optimistas até à irracionalidade». Fernandes anseia por que bela e franksteiniana mistura? Déspotas esclarecidos, predestinados por Deus e bem formados pelo Homem, assim como um pai ideal, feito com o ar bon vivant e maroto do Churchil, com a pose vaidosamente estadista de um De Gaulle, a verve encantatória de Lenine e a firmeza esclarecida de Franco? E por que não um qualquer D. Sebastião, cruzamento de Monarca, Condutieri e Führer mas politicamente correcto? Pode sempre sair desta genética ansiosa um determinado até à irracionalidade e optimista até à teimosia. Por detrás do nevoeiro apocalíptico, quem se chega à frente? Quem és tu, romeiro do populismo?

Publicado por João Paulo Cotrim em 06:52 PM | Comentários (0)

junho 13, 2004

Mapa mundi

Sei que devem andar mergulhados nas leituras políticas dos resultados. E, a esse propósito, quero aqui fazer uma declaração política. A Europa que me interessa estará aqui perto, em Sines, de 29 a 31 de Julho, no magnífico Festival de Músicas do Mundo. A Europa que me interessa é deste mundo que fica algures entre o Mali de Rokia Traoré e o Brasil de Tom Zé. A elegância da voz dela e a inventividade da composição dela trazem mais política no coração do que este paleio todo. Vai ser uma festa sem abstenção.

Publicado por João Paulo Cotrim em 11:52 PM | Comentários (0)

junho 11, 2004

Idiotas

O spot de promoção das eleições europeias foi censurado na Bélgica, na Irlanda, no Luxemburgo e na Dinamarca. As autoridades mostraram-se revoltadas com esta imagem de uma mulher a amamentar uma criança. Graças a Deus que o Dr. Paulo Portas estava distraído, o Dr. Bagão Felix ocupado a despedir gente e o menino João Almeida calado.

Publicado por NRA em 03:37 PM | Comentários (3)

junho 08, 2004

Exijo...

... que o Arnaut me escreva! Todos receberam a p... da carta e eu nada?! Se até sábado, estou a avisar, não a receber desatarei a tratar mal todos os estrangeiros, a rasgar bandeiras nacionais (sobretudo as das lojas dos trezentos que têm doses diferentes de vermelho e verde), a torcer pela Espanha. Que é que eu tenho a menos que os outros? O ministro mais alto ignora, depois dos carecas e dos orelhanões, o gordo baixinho? Ainda acabo a fundar um partido contra o sistema e os correios.

Publicado por João Paulo Cotrim em 05:29 PM | Comentários (5)

Barulho e circo

O preço a pagar por viver numa cidade cosmopolita, verdadeiro coração do universo do entretenimento e da cultura, esse desporto das classes médias, como lhe chamou o Júlio Pinto, é este: barulho toda a noite. Por causa do campeonato nacional, depois devido ao europeu de clubes e agora, fico à espera, do Euro 2004, as noites têm sido uma festa pegada. Está quase aí a via sacra dos santos populares, somando ao barulho o cheiro entranhado da bela sardinha. Mas antes disso, o mediaticamente correcto Rockinriolisboa resolveu brindar-nos com fogo de artifício às três e às quatro da manhã, respectivamente. Com permissão da entidade fiscalizadora, certamente. Cá em casa, se puxo o autoclismo ou solto um pum depois da meia noite recebo a visita da polícia, mas pelas ruas a malta avulso ou à molhada pode fazer o estardalhaço que entender e nós que nos aguentemos. É tudo a bem do circo, que o pão anda duro, como lhe chamou o Júlio César.

Publicado por João Paulo Cotrim em 05:19 PM | Comentários (0)

Portas avariadas

Sei que isto da baixa política, aquela próxima do cidadão-anão, interessa pouco, mas devo chamar-vos a atenção para um detalhe. A extraordinária reforma desse extraordinário transporte colectivo que é o Metropolitano de Lisboa que consistiu na transformação da entrada livre em portas-guilhotinas (sem revolução), e que implicou, como todas, em milhões de euros, está em lindo estado: não há uma única estação sem fitas a prender os portões de vidro ou placas a anunciar «Avariado». Para quem gosta de decidir em nome da eficácia, acho isto muito bonito. Quem ganhou com a “reforma” e o “avanço tecnológico” e a “gestão integrada” e inevitável “afectação racional de meios”? Está aí alguém ou anda tudo avariado? Ninguém protesta. Todos aceitamos.

Publicado por João Paulo Cotrim em 05:17 PM | Comentários (0)

PUXAPALAVRA


Novo Blog , com João Abel Freitas, Manuel Correia, Mário Lino e Raimundo Narciso. Bem-vindos!

Publicado por NRA em 02:51 PM | Comentários (0)

O Grande Desígnio Nacional

O grande objectivo nacional na Europa, não é propor uma política económica menos estúpida (que acabe com o Pacto de Estabilidade), nem que a Europa não embarque em guerras injustas e dasastrosas, nem sequer ser contra a inscrição da NATO na Constituição Europeia. O grande desígnio nacional para o PSD, PP e PS é eleger António Vitorino. O actual Comissário Europeu é mais importante que qualquer política concreta e corporiza em sí aquela vaga acepção de "interesse nacional" que liga as dométicas, os pilotos, os desempregados da Bombardier, os estudantes, as mulheres que abortaram e esperam julgamento, os Skins, os assessores de Paulo Portas e o Galo de Barcelos. António Vitorino seria uma espécie de selecção nacional.
Eu pessoalmente, acho mais importante a política que se propõe que a nacionalidade do proponente. E nunca apoiaria nenhuma indicação de Comissário sem saber o que se propõe fazer. Mesmo que António Vitorino vá vestido à pauliteiro de Miranda, o facto de ter o apoio do PP e PSD, e claro do PS, não é uma garantia, pelo menos, para mim

Publicado por NRA em 01:06 PM | Comentários (0)

junho 07, 2004

Choques de estado

Está confirmado. O supremo líder do Império, apenas ele (mais uma dezena de conselheiros e outros tantos ministros da fé), pode usar a tortura para obter (belo eufemismo) informações relevantes que evitem atentados terroristas. Como o pior dos atentados para Bush e quejandos é pensar, algo me diz que estamos em maus lençóis. Confesso que sou fraco em tortura, mas adoro inventar histórias. Um choque eléctrico (20 W) nos túbaros parece-me argumento bastante para aderir ao islamismo (pelo menos). Eis a grande virtude civilizacional do Ocidente: podemos escolher sob tortura que mentira dá mais jeito escolher. Esperem! Estão a tocar à campaínha. Vou pedir asilo político ao Vaticano. Alguém tem o papa-mail?

Publicado por João Paulo Cotrim em 07:23 PM | Comentários (0)

Gates contra-ataca!

Mais uma instrutiva notícia sobre as guerras de Bill Gates para "derrubar" o governo brasileiro e a sua intenção de adoptar o sotware livre.
O texto é publicado pela agência de informação alternativa brasileira (Carta Maior) e foi referido pelo excelente (Gustavo Sampaio) do Grão de Areia da ATTAC.

CORRECÇÃO: O Post é do Luís Branco. Todos os elogios são poucos.
- Ó designer preguiçoso quando é que fazes mais um cartaz para o Grão de Areia e para aquele Blog de gente chata (tirando o Rui Tavares e aquele moço que anda em campanha).

MICROSOFT LANÇA OFENSIVA CONTRA GOVERNO BRASILEIRO

Incomodada com política do governo brasileiro de incentivar o software livre, empresa de Bill Gates diz que decisão é “influenciada pela ideologia”. Em 2003, a Microsoft faturou cerca de R$ 925 milhões no Brasil. O setor público é um de seus principais clientes.

Marco Aurélio Weissheimer    04/06/2004


Porto Alegre - A Microsoft está lançando uma ofensiva política no Brasil para tentar barrar o avanço do software livre. O presidente da Microsoft Brasil, Emílio Umeoka, deixou claro o tom dessa ofensiva ao dizer que a decisão do governo brasileiro de apoiar o software livre nos computadores do setor público está sendo “influenciada pela ideologia”. Segundo Umeoka, a escolha do governo Lula pode levar o país na “direção errada”, na questão dos programas de computador. Ou seja, na direção contrária aos interesses da Microsoft. “Se o país se fechar de novo - como fez quando protegeu o setor de tecnologia da informação (referência à Lei de Informática, adotada pelo governo brasileiro na década de 80 para proteger a indústria nacional) - daqui a 10 anos teremos uma posição dominante em algo insignificante”, argumentou o executivo.

Para a Microsoft, a decisão do governo em adotar o Linux no setor público pode prejudicar os negócios da Microsoft Brasil. A subsidiária brasileira contribui com cerca de 6% da receita mundial da Microsoft. Em 2003, a empresa faturou cerca de R$ 925 milhões no Brasil. A bronca da empresa é uma reação à decisão do setor público brasileiro apoiar e incentivar o desenvolvimento do software livre. Como parte desse programa, o governo começou a treinar 2.000 funcionários públicos para trocar o Windows pelo Linux em cerca de 300 mil computadores. Além disso, o governo incluiu a exportação de software em um plano de desenvolvimento industrial anunciado em março, que pretende fazer com que a exportação de programas chegue a US$ 2 bilhões em 2006. Em 2002, essas exportações ficaram na casa dos US$ 115 milhões.

Lobby nas campanhas eleitorais
A ofensiva política da Microsoft já foi identificada no Brasil, sob a forma de uma alerta. O fortalecimento dos laços do Projeto Software Livre com o setor público é percebido como uma séria ameaça pelas empresas que monopolizam o setor, como é o caso exemplar da Microsoft. Na abertura do 5° Fórum Internacional de Software Livre, em Porto Alegre, o presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), Sérgio Amadeu, alertou que os monopólios do setor estão se preparando para financiar campanhas eleitorais com o objetivo de deter o avanço do software livre. Segundo ele, este financiamento estaria ligado diretamente à contratação destas empresas para o fornecimento de softwares para a administração dos municípios, a preços altíssimos. Amadeu sugeriu que os eleitores prestem muita atenção nas empresas que farão doações de campanha aos candidatos.

A irritação da Microsoft é justificada. O governo brasileiro decidiu adotar programas de código aberto em grande escala, para economizar bilhões de dólares e aumentar a independência do governo de fornecedores como a Microsoft. O Brasil não é o único país que está fazendo essa opção. Os governos da França, China e Alemanha, entre outros países, estão adotando programas de código aberto como o sistema operacional Linux e o OpenOffice. Segundo Sérgio Amadeu, um dos objetivos centrais desse programa é fazer com que o país não dependa mais de apenas um fornecedor. O governo federal também estuda a concessão de incentivos para governos estaduais e prefeituras interessadas em adotar o programa. Cerca de 2.000 funcionários públicos serão treinados para instalar e ensinar os usuários sobre a operação do software livre.

Ao contrário dos softwares proprietários, como os da Microsoft, os programas de código aberto estão disponíveis ao público pela internet ou outros meios e podem ser copiados e alterados por qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. As empresas que trabalham com software livre não ganham com a venda dos produtos (programas), mas sim com a comercialização de serviços. A decisão do governo brasileiro de investir pesadamente nesta área foi qualificada pelo jornal britânico “Financial Times”, como um “duro golpe” para empresas como a Microsoft, que têm justamente no setor público um dos principais clientes. Em 2001, por exemplo, o governo brasileiro gastou cerca de US$ 1,1 bilhão com o pagamento de licenças de programas para computador.

Briga com a União Européia
A empresa de Bill Gates também está em pé de guerra com a União Européia (UE) que decidiu sancioná-la, no dia 24 de março deste ano, com uma multa recorde de 497,2 milhões de euros por “abusar de seu quase-monopólio no âmbito dos sistemas operacionais para computadores”. A Microsoft decidiu recorrer da decisão diante do Tribunal de Primeira Instância da UE. Os advogados da empresa querem a suspensão cautelar das medidas adotadas pela Comissão Executiva da UE. Além da multa, a UE determinou que a Microsoft desvinculasse, em um prazo de 90 dias, o programa multi-mídia Media Player do Windows, assim como divulgasse, em um prazo de 120 dias, o código fonte do programa, para garantir sua compatibilidade com os servidores das empresas concorrentes.

No recurso apresentado no tribunal da UE, os advogados da Microsoft alegam que a decisão “não está fundamentada em uma análise econômica correta”. Eles argumentam que não há nenhuma análise econômica para sustentar que a eliminação dos direitos exclusivos de propriedade intelectual tem, a longo prazo, efeitos benéficos sobre a inovação tecnológica. Quanto à exigência de separação entre Windows e Media Player, a empresa alega que não há nenhuma prova de que a vinculação tenha restringido a capacidade de escolha dos consumidores por outros programas áudio-visuais. Avessa à concorrência, a Microsoft segue tentando manter seu monopólio através da venda casada de programas e outros instrumentos, taxando os argumentos dos defensores do software livre como “ideológicos”. No entanto, o discurso de seus executivos e advogados não consegue esconder a ideologia da empresa, marcada pelas práticas do monopólio e da privatização do conhecimento.

Publicado por NRA em 05:14 PM | Comentários (0)

junho 06, 2004

Objectividade jornalística

Assisti ao panegírico feito pelos jornalistas da RTP a Reagan. Digno de um tempo de antena dos Republicanos. Agora, como é que o Pacheco Pereira vai sustentar a tese da venda dos jornalistas à esquerda radical. Ou Morais Sarmento já tomou medidas...

Publicado por NRA em 08:31 PM | Comentários (0)

Epitáfio

Ronald Reagan era um bandido. Promoveu o terrorismo, mandou treinar Bin Laden e criou os "contra" da Nicarágua. Pagava essas acções de "guerra suja" com dinheiro da droga. Os campos de papoila na Afeganistão tiveram um papel proiminente em algumas operações de financiamento da guerra fria, sem passagem pelo Congresso dos Estados Unidos da América. O escândalo Irão Contra foi apenas um grão de areia, num oceano de golpes sujos.
Na sua pátria, enriqueceu os muitos ricos e destruíu a protecção social dos pobres.
Quando uma vez lhe pediram um comentário sobre os norte americanos que combateram, durante a guerra civil de Espanha, nas Brigadas Internacionais pela liberdade e contra Hitler, Mussolini e Franco, ele respondeu que tinham estado do "lado errado". Ele que faça companhia aos do seu seu lado, que a terra lhe seja pesada.

Publicado por NRA em 08:25 PM | Comentários (3)

junho 04, 2004

É roubar vilanagem!

A Microsoft ganhou o direito de patentear os "dois cliques" do rato. A Notícia, da New Scientist, divulgada por Rui Tavares (Barnabé), vem mostrar até onde pode ir a estupidez liberal e privatizadora. Mas, o problema das patentes ainda agora vai no adro. Há empresas privadas a patentear genes humanos, plantas da Amazónia e informação que não lhes pertence. A mesma Microsoft pretende, com estas patentes espúrias, impedir a livre concorrência de projectos alternativos, sobretudo aqueles como o LINUX, que põem em causa a superioridade do capitalismo sobre as formas cooperativas de criação em rede. Sobre a questão, ler um interessante artigo no "Expresso"

Publicado por NRA em 03:17 PM | Comentários (2)

junho 03, 2004

Recomendação

A gerência aconselha a ida a este sitio (não é o que vocês estão a pensar).

Publicado por NRA em 10:49 PM | Comentários (2)

Ministra amiga, o censor está contigo!

O impagável José Manuel Fernandes, defensor da liberdade de imprensa do Pentágono no Iraque, acaba de, alegadamente, "censurar" uma notícia do jornal a pedido da amiga Ferreira Leite. O Conselho de Redacção demitiu-se, a Editora de Nacional também. Mas nem tudo corre mal para o nosso José, a maioria das chefias estão com ele. O respeitinho é muito bonito.
Leia a notícia da TSF, sobre o caso:

MEDIA
Conselho de Redacção do «Público» demite-se
Em solidariedade com a editora da Secção Nacional, o Conselho de Redacção (CR) do jornal «Público» apresentou a demissão. Em comunicado, este órgão levanta a hipótese de ter existido acto de censura por parte da direcção do jornal.


22:34
02 de Junho 04

Em causa está uma notícia sobre Manuela Ferreira Leite. Na abertura da Secção Nacional do «Público» estava escrito que a ministra das Finanças não tinha explicado por que não estaria isenta de coima fiscal mas, nesse mesmo dia, a ministra desmentiu a notícia através de uma nota pessoal dirigida ao director do jornal.

José Manuel Fernandes pensou em publicar a nota da ministra, tendo este trabalho sido dado pela editora da Secção Nacional, Ana Sá Lopes, ao jornalista João Ramos de Almeida.

O director propôs ser ele mesmo a escrever o artigo mas, Ana Sá Lopes considerou que isso não fazia qualquer sentido e pediu ao jornalista para tratar a informação.

A notícia foi paginada mas nunca chegou a ser publicada, porque a direcção decidiu retirar o artigo. Ana Sá Lopes demitiu-se.

José Manuel Fernandes falou com a editora e disse-lhe que tinha perdido a confiança nela e já há muito tempo que não confiava em João Ramos de Almeida. Disse ainda que a notícia não tinha sido publicada porque a ministra não queria que fosse o jornalista a tratar do assunto.

O Conselho de Redacção questiona, em comunicado, se se trata de censura, considerando que a notícia é inatacável e deveria ter sido publicada.

Outro comunicado foi, entretanto divulgado, assumindo a demissão de funções porque o director disse que não se reunia mais com aquele órgão.


 

Publicado por NRA em 07:57 PM | Comentários (3)

Leitura Furiosa

A LEITURA FURIOSA é um acontecimento, imaginado e levado a cabo pela Associação Le Cardan, que há mais de dez anos tem lugar durante um fim de semana por ano em Amiens. A Abril em Maio organiza, uma vez mais, a versão nacional no fim de semana de 11, 12 e 13 de Junho. Destina-se aos que, tendo aprendido a ler, estão "zangados" com a leitura - jovens e adultos, homens e mulheres, empregados e desempregados … Vários pequenos grupos de gente "zangada" com a leitura convivem durante um dia com um escritor, como entenderem fazê-lo: falam, trocam ideias, informações, experiências, escrevem e lêem se quiserem. Depois, o escritor escreve um pequeno texto que mostra no dia seguinte ao grupo. Falam sobre o texto, que transformam ou não. Os textos são ilustrados, à vista de quem colaborou na escrita, por um desenhador, paginados, distribuídos. Nesse mesmo dia, há uma sessão pública em que os textos produzidos são lidos em voz alta por actores. Os textos serão posteriormente editados em livro. Convém ler, furiosamente.

Publicado por João Paulo Cotrim em 03:55 PM | Comentários (0)

Esta merda do insulto já chateia

O ter existência física no 25 de Abril de 74 tem a desvantagem de já só ser "jovem agricultor", mas tem a benesse de me lembrar de muita coisa.
Sobre a degradação da política, o insulto e o grau zero do pensamento, recordo-me sempre de um folheto nas primeiras eleições presidênciais, em que se via, o candidato, Almirante e então primeiro ministro, Pinheiro de Azevedo vestido de centurião e com uns grandes tomates, inchados e vermelhos a aparecer por debaixo da saia. A Judiciária tomou conta da ocorrência e investigou os culpados deste crime lesa-magestade. Qual foi a surpresa dos agentes, quando descobriram que o folheto tinha sido mandado editar pelo próprio Almirante...
É verdade, nos anos quentes da revolução havia insultos e foclore, mas em Portugal decidiam-se coisas nas eleições. Hoje, parece que independentemente quem se vota o resultado é parecido.
O problema desta campanha, não é o excesso de berraria, mas a falta de interesse e participação. As pessoas estão demasiado embrenhadas em sobreviver para colocarem a cabeça para cima e tentarem perceber como estas eleições podem ser importantes. Para manter o tom, sempre quero dizer, que apesar das questões europeias serem muito importantes, acho que o mais fundamental é tornar insustentável a existência deste governo. Apanhar o Durão de calças na mão...
O que insulta mais a nossa inteligência nesta campanha são piadinhas de telemóvel, à Deus Pinheiro e a perspectiva de os aturar mais tempo. Como diz o Rui Tavares (do Barnabé): ET amigo leva estes tipos!

Publicado por NRA em 01:10 PM | Comentários (0)

Navegar contra a abstenção

Foi criado por um conjunto de blogs (Vento Lá fora, Grão de Areia, Barnabé, Blog de Esquerda, Muro e quem mais vier) um um espaço para discutir, opinar,protestar, pensar qualquer coisa sobre as eleições europeias.

Publicado por NRA em 02:34 AM | Comentários (0)

junho 02, 2004

Um folheto de Deus

Na minha caixa de correio desceu, esta manhã, um desdobrável de Deus. Pinheiro, que Deus não é certamente e a mística não bate assim. Fiquei triste por ter vindo com o correio e não gosto de más notícias por junto com as minhas cartas. Também não gostei que os CTT tivessem desrespeitado a minha vontade: «publicidade não solicitada nesta caixa não!». Enfim, trata-se de propaganda e – muito importante – vem de Deus e dirige-se a Portugal, penúltimo país na proximidade ao Senhor, para quem vem de baixo. (O primeiro é, adivinhou, o Vaticano, i.e., a América., i.e., estou confuso e indeciso...). «Uma Candidatura com voz na Europa e no Mundo», diz o título que leva batente, o que o surgir a nossos olhos como como voz tremida. Tremo por pensar que as eleições são também para o Mundo... Abro a primeira parte da coisa e o fundo lembra a pele das notas, seja de dólar ou euro ou o outra divisa qualquer. Por que raio conversão há-de ter sentido místico e monetário? Primeira lição: estas eleições tratam de dinheiro e de fé (futebol). Força, eleitor(a). Leio o texto, curto que acaba apelando à negociação e ao voto. Pelo meio diz que o presente é mau por causa do passado, mas o futuro, dentro de dois anos, será brilhante: Portugal vai crescer acima da média europeia e a criar emprego sustentado. Segunda lição: se o presente está entalado entre o mau passado e o bom futuro, estaremos sempre fodidos pois estamos condenados a ver no presente (futebol). Força, eleitor(a). Na bandana do meio vem cortejo de doutores e professores, mas é melhor ignorar pois Deus, pelo menos no Novo Testamento, não os tem em boa conta. Nota: Portas não ri, pelo que não há lição a tirar. Lá no fim, vem uma mão em gravura a marcar o x no quadradinho da coligação. Mão fixa, mão morta. Terceira lição: são assim os eleitores de Deus, mãozinha cristalizada a fazer que sim, que Xim. É um pontapé (futebol). Força, eleitor(a). Venha o exame, que a lição está estudada.

Publicado por João Paulo Cotrim em 04:56 PM | Comentários (3)

junho 01, 2004

Deus em Portugal

Mais um texto do nosso excelso colaborador João V. Claro:

Aqui há dias, um amigo francês disse-me – a propósito da insistência do nosso governo numa referência a Deus na Constituição europeia - que nos não sabia tão beatos e confessou-me que desconhecia que a nossa Constituição contivesse uma referência ao Altíssimo.

Desculpei-o duas vezes:

- Em primeiro lugar, porque não somos mais beatos do que os franceses: hoje, cada portuguesa tem em média 1,4 filhos, o que quer dizer que os conselhos em matéria contraceptiva do tio João Paulo não as perturbam em demasia, e as nossas igrejas estão tão vazias como as deles, apesar das relações incestuosas que a Igreja mantém com o Estado em Portugal.

- Depois, porque, por estranho que pareça, a nossa Constituição não contém – valha-nos Deus! – referência nenhuma ao Altíssimo; ou seja, o nosso governo – ao lado de super-potências morais como a Polónia, a Eslováquia, Malta e a Itália (do Berlusconi) - chateia a moleirinha a franceses, ingleses, alemães & outros para meter Deus na Constituição europeia, mas não parece incomodar-se com a pequena incongruência que resulta de, ao mesmo tempo, Ele não constar da Constituição cá da terra…

Eu desculpei o meu amigo francês, mas não desculpo o Durão Barroso: para os mais velhos, pareceu-me ter voltado aos anos 60, quando o António Calvário, de joelhos, a cantar a “Oração”, nos representava na Eurovisão… (“Senhor, a Teus pés eu confesso”: 0 votos, último lugar, vergonha nacional).

A nossa igreja é abusadora, e tem de ser posta no lugar. Longe de mim ser um anti-clerical tipo Primeira República: quem quiser acreditar que a Virgem apareceu a uns pastorinhos, e lhes contou uns segredos muito complicados, faça favor: embora esclarecido, não sou déspota, e não me proponho proibir o ópio ao povo. Agora o problema é que a igreja não se fica pelo reino de Deus e vem chatear a república dos homens; porque se mete na política, repito, tem de ser posta no lugar.

A melhor maneira disso acontecer é perder um referendo sobre a legalização do aborto. Quando isso acontecer – porque é evidente que, mais tarde ou mais cedo, isso vai acontecer – Portugal vai ficar diferente, e vai ficar melhor: deixa de alinhar com a Polónia e passa a alinhar com a Espanha ou a Bélgica (um pequeno milagre de modernização, portanto).

Ao contrário do que pretendia o Bloco de Esquerda (ou se calhar ainda era o PSR), quando na altura do primeiro referendo apareceu com um cartaz sexy, em que uma mão marota se metia à frente de uma vagina peluda, não se sabe bem para quê (além de perder votos), a legalização do aborto não serve para as mulheres terem “direito ao corpo” – nem essa fórmula pretenciosa deve ser contraposta ao suposto “direito à vida”, pelo contrário: o que é preciso é trazer a discussão das alturas da metafísica para o terreno da política.

A legalização do aborto também é, obviamente, uma questão de classe, como até a Zita Seabra, no seu tempo, conseguia compreender, mas por chocante que seja – e é - a discriminação social a que o aborto clandestino dá origem, há uma questão de princípio, de natureza política, insisto, que precede neste caso a questão social – como Locke precede Marx na história do pensamento social europeu, e a igualdade formal precede a material: é a questão liberal, e burguesa, da tolerância.

O valor exemplar da legalização do aborto reside nisto: forçar a igreja católica a retirar-se do temporal para o espiritual, do público para o privado, do domínio da lei para o das consciências; a cuidar do seu rebanho e a deixar o resto da malta em paz. Parece-me claro que a legalização do aborto tem de fazer-se por referendo, não só porque, tendo havido um primeiro referendo sobre o assunto, uma mudança legislativa sem consulta popular pareceria sempre ilegítima, como porque o processo e o resultado de um tal referendo podem – e devem – constituir momentos importantes da secularização (e da modernização em geral) da sociedade portuguesa. E esse combate deve ser travado por uma ampla plataforma cívica, e em torno do mais abrangente dos argumentos: não o de um esotérico direito à sexualidade, não o da verdadeira mas redutora dimensão social da questão do aborto, mas o da tolerância, o da geral e abstracta tolerância, contra a fixação na lei comum das crenças de alguns. Ite missa est.

Publicado por NRA em 11:59 AM | Comentários (1)