maio 31, 2004

Descrição terceira

A simplicidade é uma espátula. Um cabo de madeira que se faz à mão, que absorve e multiplica a força. Uma quase lâmina de metal por afiar, mas que ainda assim pode rasgar além de aplicar. A espátula tem tamanhos diferentes conservando em cada um a sua eficácia. Entre o larguíssimo e o estreito, há uma gama de diversidade fascinante. A mais pequena perde em flexibilidade o que ganha em força e direcção, como se soubesse o que fazer. A larga e grande torna-se elástica e verga quase até à dobra em passo de bailado. A estrutura mantém-se: cabo talvez pinho e triângulo talvez ferro. A harmonia quase sempre, o redondo parecendo espalmar-se, abrir-se ao contacto e ao movimento. Aceita bem o gesto vertical, seja subindo com brusquidão ou em descidas macias sem vinco. Ao baixo, dança espalhando líquidos, quem sabe se unindo, se marcando superfícies. Dito assim, a ferramenta aparece-nos esculpida, um bloco só, quando sabemos que combina dois materiais, duas formas, duas intenções, duas maneiras de perceber as leis da vida.

Publicado por João Paulo Cotrim em 06:21 PM | Comentários (0)

A frescura do dói-dói

Na histeria redonda em que vivemos, feita de sapatilhas tecnológicas e esforço nacional, sopra por aí um discurso de barba rija. O treinador de todos nós usa bigode, traço que não se usa já em política. O treinador de alguns de nós, às vezes usava barba por fazer. Este, em torno do qual circulava um boato homossexual, convocou as irmãs de quem as tivesse para provar a sua masculinidade, que vai muito, ao que parece, para além da cara de pau. Ora o outro, que terá por um mês muita antena e pouco tempo, anda agora dizer que na equipa que é um país, não há frescura: é ele que põe e dispõe. Também acabou com os jogadores dói-dói, quer ele dizer os mariquinhas que não lutam. E assim se faz uma identidade. Fresco é o que hesita demasiado, que tem superstição e gosto, dói-dói é aquele que não luta, que não se esforça, que não come a relva. Enerva-me que os estereótipos funcionem demasiadas vezes. Irrita-me que os meus amigos confirmem que deixam a roupa suja no chão, mijem na tampa da sanita ou deixem apodrecer restos no frigorífico. A verdade é que, por muito que me custe, não encontrei ninguém com mais força anímica, mais resistente à dor do que as mulheres. Não são elas em abstracto, mas as que se cruzaram na minha vida. Soltam uma lágrima, manifestam afectos, mas aguentam mais do que me faria desmaiar. De igual modo, muitos daqueles que vivem outras sexualidades são lutadores extraordinários. Vivem o seu desejo contra o que quer que seja. Está visto que o bigode tem medo do fio dental. A força bruta do toureiro macho serve para quê, digam-me lá? A glorificação da brutalidade acaba, em dias de politicamente correcto, naquelas macacadas à americana em que ninguém se aleija, mas todos representam músculos e agressões. Eis a frescura: muita garganta sem coreografia alguma. A mim não me dói ver o bailado sobre a bola e um jogador beijar o outro no momento do golo. Ternamente.

Publicado por João Paulo Cotrim em 04:12 PM | Comentários (0)

maio 30, 2004

Febre dos fenos

A minha confiança no carácter das pessoas está seriamente abalada. Li o texto de João Pedro Henriques (JPH) sobre o Sérgio Sousa Pinto, no "Público" e ainda não consigo acreditar. JPH diz bem de alguém e mima o Sérgio Sousa Pinto com uma prosa tão delicodoce que até comove. Será do Sol?

Publicado por NRA em 04:38 PM | Comentários (0)

Diz-me com quem andas...

Um deputado do Partido Socialista reagiu indignado às declarações do director da UEFA, Martin Kellen, que garantia ser "fácil pôr uma bomba em Portugal, porque podemos sempre encontrar uma pessoa corrupta".
Eu não estou de acordo com o protesto do PS, há que perdoar ao Sr. Kellen, ele em Portugal só conhece gente como: José Luís Arnaut, Durão Barroso, Valentim Loureiro e Gilberto Madail, o que é que queriam que o homem concluísse sobre o nosso país....

Publicado por NRA em 04:05 PM | Comentários (2)

Não havia necheexidade...

O jornalista Luciano Alvarez produziu, no "Público", um comentário aos últimos cartazes do Bloco de Esquerda, com um simplismo enternecedor. Ele acha que se trata de um apelo à mocada, comparável às mocas de Rio Maior e aos assaltos às sedes dos partidos de esquerda, feitos pela extrema direita, em 1975.
A mim incomoda-me, para além da ignorância do que se fala, esta incapacidade para perceber o que se diz para além das letras. É evidente, que o cartaz do Bloco é um apelo ao voto de protesto que se formaliza numa espécie de Zé Povinho. Provavelmente, na quinta do José Manuel Fernandes ainda ninguém percebeu que existe uma situação social de desespero em grande parte da população portuguesa e que, em democracia, esse descontentamento deve ser saudavelmente canalizado para as eleições.
E embora, normalmente, goste do trabalho jornalístico de Luciano Alvarez, acho que esta coluna de opinião do Público ajuda a linha daqueles "inocentes vestais", pouco virgens, que se preocupam muito que Carlos Carvalhas tenha chamado "cobarde" a Durão Barroso, mas perdoam ao primeiro ministro ter insinuado que o PCP era co-responsável por eventuais ataques terroristas em Portugal. Ao contrário do que defendem essas almas sensíveis, o perigo para a democracia não está numa linguagem mais clara, mas na confusão oportunista entre terrorismo e oposição. O que alguns gostariam de fazer passar é que todos os que se opõem ao "amigo" Bush e aos seus moços de estrebaria - onde pontifica Durão Barroso - são amigos do terrorismo.

Publicado por NRA em 04:00 PM | Comentários (0)

maio 26, 2004

Caravela e Casquinha

O artigo do Vasco Graça Moura (VGM) sobre os atropelos do PREC prova, mais uma vez, que um bom tradutor pode ser um mau político. Faz juz à etimologia da palavra "tradutor", VGM trai muitas vezes a verdade.
Sobre os inquéritos "políticos" do pós 25 de Novembro e a "justiça" que daí decorreu queria contar uma história de que vivi. Em 1999, trabalhava eu na SIC, fui fazer uma reportagem sobre "crimes políticos". Escolhi o caso dos dois trabalhadores rurais alentejanos Caravela e Casquinha mortos a tiro pela GNR. Durante a reportagem consultei o processo, falei com o magistrado que instruíu a investigação, encontrei-me com familiares e testemunhas e fui ao local do crime. Os trabalhadores rurais foram assassinados a tiro de G3 pela GNR, em 1979, durante uma entrega de terras de uma cooperativa do Escoral ao antigo latifundiário. O inquérito dava como provado que a GNR tinha atirado para o ar, defendendo-se de tiros dos assalariados rurais. Tive a sorte de no decurso da reportagem falar com o advogado da acusação, Fernando Luso Soares, que me mostrou uma sequência de fotografias dos acontecimentos tiradas por jornalistas Suecos. As imagens e o testemunho dos jornalistas provam que os trabalhadores não estavam armados e apenas contestavam a entrega do gado da cooperativa - que tinha sido criado posteriormente à reforma agrária - ao agrário. Vê-se nitidamente a acção da GNR e os dois homens, um com 17 e outro com 65, desarmados e mortos no chão. O caso foi tão escandaloso, que na época contava-se uma anedota sobre os alentejanos. Dizia-se que eles eram os homens mais altos do mundo - sempre que a GNR atirava para o ar, matava dois...
Naqueles tempos "cozinhavam-se" acusações de conveniência sobre os detidos do 25 de Novembro, mas nunca se condenou os assassinos da rede bombista, nem os homens que mataram Caravela e Casquinha, nem sequer os polícias de intervenção que mataram, à queima roupa, trabalhadores no Porto, na véspera do 1º de Maio.
Quando, sem pinga de vergonha, alguns pretendem limpar a tortura no Iraque com documentos mentirosos e datados, lembrem-se que em Portugal nem os PIDES foram condenados e um governo do Cavaco chegou mesmo a condecorar dois!
Sobre esta matéria, com noutras, deviam pelo menos lavar os dentes.

Publicado por NRA em 05:38 PM | Comentários (2)

O coração é uma puta cheia de casas

Há muito que o espectáculo se constrói sobre estas tábuas: trágicos, bobos e polémicos sabem esculpir, de barro nem sempre pensado, agressões-altifalante. Ando há muito arredio das hierarquizações, e defendo a anarquia da amizade antes do mais, mas prefiro os perigos afecto-contagiosos às ideias cegas. Não há ideias sem corpo, não as há puras, portanto. Somos gente impura, pois continuamos a produzir dejectos. Por isso me custa o modo como as cores servem para nos classificar, construindo muros e fronteiras. Vulgar de Lineu, eis-me às vezes vermelho, outras negro, muito adiantado para os olhares conservadores, algo lento para quem aspira às vanguardas, social-democrata (tendência Rosa, mas de Luxemburgo) ou revolucionário (tendência grouxo marx), dependendo do dia ou da noite, e outras coisas que tais. Entre nós, a franqueza por ser tão rara passou a valor em si. A mesquinhez do nosso calculismo, tantas vezes afecto-contagioso (terrível!), fez subir muito na bolsa mediática a suposta agressão-altifalante, que por vezes se mascara de franqueza, mas é tão só estratégia. A franqueza não obedece nem à táctica nem à estratégia, limita-se a ser. E vale o que vale, ou seja, depende do que diz. Além da coragem básica há-de brilhar a luz de uma ideia com sentido. Ou então arranhamos pele na vez de a tatuar. Não significa isto que o bovino aquiescer perante os bonzos ou a genuflexão à opinião dominante produza mais do que ovelhas e rebanho. Mas discordar para impressionar não é mais que isso, não é valor em si. A blogosfera produz muito disso: discordância para impactar, para despertar reacções contabilizáveis. Concordo em discordar mas desde que se produza algum valor, inutilitário até. Sou um pequeno burguês do significado. Mas sinto-me agredido quando alguém acha que não posso gostar de outro por ser mais negro ou mais vermelho. O coração é uma puta cheia de casas.

Publicado por João Paulo Cotrim em 03:57 PM | Comentários (1)

maio 25, 2004

Aristophane morreu

Aristophane, o mais clássico dos autores modernos de banda desenhada, morreu aos 37 anos. O belo e gigantesco David, de Miguelangelo Buonarotti, apresentou-se limpo em Florença. Assim trabalha o tempo. Aristophane não está traduzido em português, nem mesmo o seu Conte Demoniaque (Association), ao qual não chego na minha biblioteca. Projecto para mais logo: afastar o papel para chegar a uma certa memória do inferno. David ficou pálido e continua gigantesco. Projecto para mais logo: tocar-lhe com os olhos na mão riscada de veias de mármore. Aristophane era negro.

Publicado por João Paulo Cotrim em 12:30 AM | Comentários (0)

maio 23, 2004

O Inferno

Durante a guerra entre o Iraque e o Irão, quando Saddam Hussein era o “combatente da liberdade” de serviço das administrações dos Estados Unidos da América (EUA), um fotógrafo captou uma imagem muito forte. Num campo de prisioneiros de guerra iraquianos viam-se milhares de homens a rezar. Estranhamente, três deles mantinham-se sentados como se nada os pudesse obrigar. A legenda da foto esclarecia que as orações eram obrigatórias e toda a desobediência castigada. Sobre os três homens que tinham preferido, contra tudo e contra todos, não dobrar a cerviz, nada dizia. O que lhes aconteceu?

Durante muitos meses activistas da ATTAC (rede internacional que luta contra o neoliberalismo e a guerra) reuniram-se, em Lisboa, na livraria "Ler Devagar", sob o tema "Imaginação contra a guerra". Mais de 200 pessoas diferentes uniram os seus esforços, semana após semana, para que parassem os massacres, a irracionalidade gritante e a morte como política "normal" para o nosso tempo.
Quando se entrava na reunião, pelo meio das estantes e dos livros, quase tocávamos numa obra premonitória: “INFERNO” do fotógrafo James Nachtwey, da Magnum.
É a mais espantosa colecção de horrores humanos que é possível ver. O fotógrafo esteve em vários campos de batalha e em muitos continentes.
Dele só conhecia a foto da mulher de burka, quase de rastos, num cemitério sem fim, tocando na laje de um morto. A roupa, a terra, as pedras funerárias counfundiam-se numa trama de sofrimento.
Ele próprio disse de si, que começou por ser “um fotógrafo de guerra, para passar a ser um reporter anti-guerra”. Ao ver os corpos esfacelados, as batalhas sangrentas, as pessoas torturadas, os campos de concentração, as crianças empilhadas vem-nos à cabeça uma interrogação ética. Como é possível ter coragem e distanciamento para fotografar estes mortos vivos?
Nachtwey confessa que é uma testemunha, não tem lado, nem partido. Em qualquer guerra, o seu lugar é o de todos os que sofrem e se conseguir com as suas imagens tornar insuportável um dia na vida dos que vêem as suas obras, no descanso dos seus lares, conseguiu ganhar o dia.
Para além de todo o sofrimento, o mais impressionante é a qualidade mágica e, quase, única das suas fotos. Como é possível estar sobre o fogo das balas ou assistir ao sofrimento das gentes e conseguir a perspectiva, os contrastes e as expressões que capturam um momento do tempo. Aqueles que já estiveram em zonas de combates sabem que a adrenalina e a dor, como se de uma paixão se tratásse, fazem-nos sentir intensamente vivos, quase imortais, sempre à beira do abismo e bêbados de algo. O difícil é saber “pousar um olhar frio”, utilizando uma expressão de Sade, e controlar a vertigem desta estranha paixão.
As fotos são horrivelmente belas como a morte: vários corpos esfacelados numa savana e ao longe alguém a caminhar provando que a vida continua. Um atirador em contraluz faz pontaria para mais um alvo, na ponta da arma advinha-se alguém. Uma mulher de idade ultrapassa uma esquina, a seu lado revela-se na brancura imaculada da neve um homem velho assassinado. Os refugiados colados às janelas da camioneta onde viajam. Pelo vidro passam as expressões de sofrimento e reflectem-se os estilhaços da guerra. Uma mulher atravessa uma avenida deserta e fumegante, os seus olhos expressam um grito silencioso (como a figura do “Grito” pintada por Edvard Munch). Num enterro, os homens transportam um caixão, nas suas faces nota-se o sofrimento e o ódio de quem vive em paredes meias com a guerra e não esquece quem matou.
Há dias que as imagens da tortura perturbam a nossa calma pequeno burguesa. Mas já durante o periodo de guerra "oficial" as imagens já nos tinham avisado. Eu recordo a de Ali Ismail Abbas, a quem o exército dos EUA matou a mãe, que estava grávida, o pai, o irmão, a tia e três primos. Ali está muito queimado e não tem braços. Na imagem, os olhos da criança de 12 anos miram-nos de frente, ultrapassam as barreiras do tempo e da foto de Jerome Delay, interrogam-nos e queimam-nos como as suas palavras quando diz: "nem uma montanha poderia suportar a dor que sinto", e, para todos os cúmplices desta guerra, acrescenta "é assim que tencionam libertar-nos? Matando-nos?".
Nas ruas, os iraquianos saem aos milhares. Nas suas bocas está o grito de "nem Bush, nem Saddam". O presidente norte-americano diz-se feliz. "Os iraquianos manifestam-se porque há liberdade". É preciso dizer-lhe que liberdade significa decidir e que democracia é o poder do povo. Se não o querem, que se vá embora.
Para os "Miguel de Vasconcelos" cá do burgo, que confundem o 25 de Abril com uma invasão estrangeira, talvez seja difícil perceber que os iraquianos não amam, como eles, esses "libertadores", nem sequer o fantoche (perseguido por fraudes bancárias), agora caído em desgraça, que planearam para dirigente de um Iraque "democrático". Mas de facto, há imagens que valem mais do que mil palavras.
Provavelmente se Cristo tivesse nascido neste século, daqui a 100 anos muita gente levaria, ao pescoço, mísseis em vez de crucifixos. E é também isso que o "Inferno" nos mostra.

Publicado por NRA em 10:41 PM | Comentários (2)

A virgem dos impostos

Se por cá houvesse bom jornalismo e límpida transparência, dentro de uma semana conheceríamos (aborrecidamente) cada um dos detalhes das facturas e das declarações da ministra dos impostos. A arrogância, o enfado com que responde às questões, por pertinentes que sejam, revela todo um programa. A política dela é o trabalho, a sua honra é impoluta. Não mexam nem numa coisa e muito menos noutra. Não lhe perguntem por que raio a administração fiscal paga salários milionários, ou por que é gerida por alguém que até pouco antes negociava dívidas fiscais do clube do regime, ou por que os bens culturais são taxados com IVA a 19%, ou por que certos pagamentos aos funcionários públicos são arredondados para baixo. Não a abanem, que se lhe estraga o verniz. Na vez de (mínimo) pedido de desculpas, logo se arvora em irritadiça inquiridora-mor e exemplo-maior da moral fiscal. Deixem-na trabalhar que é virgem!

Publicado por João Paulo Cotrim em 01:04 AM | Comentários (3)

Justiça da "fiscal"

"Quem dá e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não tem arte", dizem os contribuintes invejosos. Pois é, a querida ministra das Finanças, Manuel Ferreira Leite, entregou uma declaração de impostos errada e só a rectificou no ano seguinte. E não pagou juros, nem multa. O fiscalista Saldanha Sanches não vê justificação legal para este original prémio à Ferrreira Leite, a própria diz-se de consciência e bolso tranquilos, e comentou para um jornalista: " não me diga que nos remédios que declarou, não meteu por engano um champô?", como quem diz, não me diga que nunca tentou enganar o fisco?
Excelente exemplo! Está explicado porque a maioria dos "amigos" empresários não pagam impostos. Eu cá, como todos os que trabalham, é que estou lixado: pago os meus impostos, os da ministra e dos seus amigos.

Publicado por NRA em 12:48 AM | Comentários (6)

maio 22, 2004

descrição segunda

O lugar é uma parede. Nem pele, tecido ou superfície polida: rachas, porosidade, tempo e matéria. Podia ser uma parede qualquer. É injusto que seja um museu, devia apresentar-se vestido com a dignidade singela dos muros que sustentam casas, que, permitindo ou não janelas, se fecham para proteger das agruras, que se abrem em ecrãs para as mais intestinas imagens ou palavras. Naquele fragmento de parede, um cão olha o alto, tendo por fundo sensual de distintas pinceladas uma singela floresta de amarelos, verdes, brancos e tudo sujo. O focinho do cão, cortado pela orelha caída, olha sobre uma barreira de castanho mais uniforme que os outros, luminosos. Há um verde seco no topo direito da faixa ao alto. O castanho em baixo sugere subida. A cabeça do animal é um detalhe que se impõe. Para que serve uma pintura que nos oferece uma pequena cabeça canina sobre um mar plástico de cor? A pintura não serve para nada. O gesto de Goya dá-nos um olhar, que não é qualquer, nem o de homem para deus, ou o do escravo agradecido, menos o do afecto em busca de objecto, o da esmola que deseja a mão, ou o da súplica aspirando à misericórdia. Não há mística irreal, prazer bruto, talento pirotécnico. Há solidão, detalhe, humildade, indiferença, vida. Aquele olhar, para a direita, em direcção ao alto, é o de um cego visionário.

Publicado por João Paulo Cotrim em 06:15 PM | Comentários (0)

Venenosa lucidez

Coincidência suspeita: no exacto momento em que o governo propagandeia sucessos, evoluções, a retoma do velho homem novo cavaquista, uns arremedos da “sociedade civil” (não nos estão sempre a vender o PPD/PSD como excelsa expressão viva dessa sociedade que não milita nos partidos?) lançam um esforçado congresso para electrizar Portugal, para o fazer Positivo, para aumentar a nossa auto-estima. Não podia ter começado de modo mais simbólico, com Vasco Pulido Valente no seu melhor: um país obcecado com o moderno e que tem como projecto imitar outros assenta a sua identidade no atraso. Historica e colectivamente desatámos a encontrar bodes expiatórios. Culpados do falhanço foram sendo os jesuítas, os absolutistas, os comunistas, os fascistas e os políticos. Nós, os portugueses da sociedade civil, esses, não tiveram nunca e não terão jamais culpa de coisa nenhuma. Para VPV temos é auto-estima a mais e dinheiro a menos. Claro, a iniciativa arrepiou-se. O senhor desculpe, alguém lhe disse, está na conferência errada, pois claro. Provavelmente está no país errado, digo eu. Há pelo menos dois países, aquele em que vivemos e aquele de que falamos quando falamos de país. Se um é triste como um fado canalha, o outro é uma farsa criada pelos humoristas de serviço. Peço desculpa, mas não gosto nem de um nem de outro. Resta-me apreciar amargamente a venenosa lucidez.

Publicado por João Paulo Cotrim em 11:20 AM | Comentários (5)

As copas dos livros

O rio é o pano de fundo da cidade. Pinta-se plúmbeo na noite, reverberante com os raios da madrugada e azul, entre as esquinas, no fim das ruas pelo dia dentro. Por vezes é verde. Sobre o movimento das ondas, passam barcos e navios. Sobre o movimento das águas, passam livros. Subiram avenidas, experimentaram os ventos da praça, mas lançaram âncora no parque. É o lugar certo. Os livros são uma floresta de gente em gestos de vento, são montanhas movediças de palavras, paisagens mentais feitas de cheiros e memórias, são formas seguras e ideias soltas, são gritos e agressões, são incómodos, são matéria que as mãos levam aos olhos, carne que nos fazem mais corpo, mais transparente, voador. As árvores, como os prédios, dão-se bem com os livros. Contam cada tempo do tempo até chegar a altura em que essas aves de arribação regressam ao parque para nidificar por entre alamedas de copas exaltadas. É a única altura do ano em que brilha com as cores do rio a seiva de papel que lhes arde no tronco. Os livros acontecem inesperadamente como riscos de trânsito nocturno, portos de abrigo, sangue e oxigénio da cidade minha. Os livros são o pano de fundo verde da cidade.

Publicado por João Paulo Cotrim em 09:59 AM | Comentários (0)

maio 20, 2004

Descrição primeira

A gorda avança para mim, de peito aberto. Se dissesse generoso isso queria dizer oferecido, mas não é assim. A cena desfoca-se na origem, na tela, mas aceito que sejam os meus olhos. Não são os seios dela que me impressionam, e deus sabe o quanto os seios me impressionam. E eu sei que deus se importa com os seios, pois estive no Museu do Prado, lugar onde descobri ser filho de mãe generosa. São os olhos dela que pressionam os meus, em um só sentido, por detrás da nuvem, sobre os seios, para além deles. Não juro que a legenda diga prostituta, mas podia ser. A gordura é lasciva e excessiva. A tela ganha uma carne feita de humanidade para além do humano. Fico perante o quadro, aspirando aos bastidores de madeira branca e simples, enquadrada mas não presa. O cinza sem foco de Richter (ao Museu do Chiado) transborda da parede, do limite de aproximação, da vigilante gorda, e toca-me para me dizer: olha-me nos olhos, apesar dos seios. Seios de olhos que avançam, pois é esse é o movimento da tela, para além da gordura e da legenda. Ela que avança, sinuosa sem sorrir, gioconda de formas bailarinas, levantando-se, aleitando. Ela levanta-se depois de cair? Caiu para se dar no altar do ver, de leite derrubado? Levanta-se pedindo desculpa em tons de leito? Não sei, mas sei. E sei que sabes. Fujo?

Publicado por João Paulo Cotrim em 04:54 PM | Comentários (3)

planta dos pés

O melhor do calor é poder descalçar-me, tocar com os pés a pele do chão, a textura do horizonte, uma modesta ligação à terra. Andar descalço, por momentos que seja, aproxima-me da realidade. E por uma vez, sem tristeza nem alegria, apenas pelo sensível prazer de tocar o físico. Não tenho tapetes em casa e isto também se aplica à casa nostra, chão de terra ou areia, frio ou orgânico, borbulhante ou de tranquilidade feito. Tenho para mim que aquilo que as antenas captam, ao contrário do que se diz, não depende do alto que atingem, mas do fundo que mergulham, das águas que bebem como dos ventos a que resistem. Não se trata de profundidade, convém distinguir, pois a antena é um ser vegetal das superfícies.

Publicado por João Paulo Cotrim em 04:15 PM | Comentários (11)

Abaixo os terroristas!

A morte de dezenas de manifestantes palestinianos devido aos mísseis israelitas e o extermínio pelas tropas dos Estados Unidos da América dos convidados de um casamento no iraquiano demonstram à saciedade e à sociedade que as democracias são diferentes dos terroristas. Nada de façanhudos bombistas suícidas, nem sequer a utilização de bombas ilegais, fez-se tudo como manda a lei: armas compradas em fornecedores autorizados e disparos de longe por militares devidamente treinados e alistados. Assim, sim! Está mais uma vez provada a superioridade moral da democracia de Israel e dos EUA. Apenas um senão: não deviam ter sido torturados antes?

Publicado por NRA em 01:11 AM | Comentários (6)

maio 19, 2004

FORXA PERTUGAL!

Esstra merrda da ortuogrefia hé umna invvesão dus coministas, parea lichar oss dimocruotaz. Paarra quèe ques servein az xecretarias? Comu disia oz amtigos regolamentos melitares: " os Chargento debe sahber lehr, pourque oh teniente poude non chaber". Forca Samtana!

Publicado por NRA em 03:23 PM | Comentários (1)

maio 18, 2004

A má fé devia ser taxada

Inacreditável, isto é, coisa nunca vista, motivo de espanto, na qual não se acredita! Mas eu ouvi com estes que a terra há-de comer... O nosso edil, saindo de um qualquer redil, foi apanhado por entre erros de ortografia. Que benvindo é nome próprio, e portanto coisa fácil de confundir com saudação, tal como género humano com Manuel Germano ou vida interior com roupa interior, isso o sabíamos já. Que a culpa não é de quem assina os outdoors, vulgo, fora-de-portas, que saudavam recém-chegados e estrangeiros, também o sabíamos: não é de Santana nenhuma responsabilidade do que por aqui se faz, excepto os buracos. Impensável, isto é, coisa que não se espera, que o pensamento se recusa a crer! Mas eu vi com estes que Lisboa há-de comer... A culpa do erro ortográfico nos alfacinhas outdoors, vulgo porta-de-saída, é dos estrangeiros, que conhecem mal o português. A má fé racista devia pagar um alto imposto e ele, o edil do redil, devia sair por baixo! Por minha fé, contratemos estrangeiros para nos governar. Estrangeiros que aprendam, pelo menos, a assumir os erros, ainda que penteados para trás com gel. Porque quem pensa daquele modo só pode ser um erro. Enfim, aprendamos a recusar governadores e governos assim: são mal-quistos.

Publicado por João Paulo Cotrim em 09:58 PM | Comentários (5)

maio 14, 2004

Esquecimento a tempo

Há dias que ando para arrotar post de pescad, isto é, posta de pescada. Então não é que o Lula (calamares?) mandou despedir o jornalista norte-americano que disse ser problema nacional o seu copito (cerveja, tinto, sangria, caipirinha, cachaça, visque?)! Acho bonito, hips, modo de discordar dos dois. Não se bota fora um jornalista só pela asneira. Nós por cá exportávamos jornais inteiros se assim fora. O jornalista tem direito à asneira. E a melhor estratégia é afogá-lo, hips ou ops, com informação. Que bebe o presidente Lula (recheadas?)? Cerveja? Lá não tem não. É Brahma? Não é o mesmo que «cerveja». Bebe de gole? Aguenta que aqueça? Vai de produzir press-release. Há uma escala, para quem percebeu: tinto é mau; sangria muito doce, caipirinha é bom e nacional, cachaça é forte e popular, e ajuda ao desenvolvimento turístico, donde só visque destoa. Presidente (frito?) não vai em batidos nem receitas, pelo que não devia mandar periodista embarcar. Presidente com humor convidava para bate papo, samba e copo. O meu Brasil mudou: nem tanto ao mar, nem mais à terra. Acho saborosa, hips, esta maneira de discordar dos dois. Gosto de beber um jornalista à refeição: faz bem ao coração!

Publicado por João Paulo Cotrim em 03:48 PM | Comentários (7)

tortura chinesa

vou inventar o argumento de elástico. A tortura de hoje (minha) é justificada pelo silêncio acerca das torturas de ontem (dos outros). Inacreditável o argumento: não se pode comentar a tortura actual dos amigos norte-americanos se, porventura, estivémos calados em 1975, em torno dos excessos copcónicos. Eu, naquela altura já sabia ler, e até, quem sabe, ver. Dão-me licença que critique HOJE toda e qualquer tortura? Note, senhor Pacheco e doutor Moura, este intelectual, aquele poeta, talvez vice ou versa: posso a qualquer instante denunciar, gritar, guinchar como inumana e desnecessária a tortura. Não é a minha segurança, nem mesmo a minha civilização ou até os meus livros que justificam os meios para chegar a uns fins que se perderam. Não, na minha civilização pessoal e intransmissível, mas partilhável não vale a tortura. E que tal um choque (civilizacional) nos tomates? Mais tarde ou mais cedo, vão senti-lo. É lá que está o meio (geográfico) de uns fins que são fisga cega, demasiado cega. Humana e elástica. Ou eléctrica. Ai.

Publicado por João Paulo Cotrim em 02:24 AM | Comentários (4)

carta aberta à tecla enter

Dito assim, à primeira vista, o teu nome é um convite. Embora arrogante, a seta é todo um programa. Um invocação divina, portanto caída dos céus entre a introdução de dados e a indicação de um lugar que se procura a todo o custo. Gosto muito do meu lugar, que tem a forma de barriga, o que não deve ser entendido por mesa ou umbigo. Na mesa apoiamo-nos para comer ou lançar discussão, ao passo que o umbigo é sítio de cotão observador e teológico. Geológico, pois ali surgem terramotos. Adiante, que é como quem diz, enter. O mundo é hoje, mais do que paralelos e traços ao alto, um teclado. Ora apesar de todos os igualitarismos, nem todas as teclas são iguais. Mais não acho bem que tenham sexo, feminino, que é como quem diz vaginal. Entre teclas há um espaço que é todo um programa, portanto, que é como diz: entre, ou seja, ops... escorregue! Não quero escorregar, cara enter, muito menos gralhar o toque, hesitar e errar na pressão. Nestes gestos não há garantia. Detesto, pois, os modos com que exige o seu serviço, esse escorrer de caracteres para a luz do ecrã, milagre miserável ao alcance. Venha, faça favor de entrar, agora que estou de saída. Não, não é nada pessoal. Deus sabe que eu não queria vir. Isto dos mal entendidos é como os mal criados.

Publicado por João Paulo Cotrim em 02:14 AM | Comentários (0)

maio 13, 2004

Estou com a irmã Lúcia

Mais posts vão ter que esperar pela madrugada. Estou neste momento completamente concentrado na apresentação do livro do Luís Rainha sobre Fátima. Quem se deslocar à livraria Ler Devagar, ás 22 horas, vai ter a oportunidade única (felizmente) de ouvir o autor, o João Paulo Cotrim, o Pedro Mexia e demais especialistas no fenómeno mariano. Eu sou lá estou porque é sempre bom ter um representante dos pobres diabos na mesa. É verdade, vou moderar uma mesa de mulahs (??). Entretanto, aconselho todas e todos a assinarem a petição do Barnabé a favor da irmã Lúcia. Caso as linhas estejam ocupadas,podem ir ao www.digaomanel.com ou telefonar ao Vasco Rato. Se se decidirem pelo Rato, tenham atenção à pronúncia.

Publicado por NRA em 06:28 PM | Comentários (5)

maio 12, 2004

TOP ENTERRO

Povo no funeral:

Ayatollah Khomeiny, 1989: 10 milhões

Benigno Aquino, 1983: 2 milhões

Diana, 1997: 1 milhão

Ahmed Zahir (o Elvis do Afeganistão),1978: 1 milhão

Eva Perón, 1952: 500 000

Jan Palach (militante checo que se imolou pelo fogo), 1969: 500 000

José Monge Cruz (cantor de flamenco), 1992: 100 000

Ho Chi Minh, 1969: 100 000

Elvis Presley, 1977: 75 000

Bruce Lee, 1973: 25 000

Steve Biko (com a polícia a impedir outros milhares), 1977: 20 000

David Hookes (jogador de cricket da Austrália), 2004: 20 000

Anita Mui (cantora e actriz de Hong Kong), 2004: 10 000

Marlene Dietrich, 1992: 1700

Malcon X, 1965: 1500

Karl Marx, 1883: 11 pessoas.

(Fonte: revista "Colors")

Publicado por NRA em 04:41 PM | Comentários (2)

Confesso

Sim, confesso um defeito: gosto de ler os textos do Pacheco Pereira. É sempre mais interessante ler algo de inteligente que náo se concorda, do que um texto simplista, mesmo que coincida com as nossas convições.
Depois desta declaração, vai o reparo: acho que o Pacheco Pereira está numa fase brejneviana. Nos tempos do Leonidas,muitos comunistas diziam: a URSS tem problemas, mas o que faz é "globalmente positivo". Hoje, para o Pacheco Pereira até a tortura e o assassinato tornaram-se prova da superioridade moral dos EUA. Não compreende que uma frase do tipo: sim, acho que devem ser condenados, MAS vejamos há países que torturam muito mais em que não funcionam a democracia...., são no fundo uma desculpablização imoral daquilo que aconteceu e continua acontecer.
Não há "globalmente positivos" em matéria de tortura, há tortura! Infelizmente, o que aconteceu com as tropas dos EUA no Iraque não foi uma excepção, é uma pratica de Estado, apoiada pelos serviços secretos, chefias militares com o beneplácito cego desta administração. É preciso referir que Donald Rumsfeld sabia há meses do caso e só agora os "culpados" vão ser processados.
Na minha opinião, eles vão ser condenados por terem tirado ou permitido que se tirassem fotografias comprometedoras. Em paz continuarão todos aqueles que por essse Iraque fora torturam e matam gente inocente. Em paz e de preferência sem máquina fotográfica.

Publicado por NRA em 04:26 PM | Comentários (2)

maio 11, 2004

A temperatura em que arde a liberdade

O primeiro filme de Michael Moore, "Mr Roger and me", é o relato das tentativas do autor para entrevistar o presidente da General Motors para lhe perguntar porque tinha fechado a fábrica em Flint, terra de Moore. Essa viagem aparentemente falhada, vai revelando os meandros da economia de mercado e os efeitos destrutivos numa pequena cidade americana que tinha sido construída e vivia à sombra dessa fábrica. O percurso vale para Moore - o pai era operário nessa fábrica - mas também simboliza toda a política económica dos EUA. Esta empresa que transforma Flint numa cidade fantasma não é uma empresa qualquer, foi sobre ela que um presidente dos EUA cunhou a célebre frase: "o que é bom para a General Motors é bom para os EUA!".
Este primeiro filme de Moore é um retumbante êxito, foi vendido à Waner Bros, em 1989, por 3 milhões de dolares - dos quais Moore doou 25 000 dolares aos sem-abrigo - e rendeu 25 milhões de dolares.
Talvez por isso, Michael Moore, vencedor do Óscar do melhor documentário com "Bowling for Columbine", estava mal habituado. Ele dizia, parafraseando uma célebre frase de Lénine, "enquanto eles poderem fazer dinheiro comigo, não ligam à mensagem. É este defeito do capitalismo: eles venderiam por um dolar a corda que os vai enforcar".
Parece que o capitalismo também aprende, e as comédias de Moore arriscam-se a viver em tragédia. O seu último filme "Fahrenheit 911 - a temperatura que arde a liberdade" vai ter muitas dificuldades em poder ser visto nos EUA. O documentário que mostra as ligações "perigosas" da família Bush à família real saúdita e aos parentes de Ossama bin Laden está a ser alvos de um fogo cerrado da Admnistração dos EUA e dos seus amigos nas empresas. A Disney (grande contribuinte para a campanha de George W Bush) que comprou a produtora que distribui o filme de Moore (Miramax) afirma repetidamente que não vai distribuir o documentário. Tentando que o mesmo fique na gaveta, para só ser passado em alguns festivais europeus. Tudo isto, apesar de "Bowling for Columbine" ter sido um sucesso visto por 30 milhoes de norte-americanos. Como diz o Espada, o espadinha e os seus apóstolos: não há liberdade sem economia de mercado!

Publicado por NRA em 12:08 PM | Comentários (1)

maio 10, 2004

Obrigado

Obrigado Luís, eu, o Cotrim, eventualmente o Lamego e uma rapariga com o nome começado por Z agradecemos comovidos.
Um grande bem haja tb para ti.

Publicado por NRA em 03:04 PM | Comentários (1)

Hipocrisia dos verdugos

Em 22 de Maio de 2002, o filósofo Zizek publicou na "The London Rewiew of Books" um texto premonitório sobre as implicações nos direitos humanos da guerra permanente e preventiva ao "terrorismo". O autor revelava as pressões crescentes para legitimar publicamente a tortura. Todos sabemos que há muito que os Estados Unidos da América utilizam, promovem e divulgam esse método milenar. Um dos exemplos mais conhecidos eram os cursos promovidos, pelas diferentes administrações dos EUA e pelos seus serviços secretos, na chamada "Escola das Américas",onde os esbirros, de torcionários de várias ditaduras da américa latina, podiam aprender ao vivo: os segredos do electrochoques e outras minudências da arte. A situação não era segredo para ninguém, foi várias vezes denunciada. Na memória destes protestos ficou a conhecida cena do filme "Estado de Sítio", de Costa Gravas, em que se visualizam as dificuldades destas originais aulas. A novidade dos dias de hoje é muito diferente. Actualmente, há pensadores e intelectuais que teorizam sobre o regresso autorizado à tortura e pretendem dar legitimidade "democrática" a essas práticas.
Cite-se, à laia de exemplo, um conhecido artigo de Jonathan Alter, na revista "Newsweek", em que o autor começa por nos avisar que "o mundo mudou: para sobreviver, pode ser necessário recorrer a técnicas antigas que pareciam fora de questão"; verifica, com algum enlevo, que "há alguns tipos de tortura que claramente funcionam"; e acaba por concluir que apesar da tortura negar "os valores norte-americanos" é preciso recusar as hipocrisias fáceis. No mesmo sentido, vão os argumentos de Alan Dershowitz: "não apoio a tortura, mas se temos de torturar, então devemos contar com a aprovação dos tribunais". Linda democracia, em que a justiça recomendará como medidas duras mas justas: as violações, os choques electricos e os espancamentos. Tudo, claro, para preservar a liberdade e a dignidade humana. Bem-vindo Torquemada!

Publicado por NRA em 09:53 AM | Comentários (4)

maio 09, 2004

Novos cães de guarda

Este texto foi publicado no início do Muro. Infelizmente continua actual.

"Do nosso colaborador João V. Claro, segue o arguto comentário.

Disse há umas semanas que o José Manuel Fernandes, verbalista congénito que, na sua actual incarnação jornalística, colocou o seu verbo fácil ao serviço da causa da administração Bush, era a primeira vítima colateral do apodrecimento da situação militar no Iraque. Menti: José Manuel Fernandes, vítima será, mas primeira é que não. Como já há mais de um século alguém dizia, os nossos escribas limitam-se a traduzir em calão os originais franceses, no caso vertente de André Glucksman e Bernard-Henri Lévy. Curiosa a sorte destes “novos filósofos” (prova provada se bem que póstuma das virtualidades de algum pensamento estrutural): AG, para justificar juridicamente o injustificável juridicamente (a invasão do Iraque) salta a fronteira entre o normativo e o simplesmente político com piruetas de que nem o Vichinski dos piores tempos seria capaz; quanto ao insuportável (de cabotino) BHL, de tanto festejar o fim do “império vermelho” e a vitória das forças “do bem”, substituíu “os amanhãs que cantam” pela celebração dos dias que passam, quaisquer que eles sejam. No fundo, fazem-me pensar que, tivessem estes dois nascido num burgo perdido dos Urais e não algures no seizième, escreveriam loas ao “Pai dos Povos” em vez de ensaios pretenciosos, supostamente a dizer mal dele; acessoriamente, fazem-me também pensar na falta que uma utopia de jeito faz: é por não haver nenhuma agora, que temos de aturar esta gente a explicar-nos, como padres medievais, que não vale a pena mudar o mundo, não porque haja um paraíso à espera (felizmente deixaram-se disso), mas porque simplesmente não há felicidade possível para além da felicidade existente, na vida de merda de nove décimos da humanidade.

É engraçado reparar que a direita portuguesa “fazedora de opinião”, embora se declare maioritariamente filo-britânica, continua a seguir as modas culturais de Paris (inevitavelmente atrasadas). Por razões que o Manuel Villaverde Cabral saberá melhor do que eu, a intelectualidade nacional despreza na maior parte dos casos a França, país “onde a política se faz na rua”; e embora nem toda seja tão ridícula como o Espada (que estamos todos à espera de ver aparecer um dia com um bonézinho à Sherlock Holmes enfiado na cabeça), a verdade é que, do Pulido Valente ao Cutileiro, passando pela Filomena Mónica e por muitos outros personagens menores, quando lhe falam ao coração, confessa-se anglo-saxónica. O problema é que, neste caso como em muitos outros, os portugueses em geral, e as suas putativas elites em particular, conhecem-se mal; e tomam por inglês ou americano aquilo que, na realidade, neles é francês. O tom belicoso do Público em matéria de política internacional, por exemplo, é típico dessa “guerra fria tardia” de que boa parte da intelectualidade francesa actual padece, como muito bem diagnosticou o Hobsbawm, e a portuguesa importou. Outro exemplo menor, e vagamente anedótico: o anglófilo Pulido Valente, que sob vários pontos de vista resume uma geração de gosto, elege para escritor português do século XX o Cardoso Pires (se calhar convencido que ele é um contador de histórias à americana) e prega “O Delfim” em cinema (ou seja, mais rigorosamente, adapta-o para o filme do Fernando Lopes) - não reparando que, by the way, impinge aos espectadores de 2001 ou 2002, dos quais metade não tinha ainda nascido na altura do 25 de Abril e a outra metade é capaz de confundi-lo com a comédia de costumes sobre o mesmo tema da Maria de Medeiros, uma variação sobre o tema arqueológico do “marialva”, por sua vez derivado, se bem que por oposição, do defunto “libertino” de Roger Vaillant! Percebem o filme?"

Publicado por NRA em 04:23 AM | Comentários (5)

maio 08, 2004

É um ponto

O tipo escreve quase tanto como eu (pelo menos no blog) e tem uma capacidade autocrítica que poucos lhe adivinhavam. Vale a pena e é fácil de ler

Publicado por NRA em 05:09 PM | Comentários (1)

Publicidade enganosa?

Li a "nova" revista Sábado. Andei a semana curioso para saber o que seria uma publicação daqueles que se assumem como "diferentes". A campanha publicitária chegava a criticar directamente a nossa modorra comunicacional - "o que seria do nosso mundo se todos pensassem da mesma maneira", berravam os spots na TV.
Depois da primeira leitura e olhando para a ficha técnica, não consigo esconder a desilusão: mais do mesmo!
Claro, que tudo pode melhorar, mas, por exemplo, a escolha dos cronistas é reveladora: Alberto Gonçalves, José Socrates, Pacheco Pereira, Pedro Santana Lopes e Miguel Monjardino. Não conseguem nada menos visto e revisto.
Cada povo tem a imprensa que merece e que os poderes económicos pagam. Nós ganhámos mais uma revista do PSD-Bloco Central. Estamos felizes e contentes, nada vai alterar a nossa paz.

Publicado por NRA em 02:24 PM | Comentários (10)

No momento do penalt....

Sempre que começo a escrever a malfadada tese apetece-me estudar física quântica em sânscrito. Não sei por onde começar. Mark Twain contava que os ricos ingleses gastavam milhares de libras para se divertir, passeando a cavalo, mas se fossem pagos para isso recusar-se-iam certamente a cumprir a tarefa. Como o compreendo, só me apetece ler aquilo que náo tenho que fazer. Do mal o menos, lá vai mais um capítulo da "Gramáticas da Criação" do George Steiner. Ainda bem que, aparentemente, não me serve para nada.

Publicado por NRA em 02:55 AM | Comentários (4)

maio 07, 2004

Eu é que não tenho vaca

A minha vida tem ciclos. Os filhos, as paixões e os empregos assinalam os de grande duração. Os postais das finanças fazem parte da espuma dos dias.
Hoje perdi uma manhã nas finanças. Depois de muito esperar fui informado que tinha de pagar 100 Euros por me ter atrasado a declarar o IVA. Em compensação, há mais de um ano que a querida ministra Ferreira Leite me deve a devolução do IRS. Não consta que vá pagar juros de mora. Sobre os meus protestos, o digníssimo funcionário das finanças respondeu sorrindo: "mas não sabia que é assim que ela faz que equilibra as contas do Estado?".
Vende o património, acaba com a economia, rouba os contribuintes. Quando acabar o mandato vai, de facto, deixar o país de tanga.
Mas não choremos por ela, alguém lhe vai dar uma empresa, recentemente, privatizada para administrar. Vai uma apostinha?

Publicado por NRA em 04:05 AM | Comentários (4)

A Vaca (1)

«Mais uma criança morreu no Iraque, por engano."Um dos obuses caiu por engano junto de uma família, matando a criança e ferindo a mãe e dois irmãos", explicou um oficial americano responsável pela tragédia. O mesmo oficial revelou ter mandado entregar à familia 2500 pela criança morta e 1500 dolares por cada ferido.
Por aqui se comprova que os americanos já dispõem inclusivé de uma tabela. A vida de uma criança iraquiana vale 2500 dolares. Nos Estados Unidos, o exército pagaria mais se, por engano, um dos seus obuses matasse uma vaca. Eu sei, claro, que uma vaca americana é uma vaca americana.»
FAÍZA HAYAT, IN PÚBLICO, 14/12.

Publicado por NRA em 03:56 AM | Comentários (4)

maio 06, 2004

Para a alegria da pequenada do Sharon

É verdade! todos os alegres habitantes das terras com muros estão em festa. O muro sem vergonha ameaça voltar. A depauperada equipa espera uma mudança de pintura (os 30 dinheiros negociados pelo Judas, Luís Rainha, para nos trocar), para recomeçar a postar em ritmo ucraniano. Até lá vamos tomando notas e vendo as novidades.

Publicado por NRA em 05:53 PM | Comentários (3)