fevereiro 10, 2004

Um obituário prematuro?

Olhando aqui para baixo, fico com a impressão que o meu aviso de derrocada iminente pode ter sido um pouco exagerado...
Será que este Muro afinal não vai despencar em cima dos incautos transeuntes?

Publicado por Mac em 03:16 PM | Comentários (8)

Cházinho e política

Do nosso colaborador João V. Claro segue um avisado texto:

A ponderosa questão das relações que a política deve manter com a civilidade tem sido indevidamente esquecida pela ciência política. À primeira vista, a questão não tem segredos: como dizia a minha avó, o cházinho nunca fez mal a ninguém, tanto na porca da política como no resto. Mas há limites: poderia o Bush, por exemplo, tomar um chá com o Saddam, se para tal fosse convidado? (o Rumsfeld, esse, tomou, e não consta que lhe tenha caído mal); podemos nós almoçar com o Pinochet, em nome da razão de Estado, ou tratar o Salazar por “Professor”, em nome da razão académica, sem levantarmos (justificadíssimas) suspeitas? Onde acabam as boas-maneiras e começa a complacência com o objectivamente abjecto? Pode-se ser neutral em face do mal, pegar-lhe com pinças, levá-lo a sério e tratá-lo por sôtor? Eu acho que não pode. A questão ressurgiu-me a propósito de uma das últimas crónicas de Manuel Villaverde Cabral publicadas no DN: Villaverde Cabral, um universitário respeitável, um tipo que vale a pena ler (mesmo que às vezes ferva em pouca água), informado e informativo, fala de um qualquer congresso de ciência política e, de passagem, da obra meritória do seu mentor, o doutor João Carlos Espada, escrito assim mesmo, sem umas aspas sequer, como se o horrível Espada pudesse ser nomeado como uma pessoa normal. Sucede que Villaverde Cabral não pode deixar de saber o que é que o Espada é, nem deixar de conhecer as abundantíssimas razões, tanto éticas como estéticas, que justificam o estabelecimento de um rigorosíssimo cordon sanitaire à sua volta, que resguarde a vista das pessoas decentes do espectáculo da sua indignidade. Um amigo meu disse uma vez com graça, na altura em que o infame Espada fazia currículo à conta do indefeso Popper, que o tipo era uma espécie de Marta Harnecker do liberalismo; mais prosaicamente, eu acho que ele é sobretudo um saloio, que ora me dá vontade de rir, ora de chorar, mas que levar a sério e tratar com respeito, com doutor por extenso e tudo, isso é que nunca.
PS: Abyssus abyssum invocat: o ridículo atrai o ridículo, e o Espada criou um discípulo, um puto pretencioso chamado João Pereira Coutinho, que o inevitável Expresso alberga e ao qual tudo o que aqui vai escrito sobre o seu mestre se aplica – em doses reforçadas, que a juventude tem que ser bem alimentada.

Publicado por NRA em 01:39 AM | Comentários (1)

fevereiro 09, 2004

O Muro caiu

Pois é. Aquilo que já há muito se receava lá sucedeu: este Muro, de tão esboroado por ausências prolongadas e desmazelos vários, entrou em ruína. Já não há cimento nem fita-cola que lhe valham.

Pode ser que, um dia, os esforçados trolhas voltem a erguer tão imponente construção; enquanto esse ditoso momento não chega, os leitores mais masoquistas poderão dar comigo aqui.

Até já.

Publicado por Mac em 03:49 PM | Comentários (1)

fevereiro 05, 2004

Post em 2ª mão

ESTE GAJO ATÉ MAL À SAÚDE FAZ!

Que Bush Jr. concede ao bem-estar dos indivíduos uma prioridade mui secundária face aos interesses do Big Business, já se tornou óbvio para quem lê jornais com, pelo menos, um olho aberto. Cortes de impostos para os escalões fiscais mais elevados, abertura do Alasca à exploração petrolífera, machadadas na assistência social, invasões – pagas com o sangue dos filhos dos outros – a países com reservas petrolíferas... Os exemplos não faltam. Se calhar, por cá até há quem ache graça: "Votaram nele, não foi? Agora, aguentem!" O pior é que o diabo da criatura está apostada em dar-nos cabo da saúde a todos: agora, decidiu boicotar os esforços da Organização Mundial de Saúde para combater a obesidade.
Aqui, pode ler-se como os comparsas de Bush acusam o relatório da OMS de conter "ciência defeituosa", por não responsabilizar os indivíduos na sua escolha de dieta e de hábitos de vida. Posição muito neocon, não vos parece?

Estranho, estranho, é que esta posição tão libertária ignore o peso dos 20 biliões de dólares de subsídios concedidos anualmente à agricultura americana. Estes subsídios são distribuídos de uma forma que inverte totalmente a conhecida e recomendada "pirâmide alimentar" – com fruta e vegetais na base e doces e junk food no topo. A fatia mais gorda de verba tão astronómica acaba por subsidiar guloseimas, snacks variados, carne, etc., sem apoiar de forma equilibrada a produção dos artigos mais saudáveis. Ou seja, Bush Jr. não se limita a financiar com biliões os seus MacFriends; torpedeia qualquer acção que possa pôr em causa as suas quotas de mercado e os seus lucros por esse mundo fora. Isto apesar de liderar uma nação com 65% de obesos...
Hoje em dia, nem vale a pena falar do condenado protocolo de Quioto, uma vez que os comentadores da praça já engoliram o mantra do "ainda não se provou o aquecimento global" e tratam de o papaguear por todo o jornal que lhes empreste espaço.
Pode ser que agora as figurinhas tipo João Pereira Coutinho se dediquem ao hit "não está cientificamente provado que a fast-food faça mal"...

Publicado por Mac em 10:41 AM | Comentários (0)

fevereiro 04, 2004

Este também ficou a bater mal da bola

Decididamente, as aparições regressaram a Fátima. Depois da Virgem de há uns anitos, apareceu agora em voo planado sobre a Cova da Iria a musa da Poesia. E foi pousar justamente na mitra do Bispo de Leiria/Fátima.
Hoje mesmo a TSF transmitiu, na sua patusca rubrica "Mel com Fel", o resultado de tal epifania: um pequeno poema deste eclesiástico vulto!
Preparem-se. Trata-se uma reflexão, em verso de pé-quebrado, sobre a morte de Miklos Fehér. Julgávamos nós que, depois de morto, já nada de mau lhe poderia suceder...

Dei-me agora ao trabalho de transcrever a obra. Uma coisa destas não se pode deixar entregue ao desmazelo da oralidade; tem de ser preservada e divulgada! (Se bem que algo se perde na aridez do texto impresso, assim privado do arroubo da dicção empolgada do Bispo-Bardo. )
Cá vai disto:

Sorriso de Fehér

A morte foi um poema
Que deu na televisão
Um sorriso após a pena
E o desmaiar para o chão

Ironia e humor
Foi reacção ao castigo
Para o jovem de Gyor
Respondeu com sorriso

Todo o Povo Português
E milhões em todo o Mundo
Viveram mais uma vez
Um sentimento profundo

"Fehér" significa "branco",
Outra cor, penalidade,
Oxalá tenha no banco
Valores para a Eternidade

Uma breve entrevista
Mostrou a televisão
Um portista desportista
Que chorava o seu irmão

Os colegas de Fehér,
Todos nós, com certeza
Vamos na vida entender
O mistério e a beleza

Mais mistério que beleza
Por exemplo: "quem sou eu?"
Eu respondo com franqueza:
"Saberei melhor no Céu"


Agora que releio o "poema", já não me parece tão engraçado. À cabeça, vem-me a imagem de um abutre de sotaina a rondar um cadáver ainda morno; um vampiro que aproveita a dor alheia para impingir mais uma prestação do seu credo. O "Altar do Mundo" está bem entregue...

Publicado por Mac em 02:09 PM | Comentários (0)

fevereiro 03, 2004

O Valete do desastre estampa-se de novo...

Estes senhores querem convencer-nos de que "é no país africano onde a política de combate à Sida mais se aproxima das prescrições do Vaticano que a doença mais tem regredido". O tal país seria o Uganda.
Lendo o que se segue nesse post, a coisa até parece séria; mas trata-se apenas de um eco das ladainhas dos propagandistas da Igreja: contrariamente a todas as expectativas do Valete e respectivas leituras apressadas, o uso do preservativo no Uganda até é bem superior ao verificado em nações vizinhas com maiores taxas de incidência de Sida! Lá se foi a teoria, não foi?

Sigamos agora até este relatório e vejamos a que se reduzem essas historietas sobre a mirífica presciência da Igreja!

Um excerto:
"The results showed that condom use to prevent HIV infection was lower among women than men. Condom use was higher for both women and men (10 percent and 31 percent, respectively) in Uganda than in Tanzania (7 percent and 16 percent, respectively). Knowledge of HIV/AIDS was higher in Uganda than in Tanzania, but the level of knowledge was similar for both men and women in each country."

A coisa é reforçada por este relatório da OMS:
"Since 1990, a USAID-funded scheme to increase condom use through social marketing of condoms has boosted condom use from 7% nationwide to over 50% in rural areas and over 85% in urban areas. The social marketing scheme involved sales of condoms at subsidized prices or free distribution by both the government and the private sector."

E há mais: aqui, até podem descobrir como as forças "moralistas" andam a querer interromper as campanhas governamentais a favor do uso do preservativo:
"KAMPALA, Dec 11 (AFP) - Uganda's successful campaign against HIV/AIDS has suddenly come under threat following demands here by moralists that radio advertisements on how to use female condoms be withdrawn forthwith.
Female condoms were introduced more than two months ago to protect women from contracting HIV, with advertisements on popular FM radio stations emphasising 'not only their safety during sex, but also the nice experiences that go with them.'
The demands by the moralists are seen here as the first real threat against Uganda's national campaign that has largely been responsible for the successful promotion of preventive methods against the killer pandemic."

Ou seja, bem vistas as coisas, é tudo ao contrário do que o Sr. Valete escreveu: houve um aumento brutal do uso do preservativo no Uganda e um esforço estatal para o divulgar e distribuir. É um facto que a campanha pela abstinência entre os jovens também contribuiu; mas fazer disso um estandarte do sucesso das idiotices medievais do Vaticano é absurdo.

Publicado por Mac em 08:00 PM | Comentários (1)