O tonto-mor da CML, Pedro Santana Lopes, recuperou a sua inspiração para criar pérolas culturais. Agora, quer elevar o Fado a "Património da Humanidade", e declara-se pronto a ir aborrecer a Unesco a fim de alcançar tão nobre desiderato.
Depois deste arroubo de paixão pelo faduncho e depois da anunciada tentativa de reanimação do cadáver já bem enterrado que é a "Revista à Portuguesa", fica assim a faltar apenas um apoio à sala das Aparições de Fátima, no Museu de Cera de Lisboa...
Explicações para esta ideia luminosa?
O Fado é "a obra-prima do património oral e musical da humanidade.", disse o projecto de autarca ao Público.
Instado pelo Correio da Manhã, conseguiu expelir os seguintes esboços de ideias:
"– Quais foram as razões que o levaram a avançar com esta iniciativa?
– Foram três razões: ser cidadão de Lisboa, muito apreciador de Fado e português, naturalmente.
– Que importância atribui às casas de fado?
– Essas casas prestam um serviço relevante à cultura portuguesa e devem ser apoiadas. Em breve trarei à reunião de Câmara uma proposta no sentido de rever a carga fiscal que impende sobre esses estabelecimentos."
Ou seja, o gajo que anda sei lá há quanto tempo para cumprir a promessa que fez aos Artistas Unidos de lhes arranjar casa nova, vai agora dedicar-se a facilitar a vida aos antros pejados de turistas japoneses bêbados que em Lisboa dão pelo nome simpático de "casas de fado".
Mas o mais grotesco é isto: a proposta do Fado para "Património Imaterial da Humanidade" já foi feita pela Comissão Nacional da UNESCO... em Dezembro de 2000. Para o confirmar, basta "clicar" aqui e, depois, escolher a secção "Património Imaterial".
Que mais poderá acontecer a Lisboa?
Por sugestão do bengelsdorff, encontrei esta coisa. Um texto -vou chamá-lo assim, à falta de termo melhor- da autoria da Clara Ferreira Alves. Uma demonstração cabal que a boçalidade, quando aliada à vaidade e a uma absoluta falta de gosto, é imparável. Nem consigo fazer mais comentários.
A morte do artista
Entrou no palco com um sorriso na boca e o cabelo a voar, deslizou até ao centro e tomou o lugar que lhe competia. Rodeado pelos outros, sentia-se bem, sentia-se o centro do mundo, que era como se sentia sempre antes de entrar em acção. Aquilo era a sua vida, o seu sonho, tudo o que sempre desejara desde que se lembrava de ter tino, corpo, mãos, pernas, pés, ossos, músculos.
Uma máquina em sintonia perfeita, da qual ele tratava como se fosse um cavalo de corrida, dos que valem milhões de dólares. Ele também valia, ou melhor, valeria, se tudo corresse bem, se fosse tão bom que fosse o melhor, o mais bem pago. A ideia abria-lhe na boca um sorriso maior, como se estar ali naquele lugar àquela hora fosse uma espécie de destino cumprido, com a brisa morna da noite a varrer-lhe os cabelos e a confiança de oiro a reluzir.
A entrada no palco era o momento, o ronco atento do público, a respiração parada da multidão antes do ataque, a agressão controlada ao adversário, a deixa certa, a ocupação do tempo e do espaço como processos absolutos, obedecendo a leis tão destruidoras e tão caprichosas como a lei da natureza. Aquilo começou, era a hora. A multidão levantou-se e deu a ordem da batalha.
O suor caía-lhe pela pele, um visco quente que o aquecia mais, cada vez mais, como se estivesse a arder, como se fosse um gladiador dentro do circo. As mãos tinham deixado de existir excepto para agarrar, tactear, impedir o outro, impedir o intruso entre ele e a sua hora, o seu milésimo de segundo, aquele milésimo de segundo que decide quem ganha e quem perde.
Naquele palco ou se perde ou se ganha, não há segundos nem terceiros, não há medalhas de prata nem bronze. A multidão estava de pé, exaltada, esgotada, molhada ela também de suor e delírio, e no palco ele corria como um animal na selva buscando a presa, perseguindo-a até levá-la a fazer o que não queria, entrar na ratoeira.
Cada vez que a presa caía na ratoeira, a multidão levantava-se e roncava a vitória de um dos grupos, e tinha de ser o dele, era para isso que vivia, para vencer.
De repente, sentiu o coração a explodir, o corpo a vaguear, a fugir-lhe como se não lhe pertencesse. Sorriu uma derradeira vez e caiu no chão como uma árvore derrubada, um árvore que ainda não parara de crescer.
A multidão estava sobre ele, abraçava-o, chorava-o, dava-lhe socos no peito parado, gritava com ele para ele viver. Ele já não os ouvia, os seus fãs, o seu público. A sua vida. O coração despedaçado recusou continuar, fez-se um grande silêncio de choro suspenso, e o jogo de futebol acabou ali.
No instante de glória em que o gladiador tombara na arena antes do tempo. A bola, presa abandonada, rolou para o canto e deixou-se ficar imóvel, uma coisa chorando a morte do homem que lhe dera tantos pontapés. Tantos pontapés.
Morreu como os toureiros, disseram depois. Morte de artista.
Porra. Digo eu.
Em conversa com um valoroso funcionário da tesouraria de um organismo público:
- ... assim, a sua factura deve ser paga ainda esta semana. E diga-me uma coisa: o senhor é dono da empresa?
- Mais ou menos; sou sócio...
- Ah, que bem. Então, não se esqueça depois de uma lembrançazinha aqui para a rapaziada da tesouraria...
Um rubicundo major inglês justificava assim o fuzilamento de mais uns quantos civis iraquianos:
- Vários objectos, alguns dos quais possivelmente granadas, foram lançados pela multidão. Posso assim garantir que as nossas tropas agiram em legítima defesa.
Durão Barroso queixou-se do estado incipiente em que encontrou os planos do TGV quando chegou ao governo, dando a entender que só graças ao seu dinamismo a coisa avançou.
Trata-se, ao que tudo indica, do mesmíssimo Durão Barroso que disse há dois anos que «a nossa posição é que se justifica esse projecto (o TGV) mas não é prioritário.»
Este sábado, ao folhear o Expresso, vislumbrei coisa familiar numa das páginas dos fundos. À primeira olhadela, reconheci logo a temática e o estilo. E disse para comigo: "Olha; mudaram a coluna do João Carlos Espada de sítio..."
Mais: ao ler um texto encimado pelo trocadilho berucha "Certidão de Hobbitt", pensei: "O gajo está pior; há umas semanas era o Harry Potter que representava a vitória dos valores tradicionais, e agora já é O Senhor dos Anéis"...
Mas estava equivocado. Aquilo não tinha saído da pena do Espada. Era antes fruto das meninges espremidas de um seu esforçado discípulo. João Pereira Coutinho de seu nome.
O tema era a visita a Portugal de um biógrafo de Tolkien –Joseph Pearce- e o fulcro das sua mensagem: que a trilogia dos anéis "procede directamente da moral cristã". Nada que o próprio autor não tivesse dito, aliás.
As coisas começavam a descarrilar logo a seguir: quando o escriba nos informa que o cristianismo inclui "uma moralidade onde o Bem e o Mal se confrontam na sua ontológica objectividade".
Disparate. O que o JPP descreve são as teologias dualistas, do Maniqueísmo ao Catarismo, que vêem o universo como uma arena onde os princípios das trevas e da luz travam combates sem fim à vista. O Cristianismo não é assim. Mais: o Cristianismo sempre foi violentamente antagónico a esta visão do mundo, como o prova a Cruzada Albigense, que esmagou os Cátaros do Languedoc....
O que aconteceu é óbvio: JPC, na sua ânsia de ver confirmações das suas crenças por todo o lado, nem cuidou de ler o que o citado Joseph Pearce escreveu. Na realidade, as ligações entre o Cristianismo e a obra de Tolkien que ele vislumbrou são bem mais simples e plausíveis: a escolha dos Hobbits como portadores do anel enquanto símbolo das virtudes dos humildes; o "carregar da cruz" que a tarefa de Frodo representa; a forma como até o Mal pode trabalhar a favor do Bem, patente nos actos de Gollum; etc, etc.
Esta pequena falsificação não impediu JPC de seguir directo para as suas conclusões: se um rio caudaloso de espectadores inunda as salas de cinema onde a fantasia de Tolkien está em cena, é apenas pelo desejo que o povo tem de "matar o pós-modernismo", reafirmando a sua necessidade de dicotomias "ontológicas" claras.
A oposição entre o Bem e o Mal – eis a "realidade moral que nós conhecemos e reconhecemos como nossa." Que mundo tão simples e reconfortante aquele onde perambula o JPC... até o universo do Dragon Ball é mais complexo, com vilões que podem bem passar a heróis no espaço de uma dezena de episódios.
Nem passa pela cabecinha do cronista que as multidões procuram e sempre procuraram enredos simplórios, onde seja fácil tomar partido por uma das facções em luta e onde o universo possui um sentido claro e unívoco. Um mundo simples para gente simples, em suma.
É isto que faz – para além das óbvias virtudes oficinais- o êxito destes filmes. Tal como já acontecera com a Guerra das Estrelas e infindáveis resmas de outras produções similares.
Aliás, a saga de George Lucas, por si só, bastaria para concluir que, afinal, o pós-modernismo já estava defunto bem antes desta pretensa "certidão de Hobbitt". Ou que, afinal, talvez nunca tenha existido...
Por sinal, esta simplicidade pacóvia, onde tudo é o que parece e não é preciso fazer escolhas difíceis, este mundo feliz a preto e branco, também descreve admiravelmente a visão de JPC. E explica muito do seu sucesso junto a alguns leitores.
Os seus textos incluem sempre a chalaçazita rasteira, a generalização forçada, a citação a esmo de "inimigos" – mesmo que ele nem se dê ao trabalho de aprender a soletrar os seus nomes: Foucault foi a vítima da semana – tudo a coberto de um humor "irreverente" e fácil.
Seria engraçado construir um "gerador" de "frases JPC". Bastaria combinar descritivos coloridos como a "trupe", a "tropa fandanga", a "malta", as "hordas" e os inevitáveis vilões: os "pós-modernistas", os "anti-americanos", os "ecologistas", a "esquerdalhada". 80% dos textos deste cronista são mesmo assim.
Noutro texto na mesma coluna, o homem escreve sobre o conhecido e recente caso de canibalismo passado na Alemanha. Para concluir que o Estado deve proteger-nos de nós mesmos.
JPC acha que fazermos banquetes de entrecosto humano é "uma abominação". Até sou capaz de concordar; e depois?
Abomináveis também são, para muitos meios religiosos, coisas como a homossexualidade, a contracepção, o trabalho aos sábados...
O que ele deseja não é que nos protejam daquilo que nós queremos. Não; ele deseja mesmo é proteger os outros daquilo que ele não quer.
E é isto que passa por uma luminária da nossa direita. Que tristeza.
"Nenhum governo que deve a sua posição à vontade do povo gastaria biliões de libras em armas químicas, biológicas ou nucleares enquanto o seu povo vive na pobreza"
Isto lê-se na edição de hoje do Público, como sendo parte da arenga que o primeiro-ministro do Reino Unido foi deixar nas martirizadas orelhas dos seus soldados em Bassorá.
Está o insigne estadista a esquecer-se de um exemplo brilhante das impolutas virtudes da Democracia: a Índia.
Ou não possui este país armas atómicas, a par de misérias indizíveis espalhadas a eito pelas ruas de cidades como Calcutá?
Não; ele não se esqueceu de nada. Trata-se simplesmente da velha teoria segundo a qual as armas das Democracias são menos sinistras que as outras. Temos assim que as centenas de bombas no arsenal atómico israelita não são más; se algum dia os votantes israelitas decidirem reduzir a cinza-que-brilha-no-escuro algum dos seus vizinhos com regimes totalitários, what's the problem?
A acusação do processo da Casa Pia é um sucesso. Mais páginas que todos os escritos do Camilo Castelo Branco e mais nomes que a lista telefónica.
Todos os dias oiço falar de mais gente. Faz-me lembrar uma anedota sobre as características das modas. Na graçola em questão, uma betinha garantia ufana que ia ter SIDA este ano, porque para o ano toda a gente já tinha.
Para além dos nomes, a minha grande dúvida sobre o processo é se o procurador João Guerra faz parte da acusação ou da defesa. Eu acho que é advogado do Carlos Cruz, os meus amigos garantem que é defensor oficioso do Bibi.