O esforçado "Diário de Notícias" continua empenhado a fundo na sua tarefa homérica de anunciar salvíficas retomas e outros prodígios avulsos aos papalvos cá da Chernilândia.
Hoje é a vez de revelar, logo na primeira página, que "Hospitais privados são mais eficientes". E o texto arranca logo com a proclamação do milagre: "A poupança significativa no custo por doente, que chega a ser de 230%"...
Implica isto que tais doentes são mais que baratos: dão lucro.
Como julgava eu que qualquer criancinha saída da primária saberia, a matemática ainda não autoriza a existência de poupanças superiores a... 100%.
Há que acrescer a este milagre o do Jovem Crítico Literário Pedro Mexia que, no mesmo pasquim-que-já-foi-um-jornal-decente, se entreteve ontem, sexta-feira, a cantar os méritos do último romance de Mário de Carvalho, enumerando as virtudes da prosa, do vocabulário, do humor... e não escrevendo uma palavra só sobre aquela minudência que alguns teimosos persistem em procurar num romance: a história.
Talvez se o rutilante Jovem Crítico Literário não tivesse gasto um parágrafo a queixar-se da falta de espaço decorrente do facto de não estar a escrever para uma revista Americana, talvez aí houvesse lugar para pormenores relativos a tramas, enredos, sei lá...
É só ler o que hoje Francisco José Viegas escreveu na Grande Reportagem, sobre o mesmíssimo romance, para se entender a diferença entre um Crítico e um poseur.
O filosofo esloveno Slavoj Zizek tem uma instrutiva obra sobre o totalitarismo ("Did Somebody say totalitarism?"). Na introdução, partindo da analogia com uma bula de um chá medicinal, Zizek defende que o conceito de totalitarismo funciona como uma espécie de "anti-oxidante" ideológico para "radicais livres". Para ele, a aceitação, por parte da esquerda, da designação de pensamento "totalitário", para qualquer iniciativa de transformação da sociedade , significa aceitar colocar a discussão no "terreno do inimigo". Defende o filósofo que “no momento em que se aceita a noção de “totalitarismo” cai-se no horizonte democrático e liberal.” O livro pretende, assim, “mostrar que a noção de “totalitarismo”, longe de ser um conceito teórico efectivo, é uma espécie de subterfúgio que, em lugar de permitir-nos pensar, obriga-nos a adquirir uma nova visão da realidade histórica que descreve, desobriga-nos do dever de pensar e, inclusivamente, impede-nos activamente de pensar”.
Para além da capacidade de ir contra o discurso estabelecido, o autor tem bastante humor. A suposta dedicatória da obra é surpreendente. Zizek conta que depois da queda de Chausesco, às mãos dos seus colegas da nomenklatura, um amigo, dele, norte americano, foi trabalhar para a universidade da libertada Roménia. Uma noite telefonou para a namorada e contou-lhe as suas impressões: “a Roménia é um país pobre, mas toda a gente está entusiasmada e a tentar melhorar as coisas”. Depois de cinco minutos de conversa, despediu-se e desligou. No momento seguinte, o telefone toca. O americano atende e ouve, num inglês macarrónico, as seguintes palavras: “eu sou sicrano, o oficial da Securitate encarregue de o escutar, queria agradecer-lhe as maravilhosas palavras que teve para o nosso país e desejar-lhe uma agradável estadia”.
Zizek dedica o livro a “este anónimo funcionário romeno da polícia secreta”.
Anda um homem décadas da sua vida a dar tudo ao trabalho, esquecendo a família, a saúde, as alegrias simples do dia-a-dia. Nada lhe parece mais importante que alcançar mais uma promoção, mais um trono na pirâmide social.
O sucesso acaba por chegar, com o seu cortejo de riquezas, aduladores, glórias transitórias. O nosso bom homem está feliz. Mas o destino conspira contra este júbilo pacato.
Um dia, chegam as multinacionais, com planos refulgentes de rendibilidades acrescidas e novas políticas. Planos onde ele não tem lugar.
Perde o seu tão amado ganha-pão. Lançado nos braços ingratos do desemprego, ele logo tudo vê desaparecer: família, bens materiais, segurança. E agora?
Agora, ele vagueia de casa em casa, entregue à bondade de amigos e estranhos.
Por fim, vê-se reduzido a dormir num buraco infecto-contagioso, com a escassa dignidade de um qualquer bicho daninho, esquecido por todos, renegado pelos que antes tomava por amigos.
Quando o longo braço da caridade sem fronteiras o encontra e ampara, ele está irreconhecível: a barba cresceu até atingir as dimensões de um labiríntico hotel de piolhos. As olheiras estendem-se das sobrancelhas ao queixo. O olhar triste espelha a desilusão sem fim de quem viu a sua vida desmoronar-se como um castelo de cartas.
Pobre sem-abrigo; quem te vai valer neste Natal sem coração?
É definitivo. O "New Washington Post" na sua última manchete confirmou. O Saddam Hussein que foi capturado é um exemplar de plástico- parente afastado do peru servido aos soldados por Bush -, e, mais grave, é made in China. Apesar disso, estamos todos muito felizes até à próxima explosão. Iraquianos tenham confiança o petróleo ainda há de ficar em boas mãos.
Ouvido há uns dias numa entrevista na TSF. Pergunta a ex-primeira-dama da SIC, Margarida Marante, a um qualquer responsável de um organismo envolvido na luta contra a SIDA:
- Portanto, a droga é um dos factores que causam a actual quantidade de seropositivos heterossexuais?
- Sim, exactamente - responde o responsável.
- Quer isso dizer que os africanos têm grandes culpas no espalhar da doença...
- Hmm. Não estou bem a perceber - retorque a oficial figura, já um pouco inquieta quanto ao rumo da coisa.
- Então, não são os africanos que introduzem muita droga em Portugal?
- Droga? Tem a certeza?
- Claro. Não vê aquelas apreensões todas que fazem de haxixe vindo de Marrocos?
Moral da história: Nunca mais vou conseguir fumar um charrito sem sentir uma angústia profunda quanto ao meu estado de saúde.
Nota da Redacção: Não estou certo de reproduzir à letra a "entrevista". Mas o espírito foi mesmo este. Pobre TSF.
Três factos, mais ou menos, recentes demonstram à saciedade os mistérios da vida:
1- Um centro comercial na Nova Zelândia proibiu ao “Pai Natal”, que anima o espaço, de sentar as criancinhas ao colo. Os gerentes da superfície comercial temiam possíveis acusações e, respectivos, processos por pedofilia. Quem ficou a ganhar foi o marceneiro, a quem lhe encomendaram uma cadeirinha toda jeitosa para sentar os petizes.
2- Na construção de um memorial às vítimas do holocausto foi descoberto um facto revelador e tétrico. Uma das empresas subcontratadas, responsável pela aplicação de um verniz contra os graffitis, era, nem mais nem menos, a firma que produziu o gás com que foram massacrados os judeus nos campos de concentração. Lénine escreveu que “os capitalistas venderiam a corda em que seriam enforcados”. Enganou-se. A boa gestão não é tão autofágica. Limita-se a assassinar e a ganhar com a homenagem às vítimas.
3- Numa recente competição internacional de ténis, na Austrália, o trompetista convidado em vez de ter tocado o hino oficial espanhol (“ A Marcha Real”) executou o hino da República Espanhola. Os jogadores quase não se aperceberam da mudança. Os dirigentes federativos espanhóis e o embaixador é que passaram a cerimónia aos pulos e a urrar. Prontamente, o governo do inefável Aznar exigiu desculpas oficiais do seu congénere australiano. Mais calma foi a reacção de alguns deputados do país vizinho. Um deputado da Esquerda Republicana da Catalunha justificou o sucedido: “ é natural que, entre duas melodias, os australianos tenham escolhido a música melhor”. Já um deputado comunista foi mais bruto: “eles apenas tocaram a música que devia ser. O hino da República corresponde a um governo eleito pelo povo, o hino da monarquia foi imposto, depois da guerra, pela ditadura de Franco”.
Será mesmo verdade que o programa "Vidas Alternativas", da Voxx, teve um final prematuro depois de o novo proprietário da emissora ter ouvido um elegante travesti lisboeta enunciar, em directo e ao vivo, o nome de um político muito na berra nos dias que correm? Este "senhor" veria assim justificada a alcunha de "Catherine Deneuve", por comparecer regularmente, in drag e de loura peruca, às festas da exuberante comunidade transexual alfacinha...
Do nosso colaborador João V. Claro, segue o arguto comentário.
Disse há umas semanas que o José Manuel Fernandes, verbalista congénito que, na sua actual incarnação jornalística, colocou o seu verbo fácil ao serviço da causa da administração Bush, era a primeira vítima colateral do apodrecimento da situação militar no Iraque. Menti: José Manuel Fernandes, vítima será, mas primeira é que não. Como já há mais de um século alguém dizia, os nossos escribas limitam-se a traduzir em calão os originais franceses, no caso vertente de André Glucksman e Bernard-Henri Lévy. Curiosa a sorte destes “novos filósofos” (prova provada se bem que póstuma das virtualidades de algum pensamento estrutural): AG, para justificar juridicamente o injustificável juridicamente (a invasão do Iraque) salta a fronteira entre o normativo e o simplesmente político com piruetas de que nem o Vichinski dos piores tempos seria capaz; quanto ao insuportável (de cabotino) BHL, de tanto festejar o fim do “império vermelho” e a vitória das forças “do bem”, substituíu “os amanhãs que cantam” pela celebração dos dias que passam, quaisquer que eles sejam. No fundo, fazem-me pensar que, tivessem estes dois nascido num burgo perdido dos Urais e não algures no seizième, escreveriam loas ao “Pai dos Povos” em vez de ensaios pretenciosos, supostamente a dizer mal dele; acessoriamente, fazem-me também pensar na falta que uma utopia de jeito faz: é por não haver nenhuma agora, que temos de aturar esta gente a explicar-nos, como padres medievais, que não vale a pena mudar o mundo, não porque haja um paraíso à espera (felizmente deixaram-se disso), mas porque simplesmente não há felicidade possível para além da felicidade existente, na vida de merda de nove décimos da humanidade.
É engraçado reparar que a direita portuguesa “fazedora de opinião”, embora se declare maioritariamente filo-britânica, continua a seguir as modas culturais de Paris (inevitavelmente atrasadas). Por razões que o Manuel Villaverde Cabral saberá melhor do que eu, a intelectualidade nacional despreza na maior parte dos casos a França, país “onde a política se faz na rua”; e embora nem toda seja tão ridícula como o Espada (que estamos todos à espera de ver aparecer um dia com um bonézinho à Sherlock Holmes enfiado na cabeça), a verdade é que, do Pulido Valente ao Cutileiro, passando pela Filomena Mónica e por muitos outros personagens menores, quando lhe falam ao coração, confessa-se anglo-saxónica. O problema é que, neste caso como em muitos outros, os portugueses em geral, e as suas putativas elites em particular, conhecem-se mal; e tomam por inglês ou americano aquilo que, na realidade, neles é francês. O tom belicoso do Público em matéria de política internacional, por exemplo, é típico dessa “guerra fria tardia” de que boa parte da intelectualidade francesa actual padece, como muito bem diagnosticou o Hobsbawm, e a portuguesa importou. Outro exemplo menor, e vagamente anedótico: o anglófilo Pulido Valente, que sob vários pontos de vista resume uma geração de gosto, elege para escritor português do século XX o Cardoso Pires (se calhar convencido que ele é um contador de histórias à americana) e prega “O Delfim” em cinema (ou seja, mais rigorosamente, adapta-o para o filme do Fernando Lopes) - não reparando que, by the way, impinge aos espectadores de 2001 ou 2002, dos quais metade não tinha ainda nascido na altura do 25 de Abril e a outra metade é capaz de confundi-lo com a comédia de costumes sobre o mesmo tema da Maria de Medeiros, uma variação sobre o tema arqueológico do “marialva”, por sua vez derivado, se bem que por oposição, do defunto “libertino” de Roger Vaillant! Percebem o filme?