O homem é mesmo obtuso. Não há volta a dar à questão; o José António Saraiva é decididamente um caso perdido.
Alicerçado no volume brutal de vendas do Expresso, a criatura julga-se investida de um qualquer manto de infabilidade, à semelhança do geronte do Vaticano. Vai daí, coroa-se semanalmente oráculo oficial dos portugueses, fazendo passar as débeis fantasias que lhe iluminam os neurónios por ponderadas análises do que se passa em Portugal e no Mundo. É como se o Marco Paulo quisesse, porque vende muitos discos, ditar quem pode ou não tocar no Grande Auditório da Gulbenkian. Ou como se os senhores das Páginas Amarelas, santificados pelas suas enormes tiragens, desatassem a postular aforismos para nos governar as existências.
O homem não tem emenda. E já nem há pachorra para a desculpa do costume: "coitadito, faz o que pode; não deve ser lá muito esperto…"
O editorial desta semana, intitulado "Lágrimas de crocodilo", oferece-nos a resplandecente miopia do arquitecto em todo o seu desfocado esplendor.
A propósito do ninho de vespas que os americanos não param de agitar no Iraque, começa por atacar o "raciocínio, largamente expendido por certa esquerda" que nos leva "por caminhos complicados. Por exemplo: se Angola não se tivesse tornado independente não teria havido guerra civil (…)"
Ou seja: uma colónia tornar-se independente é igual à invasão de um estado independente. Mesmo que todas as resoluções dos organismos internacionais competentes fossem a favor do primeiro evento e contra o segundo.
Depois, informa-nos que muitas das "lágrimas que (a esquerda) chorou foram lágrimas de crocodilo." Porque "esta morte até conveio a essa esquerda". São coisas como estas que dão forças às sinistras teorias eugénicas que pretendem acabar com os idiotas antes que eles tenham tempo de contaminar a sociedade.
Mas há pior. Muito pior.
Agora, as patranhas das "armas de destruição maciça" foram "apenas o pretexto para a invasão. A sua ‘razão formal’. A questão essencial teve (e continua a ter) com o terrorismo. Imagine o leitor que vivia num sítio problemático, perto de um reduto de marginais que um dia lhe assaltavam a casa, matando um membro da família. O que faria, se tivesse meios para combater os marginais; ficaria à espera de ser de novo assaltado ou iria ao encontro deles, tentando neutralizá-los?"
Nem sei bem se isto é só estupidez ou dissimulação disfarçada de estupidez. No 11 de Setembro, os EUA foram atacados brutalmente por terroristas inspirados e financiados pela Arábia Saudita. Respostas? Atacar as bases de Osama no Afeganistão (compreensível, apesar de tudo) e, passados uns meses, atacar o Iraque, que nunca teve relações com os Wahabitas da Al-Quaeda que não fossem antagónicas. Mesmo a famosa pista Checa, respeitante a um suposto encontro entre Atta e autoridades iraquianas, já tinha sido amplamente desmentida.
Na bonita fábula do arquitecto, isto equivaleria a alguém ser atacado e não molestar em retaliação a casa do vizinho (é vasta a noção de "sítio problemático" do escriba) com culpas no cartório, mas sim a de um outro caramelo que sempre o irritara, embora ele já tivesse sido amigo útil em tempos não mui distantes. Uma vez lá chegada a milícia, expulsa-se o vizinho incómodo e trata-se da saúde a muita gente inocente que por acaso vive na casa errada, na ocasião errada. Isto depois de várias queixas falsas à polícia, sobre um suposto e terrível arsenal que o "vizinho" amontoara.
Como pode o fulano dizer que os EUA foram "dar luta aos terroristas nos seu terreno", quando só agora há notícias de actos de terrorismo ligados ao Iraque?
Mas ele pode mais ainda. Ele sabe que "a América tem sobretudo metido medo aos ditadores – de Hitler a Saddam. (…) as grandes disputas dos EUA, desde a II Guerra ao Vietnam, têm sido contra regimes totalitários."
Pensava eu que só o Rumsfeld teria lata para dizer tal coisa. Mas esta sinistra personagem sempre conta com a ajuda de uma inteligência poderosa. O arquitecto tem de se contentar com a presunção de ignorância ou amnésia dos seus leitores. Tem de imaginar que ninguém se lembra já da queda de Allende; ou do apoio dado a Saddam contra o Irão; ou da formação dispensada pela CIA aos moçoilos de Osama no Afeganistão; ou da "democracia" que reinava no Vietname quando lá andavam os GIs.
Nada disto interessa agora à alucinada pena do Director. Importante para ele é que o Michael Moore possa ter tido a oportunidade de "vociferar no palco" contra o Monkey Boy. Isto é que é "a maior prova de democracia". Isto é que é "tranquilizador para os espíritos livres"!!
Ou seja; que um representante da tal "certa esquerda" tenha ido contra as instruções expressas da organização dos Óscares, acaba por legitimar tudo. Agora, podemos dormir tranquilos.
Será que o caramelo nem lê jornais? Não saberá ele o que aconteceu às Dixie Chicks por terem demonstrado coragem semelhante?
E, mesmo que a Democracia dormisse tranquila nos EUA, porque teria eu de partilhar esse sono dos justos?
Se os americanos continuassem a disfrutar de todas as liberdades, -coisa de que muitos hoje duvidam - poderia eu ver aí um sinal de que o resto do mundo ia permanecer em paz, livre das invenções sangrentas do Presidente americano? Claro que não; hoje, a ideia é sempre preservar o American way of life; não o way of life de mais ninguém.
Eu, por mim, não volto tão cedo a comprar o Expresso.
Ainda antes de partir de férias, uma palavra para a Liberdade de Expressão, que me interpela a propósito do post sobre o sobreaquecimento do João Pereira Coutinho. Para ilustrar o seu cepticismo acerca do propalado aquecimento global, João Miranda usa dois gráficos do United Nations Intergovernmental Panel on Climate Change. Mais do que me pôr agora a discutir se há aceleração ou não, prefiro citar a que é, de acordo com Andrew Weaver, um dos autores desse estudo, uma das principais conclusões do mesmo:
"Viewed as a whole, these results indicate that observed global warming over the past 100 years is larger than our current best estimates of natural climate variations over the last 600 years. More importantly, there is evidence of an emerging pattern of climate response to forcings by greenhouse gases and sulfate aerosols in the observed climate record. This evidence comes from the geographical, seasonal and vertical patterns of temperature change. Taken together, these results point towards a human influence on global climate."
Pois é. Os gráficos são bonitos, mas faz sempre falta quem os saiba ler.
Imagine-se, culto leitor, em inocente romaria ao cinema. Uma vez que o filme "Joga como Beckham" parece promissor e até se destina a "maiores de 6 anos", leva a sua filha consigo.
De súbito, ainda antes do filme começar, dá de caras com isto.
O seu rebento de 10 anos está de olhos esbugalhados. Você tenta tapar-lhe a vista com as mãos. Debalde. E agora?
Agora, o meu amigo a quem isto aconteceu está à procura de alguém a quem se queixar. Os senhores da Medeia Filmes deviam andar à procura de algum bom-senso.
O "velho lobo do mar" Filipe Nunes Vicente, do Mar Salgado, descobriu que "a incontinência na blogosfera tem um tremendo valor sociológico". Esta iluminação teve a sua faísca primordial na constatação de que eu o teria informado que "só um pateta considera o Hamas, apenas um grupo terrorrista". Infâmia!!
Eu até "podia dizer que a organização não é terrorrista porque está em guerra com Israel, porque as vidas públicamente ceifadas no médio-oriente não têm o mesmo valor do que no ocidente, ou simplesmente porque o terror é uma invenção do capitalismo. Enfim, podia dizer o que quisesse.
Mas o Sr. Moura prefere explicar-nos que quem gere creches e hospitais, é necessáriamente, muito mais do que um grupelho terrorrista."
Para além de uma concepção muito peculiar da ortografia, vagueiam por aqui duas invenções: o qualificativo "pateta" - que não usei - e uma intenção de proclamar que o Hamas "não é terrorista", coisa absurda que nem sequer me aflorou o cerebelo.
Parece-me evidência digna de La Palice que uma organização que dedica larga parte dos seus recursos a gerir redes sociais de apoio às populações civis é mais do que simplesmente terrorista. Que também se dedica a actos bárbaros de violência sobre inocentes, não o tentei escamotear ou minimizar.
Vou voltar a citar, agora com tradução, o comentário da Columbia University Press, esse notório ninho de simpatizantes dos terroristas: "desde que emergiu como desafiador da OLP durante a Intifada Palestiniana, o Hamas foi associado pela percepção pública ao terror e à violência. Agora, dois especialistas israelitas mostram que, ao contrário desta imagem, o Hamas é essencialmente um movimento político e social, fornecendo extensos serviços comunitários e respondendo constantemente às realidades políticas através de negociações (...)"
Já perceberam? O Hamas é terrorista. E também é muitas coisas mais.
Olhem que não é difícil obter mais informação sobre o Hamas, incluindo o carinho dispensado por Israel a este movimento enquanto foi útil para dificultar a vida à OLP. Difícil parece ser evitar conclusões enviesadas sobre o que os outros escrevem.
Parece que o incontornável Vicente Jorge Silva andou a cascar forte e feio nos desmandos de uma tal de "Arte Contemporânea". No DNa de dia 16, o desassombrado jornalista/deputado/pai da Nação/cineasta proclamou que "A única coisa que acho patética é a chamada arte contemporânea. Tem um lado de vigarice evidente. Se o Pedro Cabrita Reis colocar ali uma série de presuntos em fila é uma extraaordinária instalação (...) Há uns tempos, vi um vídeo do Julião Sarmento (...) Bem, aquilo é considerado de altíssimo interesse cultural e não me transmite coisíssima nenhuma."
Engraçado; quando vi o filme "Porto Santo", a única coisa que me tal obra de VJS me transmitiu foi uma vontade irreprimível de mudar de canal. Fosse para onde fosse; até uma telenovela da TVI seria bem vinda naquela ocasião de tédio sem fim. Equiparar tamanho desperdício de boa película virgem a qualquer coisa saída das meninges do Cabrita Reis - por sinal o nosso artista com maior circulação internacional - seria, perdoem-me a expressão, comparar o olho do cu com a Feira de Beja.
Afinal, o dicionário não é o único local onde "patético" e "pateta" andam juntinhos...
O H.V. deu-se ao trabalho de nos enviar um belo elogio. Tentei contactá-lo por e-mail mas os deuses da tecnologia viraram costas ao meu esforço. De modo que, mesmo sem autorização, aqui fica o texto. Mande mais, leitor, sempre que quiser. Toda a ajuda é bem-vinda; erguer este Muro é tarefa pesada demais para dois pobres trolhas ignominiosamente abandonados...
Tive um professor de arquitectura Maia Pinto de seu nome que nas horas vagas e mais ou menos secretamente projectava um muro. Desenhava em grafite sobre um rolo de vegetal daqueles com 50 m um muro que começava não se sabe onde e cujo objectivo era dar a volta ao mundo, assim como a muralha da China mas talvez mais interessante. Tinha já vários rolos de vegetal desenhados, sempre em continuidade, o seu muro atravessava países, fronteiras,cidades, lugares, estradas e mesmo outros muros. Viam-se de quando em vez pormenores como o de buracos no muro com ratinhos a espreitar , gente que se relacionava com o muro das mais extraordinárias e ordinárias maneiras, paisagens atravessadas pelo muro que, conforme o sítio se construía com os mais diversos materiais. Não sei se ele chegou a terminar este projecto, ou se continua a projectá-lo, ou se em relação a este muro axerce uma actualização permanente conforme o mapa geopolítico vai oscilando ou se subindo acima do muro ali se detém procurando a melhor direcção. Esta ideia de um projecto sem fim, de um refúgio num muro em volta, de uma construção que se auto constroi, ficou, fruto de uma conversa com um colega que me contou da existência deste projecto. Nunca vi nenhum desenho deste muro. Nunca falei dele em público, e por ser sigiloso, nunca falei dele ao professor, embora por diversas vezes me tivesse aproximado com essa intenção. O que gostaria de saber sobre este muro era muita coisa, e ficava sempre sem jeito quando iniciava a conversa.
O vosso MUROSEMVERGONHA provocou-me esta inconfidência e esta coincidência. Não é?
José Bové foi vingado! Um dos alvos preferidos da sua justiceira ira, a multinacional que nos impinge há anos hambúrgueres com sabor a esferovite prensada, acaba de ser vítima de um audacioso ataque.
Os alterglobacionistas infiltrados conseguiram introduzir em milhões de Happy Meals uma estatueta que satiriza sem piedade o monstro imperial himself, George W. Bush. Vejam:
A parecença com o 2º candidato mais votado nas últimas eleições presidenciais dos states é indiscutível. E o monstro simiesco está a fazer coisas inconfessáveis à pobre criança que, a julgar pela tez, representa as etnias massacradas recentemente pela máquina militar americana, no Afeganistão e no Iraque.
Uma crítica mordaz, corajosa e, acima de tudo, claramente revolucionária! Para quando, Nuno Ramos de Almeida, acções deste gabarito nas ruas de Portugal?
No Mata-Mouros, tiveram a generosidade de nos recomendar um manual de "Protestos para Idiotas Utéis", simpatia que o Nuno já teve ocasião de agradecer. Deve ser fascinante, pelo menos o prometido capítulo dedicado aos "Aging Hippies", no qual talvez me reconheça um pouco...
Aproveitando a embalagem, na sua periódica distribuição de Óscares Blogueiros™, atribuíram o seguinte prémio para a "Melhor Frase": "Não há 'dirigentes moderados' numa organização terrorista, ponto", do Abrupto.
Ponto. E pronto.
Mani não o diria de forma mais sucinta.
Como é fácil e confortável ter certezas assim, comodamente sentadas a milhares de quilómetros dos locais onde as coisas se passam, sem vermos as nossas terras ocupadas por colonos com confortáveis piscinas, enquanto vivemos em casas com água racionada; sem termos as nossas aldeias e vilas retalhadas por estradas, muros, check points, etc. Isto para já nem mencionar a macabra contabilidade de caixões que a B'Tselem continua a actualizar.
Ignorar que o Hamas é muito mais do que um grupo terrorista é simplesmente fechar os olhos à complexidade da realidade. É ignorar o que até a Anti-Defamation League constata no seu site: que o Hamas gere uma rede de hospitais, creches, escolas e caridades diversas. É ignorar a própria génese do movimento, surgido em 98 como oposição à notoriamente corrupta entourage de Arafat.
Este pequeno livro, escrito por dois académicos israelitas, pode elucidar-vos sobre as dissensões internas que têm atravessado o Hamas, sempre oscilando entre duas teses: a brutalidade pura e dura e a procura de soluções negociadas.
Ismail Abu Shanab era um dos rostos deste último ponto de vista. Era.
Se não quiserem gastar 20 euritos no livro, leiam ao menos este artigo de um outro "idiota útil", o Jerusalem Post.
Sobre o livro, fica ainda o comentário da Columbia University Press:
"Since it emerged as a challenger to the PLO during the Palestinian Intifada, Hamas (the Islamic Resistance Movement) has been associated in the public mind with terror and violence. Now two Israeli experts show that, contrary to its image, Hamas is essentially a social and political movement, providing extensive community services and responding constantly to political realities through bargaining and power brokering. The authors lift the veil on Hamas´s strategic decision-making methods at each of the crucial crossroads it has confronted: the Intifada and the struggle with the PLO, the Oslo accords and the establishment of the Palestinian National Authority, and the dilemmas surrounding the choice between absolute Jihad against Israel versus the option of controlled violence."
O maniqueísmo exibido com o orgulho do costume por Pacheco Pereira poder-me-ia levar a dizer que "todos os ministros, secretários de estado, contínuos ou apoiantes de um Governo que bombardeia prédios em bairros que são dos mais populosos do mundo, matando crianças e chamando ao acto 'um grande sucesso' são terroristas. Ponto." (Lembram-se disto, não?)
Assim, ficaria sintonizado com quem se acha no direito de julgar, por exemplo, um médico que trabalha nos campos de refugiados e é pago pelo Hamas, apondo-lhe o labéu de "terrorista".
Mas não me passa pela cabeça concordar com tal tese. Parece-me um bocado tonta.
Hoje, ao aproximar-me do escritório onde gasto os meus dias, dei com um grande cartaz que me interpelava de forma abrupta: "Espero que tenha reparado... A Avenida Marechal-já-não-me-lembro-do-quê foi asfaltada. Custo da obra: 25.000 euros"
Quem será o "eu" implícito, o emissor de tão patusca mensagem? O próprio cartaz? Ou o presidente da malfadada Câmara Municipal de Lisboa?
Depois da "revitalização" do Parque de Monsanto, com o aparente objectivo de o deixar às moscas e cortar o acesso aos degraçados restaurantes que por lá se foram abrindo - sem esquecer os concertos "florestais" sem público nem transportes à vista - , só nos faltava esta: o Santana Lopes a perguntar-nos a cada momento se reparámos na sua imponente "obra".
E quanto terá custado, em percentagem sobre o custo da empreitada em destaque, a implantação e impressão destes cartazes?
No 24 Horas de hoje vem o relato de uma pequena partida que pregaram a Miguel Paes do Amaral, o todo-poderoso chefe da TVI. Foram colocar ao importante senhor algumas perguntas de algibeira sobre os grandes hits de audiência da sua estação. Questões de lana caprina sobre o Big Brother, a personagem corrente da Alexandra Lencastre, o Goucha.
O homem não acertou numa só resposta.
Para 24 Horas, isto não tem importância. Mas tem.
As "elites" que decidem o que vamos ver e ouvir não estão com pachorra para tragar a sua própria mistela. Imagino o Dr. Amaral a desfrutar da sua aristocrática ópera em Viena, enquanto se ri dos idiotas que lhe pagaram o último fato Armani. São desta estirpe os administradores que perguntam se a TSF não pode passar os relatos desportivos em diferido, ou aqueles consultores que têm por iguais imagens de fogos antigos ou recentes.
É a esta malta que entregaram a TV e a Rádio em Portugal. Gente que abre garrafas de Dom Pérignon a cada ponto de share conquistado, embora não façam ideia de como ou porquê. Nem quero imaginar a "sociedade civil" que neste momento afia o dente a pensar na RTP2; ainda vamos todos ter saudades do "Acontece"...
Num post abaixo (A Morte), o CAA teve a amabilidade de nos deixar algumas linhas de comentário, das quais extraio as seguintes palavras:
"Quem cometeu estas matanças está, exactamente a tentar bloquear o "roadmap", i.e. a construção do Estado Palestiniano!!! Estes não são assassinos inconsequentes - são senhores da guerra, que vivem dela e por causa dela; sem a guerra nunca mais serão ninguém. Por isso querem que a guerra não pare e que o "roadmap" seja aniquilado.
Claro, que não estou a falar de Sharon, mas daqueles palestinianos que o próprio Mazen condenou. Por estranho que vos possa parecer Sharon e Mazen são as grandes esperanças para a continuação do "roadmap". Arafat, o Hamas e quejandos, não.
Não metam tudo no mesmo saco, vocês são melhores do que isso."
Cá por mim, não tenho dúvidas em remeter ao mesmíssimo saco dos "senhores da guerra" o citado Sharon. Alguém que ascende ao poder cavalgando as vagas da intifada a que ele mesmo deu início com a provocação da Esplanada das Mesquitas, parece-me ser um dos que "vivem dela e por causa dela" (a guerra). Isto para nem ter de vos lembrar Sabra e Chatila.
Se dúvidas tinha, bastou-me descobrir quem era o último alvo dos corajosos hit-men alados de Israel:Ismail Abu Shanab.
Até a CNN nos descreve o falecido líder do Hamas como uma das figuras mais moderadas do movimento. Era alguém capaz até de aceitar a existência de Israel: "We support one thing: Israeli full withdrawal from our land, if this is achieved, we support any plan which can get this Israeli occupation to withdraw. We are willing to live in peace."
Nem me interessa agora discutiir tais retaliações; é sabido que o bárbaro atentado do autocarro já fora apresentado como resposta a ataques israelitas a dirigentes palestinianos. O único resultado garantido da política do "olho por olho" é, como há muito se sabe, deixar toda a gente cega.
Mas não deixa de ser revelador o alvo escolhido desta vez. Uma das escassas vozes de autoridade dentro do Hamas a falar num tom menos intolerante, um pouco mais conciliador. A que serve tal escolha? À Paz? Ou à causa da guerra?
Não se poderá construir qualquer "roteiro" quando os poucos engenheiros capazes de construir pontes são vistos com os alvos prioritários.
PS: pensando bem, esta última frase ajusta-se como uma luva à bestialidade que vitimou Sérgio Vieira de Mello; mais uma prova que os "senhores da guerra" não conhecem fronteiras ou ideologias, apenas o desejo de se perpetuarem no caos e na infâmia.
"Vivre tout à fait sans but! J'ai entrevu cet état, et y ai souvent atteint, sans parvenir à y demeurer: je suis trop faible pour un tel bonheur."
Cioran: "Le Mauvais Démiurge", Gallimard, Paris, 1969. PP 89
Num Mundo em que Deus manda é fácil acreditar no Diabo, difícil é continuar a pensar na bondade universal.
Se o Diabo não fosse inventado, tínhamos que desistir de Deus. Estaríamos de acordo com Diderot quando comentou a crueldade de Deus: "Com pai assim, mais valia ser órfão".
O Mal existe. A sua, aparente, irracionalidade sempre foi um mistério. Numa conhecida passagem do romance "Irmãos Karamazov", de Dostoievski, Ivan explica a Aliocha o que é o mal: "Imagina uma mãe assustada com o seu filho nos braços, rodeada de invasores turcos. Eles planearam uma diversão: acariciam a criança, riem para fazê-lo rir. Conseguem-no, a criança ri. Nesse momento, um turco aponta uma pistola de quatro polegadas à cara da criança. A criança ri feliz, estende as suas mãozinhas para a pistola e o turco dispara para a cara da criança e rebenta-lhe o cérebro. Artístico, não é? (…). Penso que o Diabo não existe, mas o homem criou-o, criou-o à sua imagem e semelhança".
Lembro-me bem quando Sá Carneiro morreu. Eu não gostava nada dele. Mas, na manhã seguinte ao acidente, o ambiente estava carregado e parecia que a todos nós cobria a estupidez da morte.
Odeio as imagens de morte e destruição que passaram ontem. Não defendo, nem quero justificar o assassinato de crianças e inocentes. Os atentados de ontem, no Iraque e em Israel, apenas vão alimentar a espiral do caos e da violência. Vamos ver mais mortos e atentados, até deixarem de ser notícia e se camuflarem em folclore macabro.
No entanto, diferencio-me de muitos daqueles que odeiam o acontecido, porque costumo tentar chamar: cão a um cão e gato a um gato. É também claro, para mim, que quando o exército israelita ou dos Estados Unidos da América assassinam crianças e inocentes: são terroristas. Só haverá justiça no mundo, no dia em que Ariel Sharon se encontrar na mesma cadeia que os mandantes dos atentados de ontem. Os milhares de palestinianos, que ele mandou massacrar em Beirute, não são menos gente que os israelitas.
E finalmente, sei que não há nenhuma solução pacífica na região que não passe pela criação de um Estado Palestiniano e pela saída das tropas de ocupação do Iraque.
Mas ter estas certezas, não justifica o mal que foi feito ontem.
É um dos blogs mais divertidos que já li (é verdade que leio pouco), chama-se "umbigo" e pode ser encontrado aqui.
Recomenda-se vivamente a crítica gastronómica ao MacDrive, uma verdadeira pérola digna de um Quitério.
Estou preocupado com o Luís e a sua queda para a ontologia das canalizações. Tenho receio que o conservadorismo seja contagioso. Há perigo de pústulas?
E reafirmo a convicção intima do Luís (ou seria o contrário): a economia moderna tem menos capacidade de explicação/previsão que o, malfadado, Feng Shui. Como dizia Lawrence Peter: "Um economista é alguém que descobrirá amanhã a razão pela qual aquilo que ele previu ontem não aconteceu hoje." Para tentar arrumar, de vez, com o assunto, deixo uma citação de Boris Vian, retirada do seu romance "A Espuma dos Dias", significativamente dedicada "ao meu bibi" (Freud explicava...).
Toda a arte de um bom blog está condensada nesta citação. Bem haja!
"Na vida o essencial é emitirem-se opiniões a priori, a propósito de tudo. Efectivamente, bem se vê que as massas erram e os indivíduos têm sempre razão. É forçoso que a tal respeito nos abstenhamos de deduzir regras de conduta: para serem seguidas, estas não devem ter necessidade de ser formuladas.
Existem apenas duas coisas: o amor, de todas as maneiras, com raparigas belas, e a música de Nova Orleães ou Duke Ellington. O Resto deveria desaparecer, porque o resto é feio, e as poucas páginas de demonstração que se seguem vão buscar toda a sua força ao facto de a história ser inteiramente verdadeira, já que a imaginei de uma ponta à outra. A sua realização material, propriamente dita, consiste de uma forma essencial na projecção da realidade, em atmosfera rebatida e aquecida, sobre um plano de referência irregularmente ondulado e apresentando distorção. Como se vê, um processo confessável, a havê-los."
NOVA ORLEÃES, 10 de Março de 1946.
À atenção da senhora ministra das Finanças:
Escusa de cortar mais na Despesa. Pode deixar em paz os bombeiros, os reformados e a Função Pública. Até pode deixar o Paulinho das Feiras comprar uns submarinos novos.
Descobri a verdadeira raiz do nosso vergonhoso e crónico deficit: sanitas com as tampas levantadas!
É verdade. Ao folhear um manual de Feng Shui, aprendi que uma retrete virada a Sudeste nunca pode ser deixada aberta; se esta calamidade acontecer, o dinheiro é inapelavelmente atraído pelo cano, perdendo-se para sempre!
Assim reza a milenar Sabedoria Chinesa.
Se me apetecesse ser mauzinho, poderia dizer que o Prof. Boaventura Sousa Santos era bem capaz de concluir que «A Economia moderna não é a única explicação possível da realidade e não há sequer qualquer razão científica para a considerar melhor que as explicações alternativas do Feng Shui."
Acabei de procurar no Google páginas portuguesas que incluem a palavra "rectaguarda". Assim mesmo, com o "c" supranumerário e tudo.
Encontrei 757. E já perdi conta às vezes que dei com tal aborto à solta pela nossa imprensa escrita e a cabriolar nas legendas das várias televisões.
Porque será que tudo o que seja "lá para trás" é obrigatoriamente entendido pelo português típico como tendo algo a ver com o recto?
Antes de mais, temos a agradecer, claro está, a gloriosa designação de "Campeão dos Infiéis" com que o Mata-Mouros nos distinguiu.
Confessamos sem vergonha que nos "regozijámos" com a notícia que dava conta do citado estudo. Também admitimos que citámos a frase hilariante de Stuart Mill. Mas digam-nos; se as circunstâncias fossem simétricas, vocês não se lançavam para o chão em alegre "regozijo"? Desculpem lá, mas a coisa tem mesmo graça...
No entanto, não "rebatemos" Ken Hamblin; precisamente porque ele não "se deu ao trabalho de desmontar aquela douta tese". O que o fulano fez foi simplesmente reduzir o estudo a mais uma "cabala" dos detestados liberais, sem sequer dar mostras de o ter lido ( o que eu também não fiz, daí não ter dissertado sobre ele) e sem sequer cuidar de saber se os autores são mesmo "liberais".
O pouco que já li revela-me, no entanto, que ali não houve um "esforço de encaixar Hitler em qualquer corrente do pensamento conservador". O que os autores escreveram, e apenas num anexo ao estudo, foi que: "One is justified in referring to Hitler, Mussolini, Reagan, and Limbaugh as right-wing conservatives, not because they share an opposition to 'big government' or a mythical, romanticized view of Aryan purity — they did not share these specific attitudes — but because they all preached a return to an idealized past and favored or condoned inequality in some form."
A ideia de que os autores "associam", "ligam" ou "comparam" Hitler com Reagan parece assim surgir apenas no contra-ataque conservador.
Quanto ao "atribuir uma dada qualidade a uma pessoa pelo simples facto desta aderir a uma ideia ou a uma ideologia", o Nuno já tinha avisado que "No artigo, publicado na revista científica ‘Psychological Bulletin’, os autores escrevem, contudo, que a sua teoria não implica que ‘o conservadorismo seja patológico, nem que as crenças conservadoras são necessariamente falsas’."
Se eu considero ou não "de carácter científico" esta tese, só saberei depois de a ler com alguma atenção. A priori, não tenho ainda nenhum alicerce sólido em que apoiar uma opinião. Limito-me a uma desconfiança prudente quando confrontado com notícias tão jubilosas...
Que o estudo me parece mais sério que as elucubrações do Lombroso, já não duvido; aqui, ninguém fala de "desvios mentais", apenas de um possível modo de funcionamento de psiques que resistem à mudança e sonham sempre com regressos a passados idealizados.
Se igual explicação fosse dada para diagnosticar indivíduos que querem escavacar e revolucionar absolutamente tudo – como o Mao da Revolução Cultural- também não me escandalizaria.
O "Duplipensar", de acordo com Orwell, seria a capacidade de acreditar numa coisa e, ao mesmo tempo e com igual fervor, no seu oposto. Parece que andam por aí conservadores capazes de verberar a "ciência pós-moderna" e "relativismos" não menos perniciosos; até aqui, tudo bem. O pior é quando alguma dessa ciência pós-modernaça dá jeito para zurzir em inimigos de estimação como a "trupe ambientalista".
Numa sua crónica desta 6ª feira, no Independente, JPC revela o seu fulgurante domínio das exigentes técnicas do Duplipensar. Ancora toda a sua argumentação contra os "cruzados" que nos alertam para um previsível aquecimento global nas teses daquele que deve ser o cientista mais desmentido pelos seus pares em dias modernos – Bjorn Lomborg –, ignorando todas as inconvenientes evidências de que a "ciência" deste é enviezada e deformada para se conformar a agendas políticas. Staline, ao decretar que Lysenko tinha razão, não fez melhor.
Claro está que o "infame" cronista não pode deixar de concordar com Lomborg quando ele diz que o aquecimento global se resume a "Um grau centígrado desde 1900." Esta invenção é, aliás "Facto. Comprovado." Talvez "comprovado" pelo próprio Lomborg – que aliás avisa, logo no prefácio do seu livro "The Skeptical Environmentalist": "I am not myself an expert as regards environmental problems". Pois.
A verdade é que dados recentes apontam até para valores bem menores: meio grau Celsius. O problema não reside, no entanto, no valor em si, mas sim na sua constante aceleração desde 1900
De caminho, JPC descobre até uma grandeza física complementar do calor: o Frio. Assim, o aquecimento global não torna os dias mais quentes; eles ficam é "menos frios". Alguém que explique a diferença e a quantifique em termos de Joules poderá ser forte candidato a partilhar o próximo Nobel da Física com JPC.
A prosa, como de costume, é boa. Mas não há chantilly capaz de compor tal bolo.
"Os Liberais encalharam num mar de promessas sociais falhadas. Agora, num esforço de propaganda verdadeiramente desesperado, tentam desacreditar o conservadorismo mainstream equacionando-o com os ideiais do Nazismo.
Um grupo de liberais frustrados, ao que parece cheios de amargura pelo falhanço dos seus esforços para convencerem os americanos de que o seu caminho é melhor, desceram a um novo ponto mais baixo da propaganda e da desinformação que deveria encolerizar todos os americanos.
Fazem-no sob a forma de um estudo que procura ligar conservadores altamente respeitados como o antigo presidente Ronald Reagan e o apresentador de rádio Rush Limbaugh aos valores de Adolf Hitler."
Quem diz isto é um comentador conservador, de seu nome Ken Hamblin. Como se vê, a teoria da "cabala" não conhece fronteiras.
Que interessa se o estudo "Political Conservatism as Motivated Social Cognition" examinou mais de 50 anos de pensamento conservador - incluindo artigos, livros e conferências - ou que tenha envolvido 22.818 participantes de 12 países?
Que interessa se nada mais se leu do estudo para além do que saiu na imprensa (a avaliar pelas citações que o Ken usa)?
E como saberá o colunista que os autores pertencem a essa famigerada tribo dos "liberais"?
Nada disto interessa agora. Relevante é fazer, a meio do artigo, algumas comparações ad hominem para "desmontar" o estudo. Fundamental é passar o soundbyte de que "eles" se atreveram a comparar grandes vultos americanos - como o Limbaugh! - a figuras fascistas. Importante é poder acabar o artigo ameaçando que "equacionar o conservadorismo de Ronald Reagan com Hitler não vai tornar os liberais mais populares nas urnas."
Nem o D. Duarte Nuno faria melhor sabotagem da sua própria causa.
Ontem fui ao aniversário de um antigo e excelente camarada da SIC, o Ricardo Espírito Santo. Há muito tempo que não estava com jornalistas do minha antiga redacção. Estamos, quase todos, dez quilos mais velhos. Nestas ocasiões vêm-me a memória a frase assassina de um político inglês: "quando o país esperava que ele crescesse, ele engordou" (não estou a falar do Ricardo). Lembro-me quando chegamos à SIC, a estação parecia um cenário de James Bond. O antigo armazém de bananas (??) estava todo em obras, menos a sala da redacção que estava miraculosamente pronta. Era suposto fazermos, pelo menos, um mês de emissões experimentais. Não conseguimos fazer uma. A força de vontade, os muitos bons profissionais e o improviso luso, fizeram que tudo tenha corrido bem na abertura.
Durante anos acreditamos ser possível fazer uma televisão melhor em Portugal. Em pouco tempo, os repórteres de imagem da SIC, os editores de imagem e depois os jornalistas tentaram novos caminhos, novas reportagens e formas diferentes de noticiar, sem cair no "Portugal sentado". Hoje, muitos tiveram sucesso: não mudaram a vida, mas, pelo menos, mudaram de vida. Do cimo dos carros da empresa, estou convencido que os mais inteligentes vêem-se como a "geração de 70", nos "Vencidos da Vida". Como diria Fialho de Almeida: "os Vencidos da Vida", quando juntos , o que pretendem é jantar."
Claro que gente inteligente e talentosa continua a fazer boas coisas, mas ficaram muito aquém do que queriam. Como explicava Eça de Queiroz: "…Para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida, depende não da realidade aparente a que chegou, - mas do ideal íntimo a que aspirava. Se o sujeito largou pela existência for a com o ideal supremo de ser cabeleireiro, este benemérito é um vencedor, um grande vencedor, desde que consegue ter nas mãos uma gaforina e a tesoura para tosquear, embora atravesse o Chiado cabisbaixo e de botas cambadas. Por outro lado, se um sujeito, aí pelos vinte anos, quando se escolhe uma carreira, decidiu ser milionário, um poeta sublime, um general invencível, um dominador de homens (ou de mulheres, segundo as circunstâncias), e se, apesar de todos os esforços e empurrões para diante, fica a meio caminho do milhão, do poema ou do penacho - ele é para todos os efeitos um vencido, um morto da vida, embora se pavoneie por essa Baixa amortalhado numa sobrecasaca do "Poole" e conservando no chapéu o lustre da resignação."
"Nunca quis dizer que os conservadores são na generalidade estúpidos. Quis sim dizer que as pessoas estúpidas são na generalidade conservadoras."
Carta ao parlamentar conservador Sir John Pakington, Março de 1866
Mas como é sempre bom recordar, aqui fica uma breve do "Público" de hoje:
"O estudo: Psicólogos americanos dizem que conservadorismo é uma doença
Um grupo de psicólogos da Universidade do Maryland (EUA) apresentou um estudo no qual concluem que o conservadorismo é uma "doença psicológica". Os autores do estudo teorizam que o conservadorismo é explicável por uma série de "neuroses" ligadas "ao medo, à agressão, ao dogmatismo e à intolerância de ambiguidades". Na definição dos autores, "conservadorismo" abrange figuras como Hitler, Mussolini, o apresentador de rádio de direita Rush Limbaugh e o Presidente George W. Bush. O estudo foi financiado com 1,2 milhões de dólares atribuídos pelo Estado americano; alguns conservadores americanos já se queixaram que esta não é uma forma apropriada de gastar dinheiros públicos. No artigo, publicado na revista científica "Psychological Bulletin", os autores escrevem, contudo, que a sua teoria não implica que "o conservadorismo seja patológico, nem que as crenças conservadoras são necessariamente falsas"."
Li o post do Nuno sobre a alegada colaboração de Günter Wallraff com a honeckeriana Stasi. E eis que me vejo de novo atacado pelo insidioso déjà vu. Mas, desta vez, sem grande mistério. O facto é que já há pelo menos 10 anos que vou lendo notícias sobre este tema; sem que novos factos ou sequer novas interpretações lhe venham trazer relevância acrescida.
Parece que o Die Welt veio ressuscitar o caso. Só que, pelo menos pelo que leio no Libération, nada se acrescenta a outras referências já com bolor de tão velhinhas...
Que os alemães tenham contas internas para ajustar com Wallraff, tomo como possível e até provável. O que já não entendo muito bem é a razão de tantos ecos nacionais em resposta a alarido tão antigo.
Aqui fica um artigo mais ponderado sobre este affaire:
"L'un des plus célèbres journalistes allemands d'investigation, Günter Wallraff, est fiché comme « collaborateur officieux » (IM) dans les archives de la Stasi, selon le quotidien Die Welt. Le journaliste se dit, lui, victime d'un « appel au meurtre »
------------------------------------------------------------------------
Célèbre notamment pour son enquête réalisée en se glissant dans la peau d'un travailleur clandestin turc en RFA, l'auteur de « Tête de Turc » a travaillé entre mai 1968 et décembre 1971 sous le nom de code de « Wagner » et était rattaché au département X de l'ancienne police secrète est-allemande, la cellule en charge de la désinformation, selon Die Welt qui publie un fac-similé de la fiche de Günter Wallraff. Un rapport de 1976 dressant le bilan de sa collaboration juge sévèrement ses qualités d'informateur, bien en dessous « de ses possibilités ». Mais voilà, ce document n'apporte en fait rien de nouveau, selon l'Office chargé de la gestion des archives de la Stasi. Déjà en 1998, l'Office avait averti qu'on ne pouvait tirer la conclusion d'une collaboration volontaire de Wallraff avec la Stasi à partir de ces fiches. Le journaliste qui se dit lui victime d'une « campagne d'appels au meurtre » a toujours nié avoir « collaboré sciemment avec des agents de la Stasi ». Rappelant que Die Welt appartient au groupe de presse conservateur Springer, auquel Wallraff s'était attaqué dans les années 1970 - en dénonçant les pratiques journalistiques de son fer de lance, le quotidien populaire Bild Zeitung -, le journal Berliner Zeitung se demandait hier s'il ne s'agissait pas là de « vieux règlements de comptes ». Dans tous les cas, « l'affaire Wallraff pose la question de savoir à partir de quand un interlocuteur occidental de la Stasi peut être accusé d'en avoir été un informateur : lorsqu'il a été fiché en tant que tel, ou lorsqu'il a signé une déclaration d'engagement », souligne le Berliner Zeitung dans son éditorial. "
© Dernières Nouvelles d'Alsace, Mercredi 13 Août 2003
A crise económica tem liquidado empregos. Os jornais, as rádios e as televisões não são excepções. Para conseguir esta ginástica do despedimento, os patrões socorrem-se de competentíssimas empresas de auditoria que vão apontar onde cortar: papel higiénico, meios, pessoas, etc...
Consta na profissão que a empresa que fez a auditoria à SIC era particularmente divertida. Uma vez perguntaram às chefias de redacção porque é que continuavam a sair equipas de reportagem para noticiarem incêndios, uma vez que havia já imagens de arquivo de outros fogos. Os jornalistas não ligaram muito, até pelo facto de que uma das anteriores perguntas dos auditores fora inquirir porque é que os editores de imagem perdiam tempo a procurar planos e não montavam com os primeiros segundos que lhes vinham à mão.
Se a auditoria liberal dirigisse mais o jornalismo televisivo, haveria, pelo menos, uma revolução estética. Seria certamente inutil filmar a segunda guerra do golfo, sabendo que havia uns saldos de imagens da primeira guerra do golfo. E naturalmente que as guerras em África podiam ser ilustradas sempre com as mesmas imagens, uma vez que é sabido (nas empresas de auditoria) que os pretos são todos iguais.
Tanta sabedoria faz-me lembrar uma história passada com a minha tia avó. Ela estudava numa universidade dos Estados Unidos da América (EUA), nos anos 50, quando o professor passou um teste para que cada um se apercebesse das suas tendências políticas. A minha familiar respondeu a todas as perguntas e quando corrigiu o seu teste viu que era considerada de extrema esquerda. Um amigo americano receou ser perseguido e respondeu a todas as perguntas, garantindo que "não sabia". Quando corrigiu o seu teste, viu com surpresa que era, definitivamente, "liberal".
Moral da história: na comunicação social, quanto mais ignorante, mais liberal.
Já tinha lido sobre "O Grande Palíndromo" de Georges Perec. Mas só agora dei com ele.
Trata-se - preparem-se os que não conhecem a coisa - de um texto com 6.331 caracteres, se o Word não me engana, que se presta a ser lido do príncipio para o fim, ou vice-versa, mantendo exactamente o mesmo significado e morfologia, se ignorarmos os espaços em branco.
Um outro tour de force de Perec foi o romance La Disparition, um policial com cerca de 300 páginas, que não usa uma só vez a letra "e", justamente a mais comum na língua francesa! Aqui fica um pequeno excerto deste:
"...Anton Voyl n'arrivait pas à dormir. Il alluma. Son Jaz marquait minuit vingt. Il poussa un profond soupir, s'assit dans son lit, s'appuyant sur son polochon. Il prit un roman, il l'ouvrit, il lut ; mais il n'y saisit qu'un imbroglio confus, il butait à tout instant sur un mot dont il ignorait la signification. Il abandonna son roman sur son lit. Il alla à son lavabo ; il mouilla un gant qu'il passa sur son front, sur son cou. Son pouls battait trop fort. Il avait chaud..."
Agora, sim; cliquem no link abaixo e deliciem-se com a leitura deste esforço magnificamente insano. Ou será o contrário?
"Trace l'inégal palindrome. Neige. Bagatelle, dira Hercule. Le brut repentir, cet écrit né Perec. L'arc lu pèse trop, lis à vice-versa.
Perte. Cerise d'une vérité banale, le Malstrom, Alep, mort édulcoré, crêpe porté de ce désir brisé d'un iota. Livre si aboli, tes sacres ont éreinté, cor cruel, nos albatros. Etre las, autel bâti, miette vice-versa du jeu que fit, nacré, médical, le sélénite relaps, ellipsoïdal.
Ivre il bat, la turbine bat, l'isolé me ravale: le verre si obéi du Pernod -- eh, port su! -- obsédante sonate teintée d'ivresse.
Ce rêve se mit -- peste! -- à blaguer. Beh! L'art sec n'a si peu qu'algèbre s'élabore de l'or évalué. Idiome étiré, hésite, bâtard replié, l'os nu. Si, à la gêne sècrete-- verbe nul à l'instar de cinq occis--, rets amincis, drailles inégales, il, avatar espacé, caresse ce noir Belzebuth, il offensé, tire!
L'écho fit (à désert): Salut, sang, robe et été.
Fièvres.
Adam, rauque; il écrit: Abrupt ogre, eh, cercueil, l'avenir tu, effilé, génial à la rue (murmure sud eu ne tire vaseline séparée; l'épeire gelée rode: Hep, mortel ?) lia ta balafre native.
Litige. Regagner (et ne m'...).
Ressac. Il frémit, se sape, na! Eh, cavale! Timide, il nia ce sursaut.
Hasard repu, tel, le magicien à morte me lit. Un ignare le rapsode, lacs ému, mixa, mêla:
Hep, Oceano Nox, ô, béchamel azur! éjaculer! Topaze!
Le cèdre, malabar faible, Arsinoë le macule, mante ivre, glauque, pis, l'air atone (sic). Art sournois: si, médicinale, l'autre glace (Melba ?) l'un ? N'alertai ni pollen (retêter: gercé, repu, denté...) ni tobacco.
Tu, désir, brio rimé, eh, prolixe nécrophore, tu ferres l'avenir velu, ocre, cromant-né?
Rage, l'ara. Veuglaire. Sedan, tes elzévirs t'obsèdent. Romain? Exact. Et Nemrod selle ses Samson!
Et nier téocalli ?
Cave canem (car ce nu trop minois -- rembuscade d'éruptives à babil -- admonesta, fil accru, Têtebleu! qu'Ariane évitât net.
Attention, ébénier factice, ressorti du réel. Ci-git. Alpaga, gnôme, le héros se lamente, trompé, chocolat: ce laid totem, ord, nil aplati, rituel biscornu; ce sacré bédeau (quel bât ce Jésus!). Palace piégé, Torpédo drue si à fellah tôt ne peut ni le Big à ruer bezef.
L'eugéniste en rut consuma d'art son épi d'éolienne ici rot (eh... rut ?). Toi, d'idem gin, élèvera, élu, bifocal, l'ithos et notre pathos à la hauteur de sec salamalec?
élucider. Ion éclaté: Elle? Tenu. Etna but (item mal famé), degré vide, julep: macédoine d'axiomes, sac semé d'école, véniel, ah, le verbe enivré (ne sucer ni arreter, eh ça jamais!) lu n'abolira le hasard?
Nu, ottoman à écho, l'art su, oh, tara zéro, belle Deborah, ô, sacre! Pute, vertubleu, qualité si vertu à la part tarifé (décalitres ?) et nul n'a lu trop s'il séria de ce basilic Iseut.
Il a prié bonzes, Samaritain, Tora, vilains monstres (idolâtre DNA en sus) rêvés, évaporés:
Arbalète (bètes) en noce du Tell ivre-mort, émeri tu: O, trapu à elfe, il lie l'os, il lia jérémiade lucide. Petard! Rate ta reinette, bigleur cruel, non à ce lot! Si, farcis-toi dito le coeur!
Lied à monstre velu, ange ni bête, sec à pseudo délire: Tsarine (sellée, là), Cid, Arétin, abruti de Ninive, Déjanire. . .
Le Phenix, eve de sables, écarté, ne peut égarer racines radiales en mana: l'Oubli, fétiche en argile.
Foudre.
Prix: Ile de la Gorgone en roc, et, ô, Licorne écartelée,
Sirène, rumb à bannir à ma (Red n'osa) niére de mimosa:
Paysage d'Ourcq ocre sous ive d'écale;
Volcan. Roc: tarot célé du Père.
Livres.
Silène bavard, replié sur sa nullité (nu à je) belge: ipséité banale. L' (eh, ça!) hydromel à ri, psaltérion. Errée Lorelei...
Fi! Marmelade déviré d'Aladine. D'or, Noël: crèche (l'an ici taverne gelée dès bol...) à santon givré, fi!, culé de l'âne vairon.
Lapalisse élu, gnoses sans orgueil (écru, sale, sec). Saluts: angiome. T'es si crâneur!
. . .
Rue. Narcisse! Témoignas-tu ! l'ascèse, là, sur ce lieu gros, nasses ongulées...
S'il a pal, noria vénale de Lucifer, vignot nasal (obsédée, le genre vaticinal), eh, Cercle, on rode, nid à la dérive, Dèdale (M. . . !) ramifié?
Le rôle erre, noir, et la spirale mord, y hache l'élan abêti: Espiègle (béjaune) Till: un as rusé.
Il perdra. Va bene.
Lis, servile repu d'électorat, cornac, Lovelace. De visu, oser ?
Coq cru, ô, Degas, y'a pas, ô mime, de rein à sonder: à marin nabab, murène risée.
Le trace en roc, ilote cornéen.
O, grog, ale d'elixir perdu, ô, feligrane! Eh, cité, fil bu!
ô ! l'anamnèse, lai d'arsenic, arrérage tué, pénétra ce sel-base de Vexin. Eh, pèlerin à (Je: devin inédit) urbanité radicale (elle s'en ira...), stérile, dodu.
Espaces (été biné ? gnaule ?) verts.
Nomade, il rue, ocelot. Idiot-sic rafistolé: canon! Leur cruel gibet te niera, têtard raté, pédicule d'aimé rejailli.
Soleil lie, fléau, partout ire (Métro, Mer, Ville...) tu déconnes. été: bètel à brasero. Pavese versus Neandertal! O, diserts noms ni à Livarot ni à Tir! Amassez.
N'obéir.
Pali, tu es ici: lis abécédaires, lis portulan: l'un te sert-il? à ce défi rattrapa l'autre? Vise-t-il auquel but rêvé tu perças?
Oh, arobe d'ellébore, Zarathoustra! L'ohcéan à mot (Toundra? Sahel?) à ri: Lob à nul si à ma jachère, terrain récusé, nervi, née brève l'haleine véloce de mes casse-moix à (Déni, ô!) décampé.
Lu, je diverge de ma flamme titubante: une telle (étal, ce noir édicule cela mal) ascèse drue tua, ha, l'As.
Oh, taper ! Tontes ! Oh, tillac, ô, fibule à reve l'énigme (d'idiot tu) rhétoricienne.
Il, ‘dipe, Nostradamus nocturne et, si né Guelfe, zébreur à Gibelin tué (pentothal?), le faiseur d'ode protège.
Ipéca...: lapsus.
Eject à bleu qu'aède berça sec. Un roc si bleu! Tir. ital.: palindrome tôt dialectal. Oc ? Oh, cep mort et né, mal essoré, hélé. Mon gag aplati gicle. érudit rossérecit, ça freine, benoit, net.
Ta tentative en air auquel bète, turc, califat se (nom d'Ali-Baba!) sévit, pure de -- d'ac? -- submersion importune, crac, menace, vacilla, co-étreinte...
Nos masses, elles dorment ? Etc... Axé ni à mort-né des bots. Rivez! Les Etna de Serial-Guevara l'égarent. N'amorcer coulevrine.
Valser. Refuter.
Oh, porc en exil (Orphée), miroir brisé du toc cabotin et né du Perec: Regret éternel. L'opiniâtre. L'annu- lable.
Mec, Alger tua l'élan ici démission. Ru ostracisé, notarial, si peu qu'Alger, Viet-Nam (élu caméléon!), Israël, Biafra, bal à merde: celez, apôtre Luc à Jéruzalem, ah ce boxon! On à écopé, ha, le maximum
Escale d'os, pare le rang inutile. Métromane ici gamelle, tu perdras. Ah, tu as rusé! Cain! Lied imité la vache (à ne pas estimer) (flic assermenté, rengagé) régit.
Il évita, nerf à la bataille trompé.
Hé, dorée, l'égérie pelée rape, sénile, sa vérité nue du sérum: rumeur à la laine, gel, if, feutrine, val, lieu-créche, ergot, pur, Bâtir ce lieu qu'Armada serve: if étété, éborgnas-tu l'astre sédatif?
Oh, célérités ! Nef! Folie! Oh, tubez ! Le brio ne cessera, ce cap sera ta valise; l'âge: ni sel-liard (sic) ni master-(sic)-coq, ni cédrats, ni la lune brève. Tercé, sénégalais, un soleil perdra ta bétise héritée (Moi-Dieu, la vérole!)
Déroba le serbe glauque, pis, ancestral, hébreu (Galba et Septime-Sévère). Cesser, vidé et nié. Tetanos. Etna dès boustrophédon répudié. Boiser. Révèle l'avare mélo, s'il t'a béni, brutal tablier vil. Adios. Pilles, pale rétine, le sel, l'acide mercanti. Feu que Judas rêve, civette imitable, tu as alerté, sort à blason, leur croc. Et nier et n'oser. Casse-t-il, ô, baiser vil ? à toi, nu désir brisé, décédé, trope percé, roc lu. Détrompe la. Morts: l'Ame, l'élan abêti, revenu. Désire ce trépas rêvé: Ci va! S'il porte, sépulcral, ce repentir, cet écrit ne perturbe le lucre: Haridelle, ta gabegie ne mord ni la plage ni l'écart."
Li no blog "Glória Fácil" que descobriu-se que o jornalista Günter Wallraff era colaborador da STASI. Walrraff tem no seu currículo investigações geniais aos meandros da imprensa sensacionalista, às condições degradantes em que são explorados os imigrantes ("Cabeça de Turco") e as ligações entre os serviços secretos ocidentais e a extrema direita portuguesa no verão quente de 1975( "descoberta de uma conspiração"). Ao contrário de muitos jornalistas, Wallraff arriscava muito nas suas reportagens. A sua forma de trabalhar implicava, normalmente, infiltrar-se no meio que pretendia conhecer. "Mascarou-se" de trabalhador imigrante ilegal, para saber o que sucede a milhões de pessoas, nesta bela Europa. Ia morrendo na experiência, ao limpar, salvo erro, porões de barcos cheios de nafta, em condições de trabalho piores que a escravatura. Fez uma grande reportagem em Portugal,negociou armas com Spinola, para conhecer os meandros do terrorismo de direita (ELP e MDLP) que pretendia acabar com a revolução, etc... A maioria dos grandes patrões da imprensa e outros odiavam-no. Quando voltar a ler os seus trabalhos, estar-me-ei nas tintas que ele tenha sido espião. Aliás não é caso único, o seu compatriota Richard Sorge combateu na primeira guerra mundial, aderiu ao Partido Comunista Alemão, ajudou a fundar a "Escola de Frankfurt", infiltrou-se no partido NAZI e foi correspondente em Tokio da imprensa alemã. Com grandes conhecimentos políticos e muitas fontes, contribuiu decididamente para a vitória da União Soviética sobre a Alemanha Nazi. Era um grande jornalista e revolucionário e foi executado pelos japoneses. Estou à espera da ficha de inscrição no KGB (ML), a ver se melhoro...
A propósito dos sismos que têm sacudido a TSF e, por inevitável contágio, a Blogolândia, recordei conversa tida há pouco com um amigo meu, funcionário da dita rádio. Contou-me ele que um dos doutos administradores da PT, em denodada caça aos perniciosos "custos a cortar", perguntava pelos corredores da TSF se não seria possível transmitir os relatos dos jogos de futebol em diferido.
Temo o pior pela minha emissora preferida.
Aqueles que tornam impossível a revolução pacífica, tornam inevitável a revolução violenta.
John Fitzgerald Kennedy
Eu sei que a torreira deste Verão feroz não incita ao onanismo do teclado. Eu sei que a Santa da Ladeira faleceu há pouco, deixando-vos por certo abalados e carentes de referenciais.
Mas não conseguem dar ao menos 5 minutitos do vosso suado tempo à nobre tarefa de me ajudarem a compor este Muro? Onde estão vocês, co-blogueiros?
PS: Eu logo vi que isto ia ter desenlace funesto e rápido...
Apesar da imagem sugestiva, este post não é sobre pedofilia.
Mas é sobre um tema um pouco inquietante: a obra do senhor Alain Guet, que se dedica, há 9 anos, a coleccionar imagens de sinais de trânsito exóticos, com especial predilecção pelos exemplares portugueses.
Tem lá crianças, peões, obras e muito mais...
Ele oferece-nos até uma peculiar explicação para o nosso atraso crónico: nenhum dos peões ilustrados é dotado de uma cabeça redonda!
Declaro oficialmente aberta a minha Silly Season privada. Assim, livre da tentação de escrever coisas que façam sentido, limito-me a deixar aqui links para duas pequenas animações.
Esta foi feita a pensar nas últimas eleições autárquicas, com desenhos do Jorge Mateus e programação do Nuno Marques ("clique" na fenda do postigo).
Esta outra mostra-nos à saciedade que era inevitável o entusiasmo de Bush Jr. com a presente corrida eleitoral do Conan o Bárbaro; perdão, Arnold Schwarzenegger.
Esta bela fotografia foi publicada em 1926 no n.º 8 de "La Révolution Surréaliste". Mostra "o nosso colaborador Benjamin Péret a insultar um padre".
Assim veio ao mundo um venerável antepassado dos happenings e de muita Arte Conceptual; através de um documento que não era Arte em si, mas sim uma prova de que um acto artístico tinha tido lugar.
Nos dias que correm, esta ânsia de fazer Arte a partir do quotidiano e de a expor aos olhos dos transeuntes desprevenidos saiu do ambiente sisudo das galerias de vanguarda e fez-se hobby de massas.
Primeiro, foi o entretém mais estapafúrdio de que já ouvi falar: o "Phooning"; gente que se coloca em pose de corrida em locais inesperados, enquanto um comparsa os fotografa.
Mas a última loucura é mesmo o "Flash Mobbing".
Grupos de pessoas seguem instruções recebidas por email ou SMS para se concentrarem num dado local, a uma hora precisa. Aí, dedicam-se durante breves minutos a uma qualquer actividade absurda e inofensiva. Depois dispersam ordeiramente.
Ao que parece, isto começou no passado mês de Junho em Nova Iorque e já alastrou a meio mundo. A primeira Flash Mob foi formada por cerca de 100 pessoas que se juntaram na secção de tapetes da Macy’s, pedindo aos confusos empregados "tapetes do amor" para as suas "comunas suburbanas".
Estas acções podem não conter o vitríolo das provocações surrealistas; mas há algo de redentor no facto de tanta gente ter disponibilidade para encontrar sentido em actos gratuitos e mansamente poéticos.
Por cá, aguardam-se iniciativas do género. Desde que não envolvam dar caroladas no Francisco Assis...
Quando era novo, cada visita do sentimento de déjà vu deixava no meu espírito o travo extraordinário de uma revelação. Naqueles segundos de curto-circuito mental, abria-se ante mim uma janela para um universo fantástico, resumido na inevitável reacção de deslumbre: "Mas eu já tinha sonhado com isto!"
Ultimamente, tenho reparado que o dito déjà vu me causa perplexidades bem mais rasteiras: "Já me deve ter acontecido algo parecido, eu é que não consigo lembrar-me de quando e como".
Depois, dou comigo a matutar que as células cerebrais contidas nos nossos crânios não fazem mais que decrescer em número, a partir do momento em que apagamos 20 velinhas no bolo de aniversário.
Sendo assim, o meu armazém de neurónios deve estar em petição de miséria. E não há reposição de stocks à vista.
Acreditava nas capacidades premonitórias dos sonhos; hoje já nem acredito na minha própria memória. Triste viagem sem regresso, esta história de dobrar o cabo dos quarenta...
O "bravo camponês" José Bové já viu o seu regresso ao mundo dos livres saudado com um sonoro "Welcome back, José!!" pelo excelente Blog de Esquerda. O "agricultor" que planta desacatos onde quer que o deixem aterrar prometeu "voltar à luta" mal possa. Uma vez que a petição a favor da manutenção da pícara figura no xilindró não surtiu grande efeito, resta-nos embarcar numa solidária luta contra os malefícios da globalização, lado a lado com o bravo José.
Caro Ovelhinha
Nada de manifestos ou observações sagazes sobre o sempiterno mundo de mudanças em que vivemos. Apenas uma certidão de nascimento para este novo amanhã que canta (porque é disso que uma vez mais estamos a falar, meu caro) dos blogues ao qual jurara superior distância, da mesma forma que fizera aos forwards, às chainletters ou a outros tipos de colectivismo. Como de costume, só tu para me emparedares assim. Ainda bem.
PS: Espero que isto chegue a algum lado...
A 12 de Outubro de 1936, ao ouvir o grito "¡Muera la inteligencia!", do general fascista Millan Astray, Miguel de Unamuno não se furtou à coragem de uma resposta que terminou assim:
"Vencereis, pero no convencereis, porque convencer significa persuadir, Y para persuadir necesitais algo que os falta: razon y derecho en el lucha.">
Digo "coragem" pois Astray estava acompanhado de legionários armados quando interrompeu o discurso do basco Unamuno com estas palavras: "Pais Vasco y Cataluña, son dos canceres en el cuerpo de la nacion! !El fascismo, remedio de España, viene a exterminarlos, cortando en la carne viva y sana como un frio bisturi!"
Sem médicos destes, passa bem a Humanidade.
1. O calor. O ruído surdo agora constante. Estranho anoitecer, insone na luminosidade alaranjada que esconde o firmamento tão claro, a carta astral agora tão óbvia. Os relâmpagos incessantes: a mão do Deus irado ou apenas a mão calejada e vulgar do menor deus Vulcano, martelo repetindo desde sempre a sua tarefa cega, indiferente. Um derradeiro desejo: morrer em paz, longe daquele ronco. Ter tempo e silêncio; concentrar-se num implausível ritual de preparação. Ele aumenta o volume da música para esconder o ronco. E ouve o majestoso pulsar agora sentido tão próximo. Agora.
2. Inventário. O sinal sobre o lábio superior da sua actriz preferida. O riso do filho que muito atrás desejara. Um avião que se despenha, penacho de fumo quase visível da sua varanda. O cavalo de um conquistador anónimo morrendo num outro continente, antes de tudo o mais. Um reflexo casual numa janela perdida marcado a brasa na sua memória. O segundo em que o seu olhar se cruza pela primeira vez com o de Goya. Um último pôr-do-sol em Amambay. A recordação distante de momentos nos braços de uma mulher amada. As luzes histéricas de uma refinaria à beira do deserto.
A tudo ele diz adeus. O que lhe poderá sobreviver? Menos que nada.
3. Death will be unlike the night-times, when we lie awake, thinking of Death, canta do gira-discos a voz arcaica do poeta. Quantos anos gastos a recear a morte? (A sua, pois nunca existiria outra; sem ele para a ouvir, mais nenhuma árvore cairia na floresta, e o gato do Físico bem poderia ficar para sempre sem saber se vive ou não.)
Ainda ontem acordou a meio do primeiro sonho, o coração em busca de um batimento perdido, o espírito poluído por mais uma negra epifania em que sabe e sente a certeza do fim.
Enquanto jovem, julgara ter descoberto o antídoto para estes terrores nocturnos, para esta clareza definitiva; julgara ter descoberto que o suicida é o único a saber morrer. Sem medo, sem súplicas balbuciadas nem conversões tardias, aspergidas pela urina do terror abjecto.
Ignorar a instrução primordial do código genético, desejar a Morte como uma mãe severa mas sábia, um útero capaz de nos devolver ao silêncio. Correr para ela como o touro investindo contra o estoque brilhante e fatal. Que feito mais invejável?
Tarde demais até para esta ambição medíocre. A sua sentença fora escrita e confirmada. E agora sente-se quase defraudado. Onde está o pânico, ou pelo menos a perda? Nada. Apenas tédio, distância, e mais algum tempo para invejar a sabedoria dos outros: Death will be unlike a room full of spiders, all clinging together and crying.
4. Parecendo recear contaminar-se, a multidão formava um círculo em redor do acidente, evitando mesmo pisar o lago de vidro estilhaçado que se derramara sobre o asfalto.
Uma vítima do acidente, semi-ejectada do seu veículo. Imóvel sobre o capot, a metade inferior do corpo presa na selva metálica que desabrochara dentro do habitáculo. As névoas dos motores turbilhonando um último sonho de velocidade. Ninguém se aproximava.
De súbito, um deles avançou. Milhões reconheceram-no. E viram-no como se pela primeira vez: invocando miríades de feições diversas, imobilizadas em tantas poses agonizantes, celebradas em tantos altares, museus, santuários. Todas se reuniam naquele rosto.
Zoom. Ele fez qualquer coisa à cabeça da vítima, torcida num ângulo letal. A multidão, um organismo único, deu um passo em frente.
Zoom. Mais próximo. Cada vez mais próximo.
Eis tudo/apenas o que ele recorda ao despertar. E uma dúvida primeira: sonho febril ou recordações de um mesquinho reality show em reposição, vestígio arqueológico dos dias em que a vida corria alegre de satélite em satélite; catódica, primordial, inesgotável. A Parúsia, Live from Bethelehem, às 5 da manhã, entre dois segmentos perdidos de televendas. Uma segunda hesitação: estaria mais alguém a ver? Ou a importar-se com estes sinais?
5. Por esperança, desespero ou apenas falta de outra coisa melhor para fazer, ele visita um Especialista seu amigo. Talvez simplesmente para confirmar o diagnóstico, para se livrar da miragem de uma remissão impossível.
Facto esperado: a Ciência nada pode fazer contra o invasor. Fora descoberto tarde demais. Em imagens coloridas e exactas, a face do monstro cresce a cada minuto. Os gráficos precisos tudo explicam, numa caligrafia monstruosa a soletrar uma só palavra: "morte". Deseja não ter sabido tão cedo. Nem conhecer o rosto do assassino; antes ser alvejado pelas costas, sem aviso nem premonições.
6. Outro dia passa e ele decide-se a deixar o seu emprego. Nada de grandes actos dramáticos como ir até ao escritório. Nada de longos olhares ou despedidas chorosas. Não; é melhor ficar em casa. O sinal "Não incomodar" à porta, dissuadindo os amigos zelosos que não tem. Apenas uma engrenagem mais que range suavemente até parar. E já ninguém se incomoda em repará-la. Tudo se esfarela, cada vez mais ténue e débil; o seu dedo poderia furar a parede couraçada do quartel fronteiro ao seu apartamento. Se ao menos ele tivesse vontade.
7. No andar superior de um autocarro panorâmico, aberto ao nebuloso fim de tarde outonal. No banco de trás, ele admira os turistas perfilados como espectadores de uma partida de ténis: olhares ziguezagueando de um lado para o outro em uníssono com as indicações dos seus auscultadores. Também ele ouve as pequenas vozes que se elevam dos auscultadores, rezando minúcias históricas em seis idiomas distintos e simultâneos.
O autocarro pára ao lado de mais uma massa granítica, templo de glórias prestes a serem esquecidas. Por um momento de imobilidade universal, ele começa a compreender o coro das pequenas vozes de Babel. Mil rádios de todo o mundo sintonizados por fim numa só música das esferas. Sobe-lhe ao entendimento um esperanto mágico, pronto a recitar-lhe uma verdade espantosa e redentora. Uma razão para tudo aquilo.
Segundos de respiração suspensa. Mas logo a voz una se cala; é tempo de partir para a próxima atracção. Enquanto o autocarro volta a arrancar penosamente, ele ouve apenas um turista segredar à sua mulher obesa: "so much to see, so little time..."
8. Telefona-lhe alguém que diz ser a sua ex-mulher. Ele assegura que não é ele. Esse alguém já morreu. E nem sequer é uma mentira; apenas uma antecipação às burocracias do destino. A voz lacrimejante insiste: que não o quer deixar morrer sozinho. Como se houvesse outra forma. Ele desliga, sabendo de que lado ficou o medo da solidão.
9. O epitáfio perfeito: um engarrafamento. Condutores exasperados saem dos carros para não voltar. Filas de máquinas belas e inertes, motores ainda a funcionar, calando-se um a um pouco depois. Talvez a morte fosse também ou tão somente isto: a entropia, crescendo dele para fora, arrastando tudo numa voragem de cansaço, ferrugem, corrupção, silêncio. Ele está à janela.
A dor, o esforço de lhe dar um nome: dor.
10. Hoje é o dia do fim. Desde o despertar, colecciona um sem-fim de pequenos presságios, pequenos vestígios do seu destino cintilantes no âmbar de uma lucidez dolorosa.
Ele sabe que hoje é o dia do fim ao ver o sorriso deslocado da jornalista na TV. A notícia é-lhe quase indiferente, mas não este instante: os olhos dela abandonam as linhas electrónicas do teleponto para um décimo de segundo de contacto com os seus. O tempo não precisa de se suspender para que ele ouça a mensagem. Aquele é o seu oráculo; ele sabe que a sua hora chegou.
Fecha os olhos, antes sequer de ver a legenda: "Asteróide em Direcção à Terra?". Ignora as bonitas ilustrações de dinossauros que olham para o céu, de estradas luminosas por entre as núvens, de bolas de fogo capazes de engolir continentes, de tsunamis com mil metros de altura.
Levanta-se; sai da sala sem se dar ao trabalho de desligar o receptor. Deita-se na sua cama e fecha os olhos. Agora.
No ano de 2003, o Avante elogia o Estaline. Pedimos encarecidamente que suspendam a distribuição de ácidos na Soeiro Pereira Gomes. Pelo menos que compartilhem alguns com o pessoal...por acaso não têm erva?
Avante! - Edição Nº1549 - 07-08-2003
No 50.º aniversário da morte de Estaline
Nostalgia russa pelos tempos do socialismo
O 50º aniversário da morte de Estaline (05.03.1953) foi comemorado sem indiferença e com respeito na antiga URSS, mas noutros países com o habitual «grande espectáculo» que os «media» ocidentais costumam dedicar a todos os acontecimentos em que Estaline se distingue. Uma vez mais, vieram à baila os muitos milhões que teria mandado executar e, enfim, toda uma série de horrores a que a História, a verdadeira, não consente aval. O nome do escritor Alexandr Solzhenitsyn oferece constante fonte de apoio a todos os especuladores na matéria. A sua afirmação de que os «excessos» de Estaline teriam conduzido milhões de pessoas à morte, serve-lhes às mil maravilhas. Mas parece que as coisas não foram bem assim...
Apesar de uma intensa barragem de comentários duvidosos, Moscovo abriu num dos museus da cidade uma exposição dedicada à vida e obra de Josef Vissarionovitch Djiugashvili. Tirando partido da crescente nostalgia do povo russo pelos dias em que o socialismo parecia afirmar-se e Estaline lhe dava credibilidade, os organizadores da exibição abriram ao público moscovita que acorreu ao Museu da História Contemporânea Russa (antigamente, o Museu da Revolução), diversas salas onde se apresentaram fotografias, cartas, documentação diversa e objectos que pertenceram ao antigo governante soviético. Este, através da agitadíssima carreira que se conhece, esteve no poder durante mais de três décadas. A sua morte foi profundamente sentida pelo povo das repúblicas soviéticas. A sua memória não se apagou do espírito daqueles que lhe conheceram a trajectória. É por isso que tantos milhares de pessoas, apesar da campanha imperialista que aponta as fomes, as guerras, as repressões, as purgas, os «gulags», como características chave da carreira de Estaline, acorreu à exposição demonstrando firme certeza nos ideais do comunismo e lastimando o rumo que os acontecimentos tomaram, entretanto.
A acção de Estaline fez tremer os imperialistas (e ainda faz ...)
Estaline fez parte, inevitavelmente, do primeiro governo de comissários do povo saído da Revolução de Outubro, sobraçando a pasta das Nacionalidades. Nesse governo, a que Lenine presidia, entraram, também, Rykov (Interior), Milyutin (Agricultura), Schlyapnikov (Trabalho), Nogin (Comércio e Indústria), Lunacharsky (Educação), Stepanov (Finanças), Trotsky (Negócios Estrangeiros), Lomov (Justiça), Teodorovitch (Produtos Alimentares), Glebov (Correios e Telégrafos). Os assuntos militares eram dirigidos por uma comissão formada por Antonov-Ovseyenko, Krylenko e Dybenko.
O papel de Estaline durante a guerra civil provocada pelas intrigas e pelas invasões dos países imperialistas que pretendiam sufocar o Estado socialista logo à nascença, é objecto de muitas, sempre controversas considerações. O mesmo tem de dizer-se quanto à chefia exercida durante a 2.ª Guerra Mundial. Mas existem poucas dúvidas de que Estaline se elevou ao mais alto nível de dirigente militar e político numa época cruel e rude em que liderou o país dos sovietes até à vitória final e à entrada do Exército Vermelho no Reichstag. Basta que notemos as principais revelações dos marechais soviéticos, Jukov e Rokossovsky, só para citar estes dois nomes históricos.
Outro capítulo da trajectória de Estaline em que os dirigentes e os propagandistas do capitalismo mundial se mostram extremamente intransigentes e vorazes (compreende-se porquê...) é o da campanha da colectivização das terras. Mas a intransigência de Estaline era, igualmente, compreensível. Assim, a 6 de Fevereiro de 1928, dizia ele: «Os camponeses pobres e uma proporção considerável dos de nível médio, venderam e já entregaram ao Estado toda a sua produção de trigo. O governo pagou-lhes, segundo os preços acordados. Mas pode admitir-se que o nosso mesmo governo pague aos “kulaks” (grandes proprietários) duas vezes mais por iguais quantidades de trigo?». Os «kulaks», obviamente, foram liquidados como classe social. Mais tarde, em 1935, Estaline tinha, ainda, esta famosa conclusão para nos dar: «Deve compreender-se que de todas as preciosas formas de capital que existem no mundo, a mais decisiva é formada pelos homens e, entre estes, a mais preciosa são os quadros partidários».
_____
A voz da História
Para Lenine, o fim aproximava-se. Mas com relutante ordem dos médicos, escreveu, ainda, o seu testamento político cujas primeiras notas começou a ditar a 24 de Dezembro de 1922. Dias depois, a 4 de Janeiro de 1923, incluiu uma adição que ficaria para a História e que transcrevemos:
«Estaline é demasiado rude e este defeito, ainda que tolerável entre nós no tratamento de assuntos entre comunistas, torna-se inaceitável num Secretário-Geral do Partido. É por isso que sugiro que os camaradas pensem na maneira de o fazer sair desse lugar nomeando alguém que em todos os aspectos seja diferente do camarada Estaline e que, acima de tudo, seja mais tolerante, mais leal, mais educado, menos caprichoso e demonstre mais consideração pelos outros camaradas. Penso, ainda, que de um ponto de vista da salvaguarda dos interesses do nosso Partido contra eventuais divisões e partindo daquilo que já escrevi sobre as relações entre Estaline e Trotsky, isto não é um simples pormenor mas, se o fosse, tratar-se-ia, na verdade, de um pormenor que poderia assumir decisiva importância».
O 13.º Congresso do Partido Comunista, agindo segundo as recomendações de Lenine e tendo presente o documento que acima citamos, decidiu alargar para 53 o número de membros do Comité Central, apesar da oposição de Trotsky. Mas, depois de discutido o documento preparado por Lenine, o Congresso decidiu manter Estaline no lugar de Secretário-Geral do Partido devido à sua luta consequente contra o trotskismo. Os delegados temiam, não injustificadamente, que a substituição de Estaline, nas condições do momento, só desse vantagens aos que haviam entrado na estrada do divisionismo. Entretanto, o próprio Secretário-Geral garantia estar preparado para corrigir os defeitos por Lenine descritos na sua carta.
Mas os desenvolvimentos seguintes e a passagem do tempo indicam que Estaline não cumpriu a garantia prestada. Abusando do poder, promoveu o culto da sua própria personalidade acabando por cometer graves erros (mas não todos os que se lhe apontam), tanto em assuntos de política interna como noutros da área internacional. Por outro lado, note-se que a melhor homenagem que pode prestar-se ao chefe soviético, são os próprios imperialistas que a realizam ao continuarem, 50 anos após a sua morte, a massacrarem-nos com o que têm por enormidades e erros do Partido e de Estaline, mas que se revelaram vitórias de carácter histórico inegável - a construção do socialismo num só país; a electrificação de toda a URSS; a industrialização em massa; as grandes obras nacionais e o espectacular cumprimento dos Planos Quinquenais; a inolvidável e épica vitória do povo soviético, do Partido e do Exército Vermelho na 2.ª Guerra Mundial; o acesso à arma atómica para que se aquietassem os maníacos americanos.
Quando apareceu Solzhenitsyn a glorificar as «vítimas» do estalinismo, e fazendo, portanto, «esclarecer» o mundo quanto ao que se passara, tanto o escritor como a máquina da propaganda imperialista que o fez e apoiou se esqueceram de notar que essas «vítimas» tinham vestido a farda do inimigo nazi e que a ele se tinham acolhido na expectativa de que a URSS perdesse a guerra. Mas essas expectativas saíram goradas, como todos sabemos.
_____
Cronologia
21.12. 1879 – Nascimento de Josef Estaline;
Julho de 1903 – Condenado a 3 anos de exílio na Sibéria por ter apoiado uma greve;
Junho de 1906 – Casou com Ekaterina Svanize, filha de um ferroviário, que também se interessava por assuntos políticos. Ekaterina morreu em 1907, depois do nascimento de um filho, Vassily. Em 1918, Estaline casou com Nadezda Allilueva que lhe deu um filho, Yakov, em 1921, e uma filha, Svetlana, em 1925; Nadezda suicidou-se em 1932 e Yakov sucumbiria num campo de concentração nazi, em 1943; Svetlana transferiu-se para os Estados Unidos em 1966;
1907 - Organizador de campanhas de fundos a favor do Partido bolchevique; encontrou-se com Lenine, secretamente, em Berlim;
Outubro de 1917 - Revolução e tomada de todo o poder pelos sovietes;
Abril de 1922 - Secretário-Geral do Partido Comunista;
Janeiro de 1924 – Morte de Lenine;
1929-1935 - Colectivização da agricultura;
1937-1938 – Reorganização do sistema de quadros partidários através de purgas que atingiram altas personalidades da época consideradas figuras anti-Partido;
Junho de 1941 – Invasão hitleriana da URSS;
Novembro-Dezembro de 1941 - Derrota dos nazis às portas de Moscovo;
Fevereiro de 1943 - Derrota dos nazis em Estalinegrado;
Fevereiro de 1945 - Estaline discute o futuro de mundo em Yalta, com Churchill e Roosevelt;
Abril de 1945 - O Exército Vermelho entra em Berlim e derrota Hitler;
Maio de 1945 - Estaline preside à Parada da Vitória em Moscovo;
Agosto de 1949 - Explosão de um engenho nuclear soviético;
05.03.1953 - Morte de Estaline;
• Manoel de Lencastre
http://www.avante.pt
Luís,
espero encontrar-te menos esmagado (só essa ideia e a visão, do que serias tu assim, horroriza-me).
Não vou continuar por muito tempo esta polémica, porque me obrigaria a reler todos os livros aborrecidos que tive dezenas de anos para perder nas estantes. Mas deixo-te uma cereja, para mastigares.
Carl Sagan comentou, uma vez, uns tipos que garantiam que uma determinada construção tinha proveniência extra-terrestre, porque tinha gravado uma constelação de estrelas só possível de ser vistas de outra galaxia. O cientísta,ou o divulgador (como preferires), respondeu: " é verdade, da constelação X podem ser vistas estas estrelas, a imagem tem várias coincidências que apontam nesse sentido. Mas também da constelação Y, Z, W há coincidências na imagem. O que quer dizer que cada um vê o que lhe apetece".
Este arrazoado vem a propósito da misteriosa citação desdobrável do Deleuze, que ainda ninguém sabe de onde vem mas ela vai crescendo. Com um pouco de sorte, na tua resposta, vais citar o livro inteiro. Dizia eu, esta citação tanto pode dar para o teu famoso "vácuo quântico", como para ilustrar o maior filósofo quase português de todos os tempos: Spinoza.
Ai vai a citação retirada (nós os pobres jornalistas temos que comprovar as fontes ao contrário dos sortudos dos publicitários. A propósito, o dr. Nuno Crato disse no debate se o mundo fosse constituído de matemáticos os publicitários não vendiam nada. Queres comentar?) do prefácio do Deleuze ao Negri, António: "L'anomalie sauvage- Puissance et pouvoir chez Spinoza", PUF, Paris, 1982. PP 9-12):
"Les corps (et les âmes) sont des forçes. Em tant que tels, ils ne se définissent pas seulement par leurs reencontres et leurs chocs au hazard (état de crise). Ils se définissent par des rapports entre une infinité de parties qui compoosent chaque corps, et qui caractérisent déjà comme une "multitude". Il y a donc des processus de composition et décomposition des corps, suivant les rapports caractéristiques conviennent ou disconvennient. Deux ou plusieurs corps formeront un tout, c'est-à-dire un troisième corps, s'ils composent leurs rapports respectifs dans des circonstances concrètes. Et c'est le plus haut exercice de l'imagination, le point où elle inspire l'entendement, de faire que les corps (et les âmes) se reencontre suivant des rapports composables. D'où l'importance de la théorie spinozistee des notions communes...". Como vês é fácil arranjar uma teoria física qualquer parecida...mas é só Spinoza.
Este documento é algo pesado, por isso guardei-o aqui (Dêem-lhe tempo para carregar, que a coisa mexe). Trata-se de material fora do alcance do cibernauta comum mas, mesmo assim, muitas são as noites em que povoa os meus sonhos...
O gosto de ervilhas enxertadas de anémona ou coisa que o valha não me preocupa; 16 meses de serviço militar obrigatório – depois de anos de cantina do Técnico - cauterizaram-me as papilas gustativas e deixaram-me pronto para tragar quase tudo o que me depositem no prato.
Nem é de ordem sanitária a minha preocupação; os relatórios científicos que tenho lido lá me vão descansando as meninges. E, tendo em vista que só em 2.000 começou a ser obrigatória a denuncia nos rótulos – que eu nem leio - da presença de aditivos ou aromas geneticamente esquisitos, já devo ter engolido muitos pitéus confeccionados na cozinha do Dr. Frankenstein sem sequer dar por isso.
Razões éticas também não me tiram o sono ou o apetite; há séculos que andamos a dar cabo dos genomas de plantas e animais com hibridizações e medidas diversas para apurar as espécies, sem que grande mal tenha daí vindo ao mundo. E se as borboletas Monarca têm razões de queixa... bem, o problema é delas.
Por outro lado, parece-me tão lindo o sonho de alimentar as hostes esfomeadas de África com abundantes colheitas de tomates que não precisam de água ou com inesgotáveis safras de alcachofras que brilham no escuro...
O que me leva mesmo a detestar os transgénicos são histórias como a do senhor Percy Schmeiser.
Imaginem-se na pele de um pacato agricultor canadiano com extensos campos de colza. Este vegetal é por vós cultivado anualmente com sementes de um tipo específico que vos levou 55 anos a apurar. E destina-se a ser vendido a clientes que exigem produtos geneticamente puros.
Agora, imaginem o belo dia em que vos bate à porta um advogado da multinacional Monsanto. Este gigante comercial vende não só alguns dos herbicidas mais vulgares do planeta – como o Roundup – mas também variedades alteradas de cereais que lhes resistem; as vantagens de poder usar produtos químicos que atacam as ervas daninhas e poupam as culturas são óbvias.
O que queriam do senhor Schmeiser os representantes da Monsanto? Exigir-lhe o pagamento de uma "avença de tecnologia", pois haviam encontrado nos seus campos colza geneticamente modificada para resistir ao Roundup.
Como fizeram semelhante descoberta? Simples: a Monsanto mantém um programa de recompensas a quem denuncie vizinhos suspeitos de usar tais sementes à socapa; o prémio, há uns anos, era um bonito blusão de cabedal... Além disto, a Monsanto sente-se no direito de espalhar, de avião, Roundup sobre culturas alheias só para ver se as plantas resistem ou não!
Um aspecto decisivo da relação entre a Monsanto e os agricultores seus clientes é que estes estão proibidos de guardar sementes de um ano para o outro; devem adquirir sementes novas a cada sementeira. Quem não o faz pode logo contar com a visita dos investigadores contratados pela empresa americana.
As plantas modificadas estavam efectivamente na propriedade de Schmeiser, numa proporção que nem o tribunal conseguiu apurar com clareza.
Acontece que a colza made by Monsanto é conhecida por se espalhar com a maior das facilidades, tendo já sido detectada a mais de 4 quilómetros da sua origem. Seja pelas viagens aéreas do pólen, por sementes largadas de camiões, ou, como alguns espíritos maldosos sugerem, através de infestação deliberada.
Um conhecido organismo certificador de produtos biológicos - a "Farm Verified Organic" - já declarou publicamente que a poluição de milho, colza e soja alterados "está agora tão espalhada que já não é possível aos fazendeiros da América do Norte encontrarem sementes puras".
Para Schmeiser, isto representou logo a perda da sua certificação de "produtor biológico", que lhe demorara 5 anos a conquistar. Ou seja: a invasão das suas terras pelos vegetais alienígenas não lhe trouxe qualquer vantagem, bem antes pelo contrário.
"- No meu caso, nunca tive nada a ver com a Monsanto, para além de lhes comprar produtos químicos. Nunca assinei um contrato. Se eu fosse a St. Louis e contaminasse as culturas deles – destruindo-lhes o trabalho de 40 anos- acho que me poriam na cadeia e deitariam fora as chaves", declarou o agricultor canadiano.
Acontece que o caso acabou em tribunal. Este deu razão à Monsanto, condenando Schmeiser por violação de patentes, embora reduzindo o montante da indemnização pedida. O tribunal de recurso confirmou esta decisão, no meio de enormes controvérsias sobre os métodos de obtenção de provas por parte da Monsanto e alegações de intimidação às testemunhas de Schmeiser. A conta a pagar por este já ultrapassa os 200.000 dólares.
Como disse um consultor do Council of Canadians: "Estas decisões significam que o custo da contaminação por sementes geneticamente alteradas deve ser suportado pelas vítimas e que a Monsanto, a responsável pela contaminação, tem o direito legal de lucrar com isto!"
Em Setembro, o Supremo Tribunal canadiano irá ter a palavra final, sendo certo que até lá vai continuar a crescer o movimento pela alteração da lei aplicável.
Voltemos ao propalado sonho de alimentar a África faminta com vegetais transgénicos; conseguem calcular quantos anos seriam precisos para que empresas como a Monsanto reduzissem a zero a soberania económica destas nações?
Primeiro vi o cartoon que reproduzo abaixo. Não o percebi.
Agora, sim; dei com as notícias que descrevem mais um belo plano do Pentágono. A ideia era criar um mercado de Futuros onde os cidadãos comuns se armariam em investidores, apostando o seu dinheiro em actos de terrorismo, revoluções, assassinatos, etc. Tudo no Médio Oriente.
Para quê? Simplesmente para usar o suposto poder divinatório dos mercados. Os investidores, confrontados com a possibilidade de lucro reais, dariam corpo à "Mão Invisível" que escreveria então os oráculos reveladores.
"The market would work this way. Investors would buy and sell futures contracts — essentially a series of predictions about what they believe might happen in the Mideast. Holder of a futures contract that came true would collect the proceeds of investors who put money into the market but predicted wrong.
A graphic on the market's Web page showed hypothetical futures contracts in which investors could trade on the likelihood that Palestinian leader Yasser Arafat would be assassinated or Jordanian King Abdullah II would be overthrown." (AP)
É uma coisa bonita ter confiança na presciência dos Mercados. Mas isto talvez já seja levar a coisa a um extremo um pouco bizarro. Sem esquecer, como lembrou um analista financeiro, que as "informações" assim obtidas poderiam igualmente ajudar os "maus".
A verdade é que até o falcão Wolfowitz se deu conta que "parecia que eles tinham sido imaginativos demais". E a coisa acabou, sem ter chegado a enriquecer ninguém...
Se tomam isto por uma peta de primeiro de Abril retardada, leiam a notícia da Reuters que vem a seguir...
Pentagon scraps plans for online betting on wars
REUTERS
Thursday, Jul 31, 2003,Page 7
The Pentagon on Tuesday scrapped a planned online futures market that aimed to get information on Middle East events by letting investors bet on the probability of wars, terrorist attacks and assassinations.
One day after Democrats in Congress brought the Pentagon's Policy Analysis Market to light with withering criticism, a Defense Department spokesman said the program had been terminated.
"The director has determined that this is a program that under further scrutiny probably doesn't deserve continued support," spokesman Lawrence Di Rita said.
Earlier, Deputy Defense Secretary Paul Wolfowitz told senators that while the Defense Department was supposed to be imaginative, "it sounds like maybe they got too imaginative."
US senators released a letter saying the program's funding would be eliminated and Senator John Warner, a Virginia Republican who chairs the powerful Armed Services Committee, called the plan "a very significant mistake."
After meeting with Warner, Anthony Tether, director of the Pentagon's Defense Advanced Research Projects Agency that planned the futures market, said the initiative was finished.
The Policy Analysis Market, launched online at http://www.policyanalysismarket.org, aimed to let anonymous traders wager money on when and whether such events as the overthrow of the Jordanian monarchy might take place.
The market, primed to start in October, planned to focus on economic, civil and military futures of Egypt, Jordan, Iran, Iraq, Israel, Saudi Arabia, Syria and Turkey, and the impact of US involvement with these countries, according to the Web site.
The idea was seen as a means of aiding the Pentagon to predict terror trends based on the predictive abilities of the markets.
"The price discovery process, with the prospect of profit and at pain of loss, is at the core of a market's predictive power," the program's Concept Overview said.
The plan would have allowed traders to buy futures contracts priced on the certainty of a particular event occurring in the Middle East.
While the proposal came under fire from lawmakers angered that the administration should have involved itself in a scheme that "trades in death," a senior market expert noted that financial markets have considerable powers to predict the future.
"From one end, creating a futures market on terrorism makes sense because markets have major predictive powers," said Phil Flynn, vice president and senior market analyst with Alaron Trading Corp in Chicago. "But not only could it help the good guys, it could also help the bad guys. The terrorists could use the same information that these markets provided to see where we would be the most vulnerable."
The plan drew sharp criticism from congressional Democrats, including Senate Minority Leader Tom Daschle, who asked the Bush administration to reject the plan.
"We are asking the administration this morning to renounce this plan to trade in death," Daschle said.
Senate Intelligence Committee Chairman Pat Roberts said someone in the administration would have to account for the fiasco: "I think they are way off base and somebody should bear that responsibility."
Simpaticamente, o JPN fez-nos chegar cópia de um seu post onde cascava no Muro; isto a propósito de uma ferroada com que mimoseámos a forte couraça de Pacheco Pereira: "Não; esta ocupação em destaque não é a de Comentador que desanca os políticos avessos ao fisco e depois congemina artimanhas tortuosas para se evadir ao pagamento de 50% do IRS devido por crónicas e comentários avulsos..."
A resposta de JPN foi como segue: "Agora também, depois de ler "ocupação tipicamente portuguesa", virei a cara para o lado, levemente enojado, saltei o muro e fui cair no abrupto. E fiquei satisfeito com as explicações de P.P. ( personagem político que, já o confessei aqui uma vez, ao invés do abrupto, não é da minha estimação). Também sou autor, só que dramático, o que quer dizer que o que recebo ao pé do P.P. deve estar na percentagem de um para um milhão, mas o mecanismo é o mesmo. Diga-se aliás que nesse domínio a SPA cumpre, e cumpre bem. Por isso talvez o Muro Sem Vergonha neste caso deva ter alguma, por tão rapidamente ter escorregado para uma ocupação também tão tipicamente portuguesa..."
Em nossa/minha defesa cabe-me dizer o seguinte: o que Pacheco Pereira fez é efectivamente uma artimanha.
Ao contabilizar comentários políticos em programas televisivos e radiofónicos como merecedores dos abatimentos devidos aos Direitos de Autor, ele vai contra o disposto na Lei:
"ARTIGO 7º
Exclusão de protecção
1- Não constituem objecto de protecção:
a) As notícias do dia e os relatos de acontecimentos diversos com carácter de simples informações de qualquer modo divulgadas;
b) Os requerimentos, alegações, queixas e outros textos apresentados por escrito ou oralmente perante autoridades ou serviços públicos;
c) Os textos propostos e os discursos proferidos perante assembleias ou outros orgãos colegiais, políticos e administrativos, de âmbito nacional, regional ou local, ou em debates públicos sobre assuntos de interesse comum;
d) Os discursos políticos. (...)"
As explicações do Abrupto Comentador?
"Uma das que apesar de tudo penso mais sensata foi publicitar a minha declaração de rendimentos e todos os documentos conexos aos rendimentos associados aos direitos de autor, para se ver não só extenso e inequívoco traço de papel que vai desde a TSF ou a SIC até à SPA e às declarações de IRS. Por aí se verá que não há qualquer "volta ao fisco" – está lá tudo preto no branco. Pode depois haver uma diferença de interpretação sobre a categoria de determinados rendimentos, e a parte colectável que lhe é aplicada, mas num país civilizado seriam as Finanças a fazer essa chamada de atenção para que insisto, tem todos os elementos. Nunca o fizeram."
A "diferença de interpretação" vale 50% de desconto na colecta; não é coisa menor. E, pelo que lemos no código respectivo, não há grandes interpretações por onde escolher: debates públicos sobre assuntos de interesse comum estão explicitamente excluídos de tal protecção fiscal.
Que as Finanças não queiram saber, dependerá de uma posterior inspecção que pode bem nunca surgir. Que Pacheco Pereira tenha sido induzido em erro por um contabilista apressado, acredito sem problemas.
E qual é o mal, então?
O mal é este: "Não se trata de saber se tais procedimentos e atitudes são legais ou ilegais, podem até ser todos legais, todos documentados, todos registados, todos intencionalmente sérios. Só que, em política, são ilegais. Os exemplos são tão evidentes que parece quase ridículo referi-los: não se tem contas na Suíça, não se aceitam malas de dinheiro, não se aceitam empregos com salários e prebendas muito acima do comum, não se gerem ‘sacos azuis’, nem amarelos, nem vermelhos, não se engana na sisa, não se foge de pagar os impostos, e os únicos amigos íntimos que não se podem ter são vigaristas com quem se fazem negócios. " (JPP)
Que alguém capaz de escrever tão desassombrada encíclica embarque nesta manobra e a defenda publicamente, já não me parece muito desculpável.
De acordo com a sua própria sentença, o que Pacheco Pereira fez é "ilegal em política", mesmo que "documentado", "registado" ou "sério". É que o provérbio do peixe que morre pela boca não é para aplicar apenas ao Paulo Portas.
Por isso, continuo desavergonhado e feliz.
Nuno: estou esmagado. Logo quando começava a sentir alguns formigueiros de angústia por nunca mais te ter "visto" nestas nossas modestas páginas, eis que recebo o justiceiro e esmagador martelo da tua resposta. Seis páginas de cacetada... sinto-me até orgulhoso por merecer tamanho ensaio de pancadaria!
Mesmo encolhido no meu canto do ringue, à espera to misericordioso toque da sineta, ainda arrisco erguer os punhos numa débil tentativa de defesa.
Começo pelo Sokal. (Um arquivo bastante extenso sobre a polémica causada pelo artigo na Social Text pode ser encontrado na página do senhor.)
O livro não me pareceu "terrivelmente simplista". Julgo até que eles se deram a um grande trabalho no sentido de tentarem compreender os pensamentos que criticavam. Se não conseguiram, resta-nos a nós, leitores, ajuizar onde jaz a culpa....
O fundamental do "programa" de Sokal resume-se nesta avaliação da provocação original:
"I decided to try a modest (though admittedly uncontrolled) experiment: Would a leading North American journal of cultural studies -- whose editorial collective includes such luminaries as Fredric Jameson and Andrew Ross -- publish an article liberally salted with nonsense if (a) it sounded good and (b) it flattered the editors' ideological preconceptions? The answer, unfortunately, is yes."
Era apenas disto que eu falava; a vontade irreprimível de cobrir com uma camada de verniz "científico" teorias abstrusas. Mas já que aqui estamos, e como veremos mais adiante, a coisa por vezes até é menos inocente.
Ora vamos lá, também por partes:
1. Há diferenças entre metáforas, imagens e conceitos. Pois há; e então?
Se quisesse dizer "Tu és um leão" estaria a usar uma analogia ("a tendência inovadora que uma palavra exerce sobre outra, aparentada pelo sentido, pela forma ou pela função gramatical."). Quando falo dos "dentes do pente", estou a usar uma metáfora; "o fenómeno pelo qual uma palavra é empregada por semelhança real ou imaginária". Muitos teóricos preferem usar a expressão "comparação metafórica", por entenderem que toda a metáfora encerra uma comparação implícita. Ou seja há diferença, mas não tanta assim.
Quanto aos conceitos, claro que são animais pertencentes a uma outra zoologia.
Quando dizes que "toda a ciência, incluindo a física, usa metáforas e analogias no processo de explicação das coisas", estás a confundir ciência com divulgação científica. No livro de divulgação que citas, Bohm tem toda a legitimidade para usar analogias. Se ele tivesse tentado publicar numa revista de física um trabalho onde se limitasse a descrever um electrão como "uma nuvem de humidade que se condensa quando adere a um instrumento de medida", imaginas por certo o resultado...
O problema, nas Ciências Sociais, é que estas liberdades "poético-científicas" estão imbricadas com o conteúdo científico de alguns textos. E extrair significado da confusão resultante é por vezes impossível.
Mas há pior. Lacan, um dos alvos de Sokal e Bricmont, trata de nos esclarecer, num diálogo que se seguiu a uma conferência em Baltimore (EUA) em 1966:
Harry Woolf: May I ask if this fundamental arithmetic and this topology are not in themselves a myth or merely at best an analogy for an explanation of the life of the mind?
Jacques Lacan: Analogy to what? "S" designates something which can be written exactly as this S. And I have said that the "S" which designates the subject is instrument, matter, to symbolize a loss. A loss that you experience as a subject (and myself also). In other words, this gap between one thing which has marked meanings and this other thing which is my actual discourse that I try to put in the place where you are, you as not another subject but as peoplethat are able to understand me. Where is the analogon? Either this loss exists or it doesn't exist. If it exists it is only possible to designate the loss by a system of symbols. In any case, the loss does not exist before this symbolization indicates its place. It is not an analogy. It is really in some part of the realities, this sort of torus. This torus really exists and it is exactly the structure of the neurotic. It is not an analogon; it is not even an abstraction, because an abstraction is some sort of diminution of reality, and I think it is reality itself. (Lacan (1970), pp. 195-196)
Pois. O torus, um sólido com a forma do humilde donut, não é uma analogia, representa "exactamente a estrutura do neurótico". Deve ter sido por estas e por outras que Althusser comentou que "Lacan dá finalmente ao pensamento de Freud os conceitos científicos que ele requer."
Como exemplo de uma analogia a usurpar o trono dos conceitos, deve ser difícil encontrar melhor.
2. A problemática de incompreensão
Como bem apontas, a questão não poderia mesmo ser o uso de analogias por parte das Ciências Sociais.
A citação de Deleuze e Guattari voga neste contexto: "O Caos é definido menos pela sua desordem do que pela infinita velocidade com que cada forma que se abre dentro dele é dissipada. É um vazio que não é um nada, mas algo virtual, contendo todas as partículas possíveis e extraindo todas as formas possíveis que surgem e de imediato desaparecem, sem consistência, sem referência, sem repercussões. É uma velocidade infinita de nascimento e desaparição. A Filosofia pergunta como se manterão velocidades infinitas enquanto se ganha em consistência ao dar um conhecimento que é peculiar ao virtual."
Aqui, e de forma transparente, os autores apropriam-se do conceito muito na moda de Caos e distorcem-no com umas pitadas de noções oriundas do chamado "Vácuo Quântico", onde o vazio efectivamente "não é um nada" e está sujeito a flutuações quânticas que podem levar à criação temporária de pares partícula/anti-partícula. Aqui, pode ler-se como isto até já foi comprovado em laboratório, através da Força de Casimir.
Os meus problemas começam quando tento entender o que será a tal "velocidade infinita de nascimento"? E como se concatenará o Caos com esta visão arrevesada do Vácuo Quântico?
Vai desculpar-me, Nuno, mas não estou a imaginar que existam 400 páginas capazes de dar sentido a tal elucubração. Isto é o que parece: o transplante de uma noção da Física para um domínio estranho, onde tem como único efeito obscurecer o discurso, não clarificá-lo como fez Bohm no teu exemplo de analogias profícuas.
Acredito que Deleuze e Guattari nos estejam a falar da "necessidade de conseguir uma filosofia que nos dê conhecimento daquilo que existe em potência e provavelmente dos modos de o conseguir realizar". Tudo bem; não os tomo por tontos inconsequentes ou pelos proverbiais macacos sentados à frente de máquinas de escrever (já agora, o livro do Deleuze sobre a pintura de Bacon é para mim uma obra-prima, mesmo com analogias em barda...). Mas porque carga de água não o escreveram sem recorrer a colagens de conceitos científicos mal entendidos?
Isto e apenas isto é a causa da minha irritação.
3. Ciência e Religião
Começando pelo Heisenberg. Aqui, temos um belo exemplo inverso do fenómeno da foice em seara alheia. É fácil ver que a Religião não é redutível à Moral; aquela não nos ensina apenas a distinguir o bom do mau, tem como fulcro precisamente a Verdade – com mais precisão, uma infinidade de Verdades particulares a cada Revelação. A Ciência vê-se muitas vezes confrontada com polémicas virulentas oriundas de entendimentos específicos do que deve ser a Religião. Esta é apenas uma dessas ocasiões funestas.
E quem nos pode garantir que a existência de Deus não virá a ser provada pela Ciência? Se amanhã nos aparecer um adolescente alienígena a anunciar-nos que criou este universo como projecto escolar, será difícil comprovar a veracidade da declaração? Talvez não.
Claro está que é muito mais difícil provar uma negativa. Mas não creio que seja impensável a hipótese de um dia tropeçarmos no tal Grande Arquitecto; "escondido nas flutuações prenhes de potencialidade do Vácuo Quântico", poderia eu dizer se me desse a veia pós-moderna.
A Astrologia não aborda forma nenhuma do "real". É uma fantasia. Isto já foi comprovado por inúmeros estudos científicos.
Quando BSS escreve que «A ciência moderna não é a única explicação possível da realidade e não há sequer qualquer razão científica para a considerar melhor que as explicações alternativas da metafísica, da astrologia, da religião, da arte ou da poesia» mistura efectivamente alhos com bugalhos. Ele não faz como tu, Nuno, quando dizes que cada campo tem as suas regras próprias; deixa no ar a suspeita que tudo se pode mais ou menos equivaler. E aqui damos nós – os deste lado da "barricada" de que falava o Portas- o flanco aos Espadas deste mundo mais os seus anátemas sobre os "relativismos".
Não há mesmo "qualquer razão científica"? Claro que há; pode é não haver "razões metafísicas" ou "razões artísticas", o que seria outra coisa.
4. O pobre do Kurt Gödel
Foi o Debray quem escreveu que "o Gödelismo é uma doença que hoje está espalhada por todo o lado".
Need I say more?
No, but I’ll do it anyway.
Aqui, encontramos algumas dissertações curiosas sobre o tema, sobretudo a de Rudy Rucker.
O Princípio da Incompletude anda por aqui, e é coisa só para matemáticos à séria.
Se Hofstadter nos fala do dilema dos matemáticos quanto aos sistemas formais, onde é que isto equipara a Matemática à Metafísica, enquanto sistemas formais? Não me parece que os dogmas do Catolicismo – só para citar a mitologia que nos é mais próxima- tenham sequer algum vislumbre de lógica interna...
O livro de Hofstadter que o Nuno cita também nos diz que "The other metaphorical analogue to Gödel's Theorem which I find provocative suggests that ultimately, we cannot understand our own mind/brains ..." Lá voltamos nós ao reino das metáforas, também aqui para saltar para um premissa sem grande suporte científico.
Quanto a Boaventura Sousa Santos, não posso escrever grande coisa. Não li o livro em questão e já sei que o próprio chamou a atenção para o facto de ele já contar com 16 anos, estando desfasado até do pensamento corrente do seu autor.
PS: A propósito da suposta impossibilidade de reconstruir qualquer parcela da realidade sem usar palavras, gostaria apenas de chamar à colação a investigação de Oliver Sacks sobre o mundo dos doentes mentais incapazes de usar palavras; assim veremos depressa que nem isto é bem o que parece.
Caro Luís Rainha e restantes,
A minha nota sobre o debate entre Sokal, Boaventura, Crato e CIA relevava, apenas, sobre a falta de honestidade intelectual de quem o organizou. Li há muito tempo, os papeis da polémica do Sokal com os pós-modernistas da “Social Text” (não encontro a disquete com esses documentos) e saboreei com gosto o livro que me ofereceste. Estou como aquele dignatário do antigo regime que quando foi instado a responder qual dos seus dois comparsas tinha razão, respondeu salomónico: “ambos têm razão, quando dizem que o outro não tem razão”.
Para resumir, não compartilho grande parte das ideias dos chamados pós-modernistas, mas acho o texto do Sokal terrivelmente simplista. Gostava de reler várias coisas para fazer uma resposta séria, como a tua provocação merece. No entanto, a falta de tempo leva-me a responder-te em quatro pontos impressionistas. A saber:
1. Por incrível que pareça, há diferenças entre metáforas, analogias e conceitos.
Concluindo, devemos queimar o Nietzsche?
2. Há muitas disciplinas científicas, mas as linguagens e metodologias não são as mesmas. Quem cita deve saber isso.
3. Um concerto de Rock não é a mesma coisa que um jogo de futebol. Heisenberg e Feyerabend sobre a ciência, a religião e a astrologia.
4. O teorema de Gödel tem consequências? Boaventura Sousa Santos e a "Nova Aliança": como "Um discurso sobre as ciências sociais" insere-se numa discussão científica em curso.
Vamos então por partes:
1.Toda a ciência, inclusive a física, usa metáforas e analogias no processo de explicação das coisas. Por exemplo, para analisar o estado das ciências “duras”, David Bohm - que trabalhou com Einstein e Oppenheimer - faz uma analogia com a visão humana. Diz ele: "Os pormenores daquilo que vemos são registados numa pequena região no centro da retina. Se este for destruído, perde-se a visão em pormenor, mas mantém-se a visão geral, que provém da zona periférica da retina. Todavia, se for esta a zona danificada, ainda que o centro se mantenha intacto, todos os pormenores perdem significado. Por analogia, perguntamo-nos se a ciência corre risco de correr um "danifício" semelhante na sua visão. Ao dar demasiada ênfase à matemática a ciência pode perder de vista o contexto mais geral (Bohn, David e Peat, F. David: "Ciência, Ordem e Criatividade", Gradiva,Lisboa, 1989. PP 19).
Nas ciências sociais, como a sociologia, este processo de utilização de analogias é uma constante. Veja-se o caso dos funcionalistas em relação ao corpo humano. Mesmo alguns conceitos, admitidos por parte dos sociólogos (como sabes, segundo Khun, as ciências sociais estão numa fase pré-paradigmática porque as suas comunidades científicas não conseguem consensualizar num determinado paradigma), têm uma história que pode começar na alquimia, passar pela química, andar na literatura e acabar na sociologia. Registe-se com este percurso a, peculiar, história do conceito "Afinidade Electiva" usado por Weber para explicar a relação especial entre o capitalismo e o protestantismo. Este conceito tem como "padrinhos": Alberto, o Grande (século XIII), Johann Wolfgang Goethe e Max Weber (Lowy Michael: "Redenção e Utopia" , Companhia das Letras, São Paulo, 1989. PP13-19).
2 . Se a questão não está no uso de analogias, o que pode ser relevante é quando esta prática revela ignorância e incompreensão sobre os processos que se apela para explicar fenómenos próprios. Por exemplo, se para explicar o relativismo cultural alguém apelasse para a lei da relatividade de Einstein.
O problema é que o método que o Sokal usou, e o Luís Rainha resumiu, não é sério. Primeiro, pretende ridicularizar os autores tirando frases do contexto. Depois, presume-se que aquilo de que falam os autores nas suas disciplinas, rege-se pela mesma linguagem do que a física, a quimica e a matemática.
Por exemplo, cita o Rainha (presume-se que do papel em que o Sokal justificou a armadilha que fez à Social Text):
"Deleuze e Guattari falam de uma Filosofia que dá um "conhecimento que é peculiar ao virtual". "
Com muita probabilidade esta citação é retirada do livro "Capitalismo e Esquizofrenia" . A obra tem cerca de 400 páginas, mas pretende-se que vamos por esta frase concluir, sem a ler na totalidade ,que é um prefeito disparate . Como se conhecendo uma passagem de Nietzsche se analisasse toda a sua obra. Eu leio do filósofo alemão: "Desta vez eu venho como Dionísio vitorioso que vai colocar o mundo de férias…Mas eu não tenho muito tempo"- e mando queimar os livros do rapaz do Zaratustra.
No caso da citação de Deleuze e Guattari é ainda mais grave, porque a frase tem um sentido filosófico que não tem nada que ver com o "virtual" dos computadores. Eu sei que é difícil de explicar isso a alguns cientistas, mas a ideia de um mundo virtual e a própria palavra, é anterior às consolas da Play Station 2… Em francês (lingua dos ditos autores) virtual quer dizer: "Virtual.adj (…) Fil. Ou lit. Que é somente em potência, que se encontra no estado de simples possibilidade num ser real, ou (mais corrente) que tem em si todas as condições essenciais para a sua realização. V. Possível, potencial. - Subst. masc. O possível, o provável e o virtual. "Ser homem é sentirmo-nos…com uma multiplicidade de seres virtuais, e ser artista é trazer…este virtual à existência" (Thibaudet)…"(Dic. Petit Robert).
Aristóteles e Platão, mesmo antes da edição do dicionário francês e da comercialização dos primeiros GameBoy já discutiam a questão:
"Para Aristóteles, o virtual em potência, é alguma coisa que não é ainda real, que ainda não acedeu à dignidade do real, que talvez nunca a ela aceda, uma vez que só parte do virtual será realizada (em acto) enquanto as distantes terão por destino abortar…
O real, segundo Aristóteles, é mais e melhor que o virtual.
Para Platão, pelo contrário, o real não é mais que virtual degradado, sombras efémeras e inapreensíveis na parede da caverna. Só as ideias são puras, eternas imóveis”. (Finkielkraut, Alain e Soriano, Paul: "Internet - O Êxtase Inquietante", Fim de Século, Lisboa, 2002. PP 57-58).
Voltando a Deleuse e Guattari, eles falam na necessidade de conseguir uma filosofia que nos dê conhecimento daquilo que existe em potência e provavelmente dos modos de o conseguir realizar, como se vê é um programa filosófico que nem sequer é novidade.
3- Sobre a frase do Boaventura que pareceu tonta ao Luís Rainha, de que a ciência não é superior a outras formas de ler o real, como a poesia, a religião, a metafísica ou a astronomia, vou poupar o Rainha a ler as provocações do Feyeraband sobre as parecenças da astrologia e da luta contra o cancro (Feyeraband, Paul K: “Diálogos Sobre o Método”, Editorial Presença, Lisboa, 1991. PP 16- 25 ). Mas queria-lhe deixar, para pensar, apenas uma citação longa do Heisenberg (o mesmo físico que deu o nome ao princípio de incerteza) sobre ciência e religião:
"Eu presumo que para Plank a religião e a ciência são compatíveis porque, na sua opinião, se referem a domínios completamente diferentes da realidade. A Ciência trata do mundo real e objectivo. Ela coloca-nos perante uma tarefa que consiste em fazer afirmações justas no que diz respeito a esta realidade objectiva, e a compreender as correlações que ela comporta. A Religião, pelo contrário, trata do mundo dos valores. Ela questiona o que deve ser, o que nós devemos fazer, e não aquilo que é. Na ciência trata-se daquilo que é verdadeiro ou falso; na religião, trata-se daquilo que é bom ou mau" (Heisenberg, Werner: " La Partie et le Tout", Flammarion, Paris, 1990. PP 119- 120).
É obvio que nem a religião , nem a metafísica, nem a poesia, nem a filosofia servem para construir aviões. Mas não deixam por isso de abordar outras formas do "real", que não estão subordinadas à ciência. É por exemplo, impossível provar a existência ou a inexistência de Deus por qualquer método científico. Fazendo a analogia com os cisnes brancos de Popper: não é porque sempre apareceram cisnes brancos, que nós podemos dizer que o próximo não será preto. Digamos que não podemos impor a todos os discursos que se debruçam sobre o real, as regras de validação do método científico. Primeiro, porque como se poderá ver com o teorema de Gödel nem a ciência se consegue validar assim, depois porque seria misturar alhos com bugalhos: um jogo de futebol não tem os mesmos critérios de apreciação do que um concerto de Rock.
5. Boaventura defende que está em curso uma mudança de paradigma científico e associa a esta movimentação uma série de “descobertas” científicas que desde há dezenas de anos vêm minando a prática da "ciência normal". Entre estas, cita o teorema de Gödel como pondo em causa os fundamentos e certezas matemáticas. Esta afirmação foi muito contestada no debate da Aula Magna. Antes de ir a questão, se a eventual mudança de paradigma é disparatada, talvez tivesse interesse analisar sucintamente o que é o teorema de Gödel e algumas opiniões sobre as suas implicações.
Numa reputada história da matemática pode-se ler:“O que demonstrou Gödel foi que um sistema desenvolvido de uma maneira estritamente lógica, tal como os que tinham sido desenvolvidos por Russel e Whitehead para a aritmética dos números naturais, há sempre proposições indicifráveis a partir dos axionas do sistema. Quer dizer, que existem dentro do sistema certas afirmações bem definidas que não podem ser nem demonstradas, nem refutadas a partir dos axiomas. Também demonstrou Gödel em 1931 que é impossível demonstrar , utilizando utilizando os métodos a que fazia referência Hilbert, que os axiomas da aritmética não conduziriam a uma contradição”. (Boyer, Carl: “História de la Matemática”, Aliança Universidad, Madrid, 1986. PP 748).
Perante esta situação, muitos cientistas dividiram-se em relação às ilações a retirar do facto: o teorema põe em causa as certezas matemáticas ou apenas diz que há certezas que não podem ser provadas com recurso ao sistema lógico?
Dado que eu sou jornalista e por definição sou um ser ignorante, vou recorrer a três autores e mais o Boaventura: René Thom, Michael Guillen, Douglas R. Hofstadter e claro o cão do Rainha (o Zen).
O conhecido cientista René Thom acha que isso não altera muito, no que respeita à “veracidade” das matemáticas. Há pergunta sobre o significado do teorema de Gödel, Thom é peremptório: “- Para além de um certo interesse filosófico – inegável – estes resultados demonstram apenas que é inútil trabalhar em certas direcções. Tal é, perdoe-me o jogo de palavras, a sua utilidade. São como sinais de trânsito que indicam que não se deve sair da estrada.
- Em suma, não se pode (e não se deve) formalizar tudo…
- Exactamente!Mas para responder acerca dos chamados “fundamentos” da matemática: foi uma pretensão aberrante a de que a matemática pudesse fundar-se a si mesma : por que razão, aliás, deveria ser a matemática a única ciência a conseguir encontrar em si própria ou na lógica, os seus fundamentos?” (Thom, René: “Parábolas e Catástrofes”, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1985. PP 36).
Já o Professor de Harvard Michael Guillem é mais radical: “Entretanto, no mundo do matemático de hoje, verdade não é sinónimo de demonstração lógica, mas, por outro lado, confiar na validade duma demonstração lógica acaba por ser também matéria de fé. E é assim porque Gödel provou não só que qualquer sistema lógico é incapaz de demonstrar todas as asserções matemáticas realmente verdadeiras, como ainda que qualquer sistema lógico é incapaz de demonstrar a sua própria consistência lógica. Ou, por outras palavras, acreditar na lógica é um esquema mental não menos subjectivo do que, digamos, acreditar num princípio de fé, secular ou místico, porque mesmo a lógica não pode ser verificada lógica ou objectivamente." (Guillen, Michael: "Pontes para o Infinito", Gradiva, Lisboa, 1987. PP 132-133).
Finalmente, Douglas Hofstadler, autor do Prémio Pulitzer "Gödel, Escher, Bach - Laços Eternos", compara a descoberta de Gödel com a filosofia Zen (por coincidência o nome do cão do Rainha).
O autor vai citando vários Kõan da filosofia Zen, com o propósito de demonstrar que quando se "lê a natureza com os olhos da matemática" , há sempre algo que se perde e algo que se ganha. Qualquer coisa se revela e outras coisas escondem-se.
Vejamos este Kõan: "Shuzan segurou o bastão e disse: "Se chamas a isto bastão, opões-te à sua realidade. Se não lhe chamas bastão, ignoras o facto. Ora, como queres chamar-lhe?"
Comentário de Mumon: Não pode ser expresso com palavras e não pode ser expresso sem palavras. Agora diz depressa o que é.
Conclusão de Hofstadler: " Chamar aquilo bastão é opor-se à sua realidade porquê? Provavelmente, porque tal categorização dá a aparência de captar a realidade, quando, na verdade, não chega sequer a arranhar a superfície. Poderia ser comparada à afirmação de que "5 é um número primo". Há tantas outras coisas - uma infinidade de factos - que são omitidas. Por outro lado, não chamar aquilo bastão é, na verdade, ignorar esse facto particular, por mais insignificante que seja. Assim, as palavras levam a algo verdadeiro - e talvez também a algo de falso -, mas certamente não levam a toda a verdade. Dependermos das palavras para nos levarem à verdade é como dependermos de um sistema formal incompleto para nos levar à verdade(o sublinhado é meu). Um sistema formal produzirá algumas verdades, (…) mas por mais poderoso que seja, não pode levar a todas as verdades. O dilema dos matemáticos é este: em que devemos confiar senão nos sistemas formais? E o dilema dos seguidores do zen é: o que mais há para utilizar senão palavras?" (Hofstadter, Douglas R: "Gödel, Escher, Bach- Laços Eternos", Gradiva, Lisboa, 2000. PP 265).
Também prisioneiro das palavras, queria referir algumas coisas sobre o livro do Boaventura Sousa Santos (BSS) que tanto irrita alguns cientistas. A maioria das coisas que ele diz não são nem novidade, nem disparate. BSS lembra que toda a ciência é feita por humanos em sociedade e que os resultados dessa ciência condicionam em muito a vida deste planeta. Para BSS, o caminho da ciência não pode ser deixado nem nas mãos do mercado, nem abandonado aos cientistas. Numa altura que o desenvolvimento científico pode pôr em causa a vida do planeta e os humanos (energia atómica, manipulação genética, etc), é preciso caminhar para um novo senso comum que tenha conhecimentos suficientes para democratizar as decisões científicas. Finalmente, para BSS, há alterações no campo teórico das ciências duras que percorrem as ciências e põem em causa as certezas "mágicas" que tínhamos sobre a ciência. E antecipam a emergência de um novo paradigma científico que aproximará mais as ciências físicas e sociais.
Nos últimos vinte anos, estas questões têm sido repetidamente discutidas no campo científico. Gostaria de aconselhar dois livros, para se ver que não são nada disparatadas:
- Prigogine, Ilya (Prémio Nobel da Química) e Stengers, Isabelle: "A Nova Aliança", Gradiva, Lisboa,1986).
- Pomian, Krzysztof (Org): "La Querelle du Déterminisme", Gallimard, Paris,1990).
Qual é o som mais aterrorizador que um ser humano pode ouvir?
Duas pistas: não é o Herman José a cantar, nem se trata dos "estridentes gritos" das almas torturadas naquele poema de um italiano qualquer que foi traduzido pelo Bardo Vasco Graça Moura.
Este som que me arrepia sempre que com ele dou em noite escura é coisa mais prosaica. Mas nem por isso menos ominosa.
O som da melga em voo picado sobre as minhas veias indefesas.
O traiçoeiro padrão deste Pearl Harbour vampírico é sempre o mesmo: acordo por volta das três da manhã com uma vontade irreprimível de me coçar. Depois, vem logo a sinistra constatação: encontro-me coberto de inchaços que seguem as rotas da minha hemoglobina com a precisão de domingueiros no passeio dos tristes. Estou inchado como que a revelar alergia a qualquer coisa comida em sonhos.
Ligo a luz. Pego num chinelo. Ao fim de várias tentativas, lá consigo reduzir a melga a uma mancha vermelha na parede. Volto a adormecer.
Aqui, chega a segunda vaga do funesto ataque. Mais zumbidos de bicharada a querer chupar-me o sangue. Repete-se o ritual. Outra vez. E outra.
Meia-hora depois de ter caído em profundo sono REM, surge inapelavelmente o adversário mais temido: a Melga Mutante.
Este monstro não é como os outros. Revela uma astúcia só comparável à sua voracidade; voa às escuras e esconde-se apenas em recantos onde um chinelo não entra. Ela acaba sempre por ganhar; ao fim de uma vigília sem fim à vista, cedo-lhe o quarto e retiro em derrota ignominiosa para o sofá da sala.
Leibniz dizia que os homens, enquanto criaturas finitas, são incapazes de compreeender os grandes planos de Deus. Isto para explicar a forma indiferente como o Grande Arquitecto parece aceitar de bom grado as nossas misérias pessoais, achando-as toleráveis ou até mesmo necessárias.
Aposto que o Leibniz nunca teve melgas no quarto.
Antigamente, atirávamos com as desgraças que nos golpeavam para cima das costas largas de deuses e demónios.
Antigamente?
Talvez não só; hoje, continuamos a vislumbrar obras de Belzebu em todos os raios que nos chamuscam o lombo. Só que agora o demo usa barba e albernoz; pelo menos segundo um leitor do Público:
"Perante todos estes cenários de tragédia pus-me a pensar no apoio que o nosso Governo deu à guerra do Iraque. Não estaremos nós a sofrer uma retaliação por esse facto? Será esta hipótese muito improvável?"
"O terrorismo está à solta no nosso país. Muitas vezes se ouve dizer que por detrás dos incêndios estão, presumivelmente, os interesses dos madeireiros, dos construtores, dos proprietários dos aviões que os combatem, etc., mas hoje estou mais convencido de que, presumivelmente, o que destrói o país é o terrorismo mundial."
É isto que o valente leitor denuncia como sendo o "11 de Setembro português".
Vale ao nosso referencial diário uma análise um pouco menos perturbada da questão.
E vale-nos a todos o Dr. Durão Barroso.
Ouvi-o, na TSF, responder à pergunta incendiária: "porque é que foi reduzido o orçamento para a prevenção destes fogos?"
Em gaguejantes segundos, ele passou de um abrupto "não é verdade" para um inflamado "não há relação nenhuma!", finalizando com "se fosse assim tão fácil, só tínhamos de aumentar a dotação orçamental para a prevenção de incêndios e acabava-se com eles!" Pois.
O que a malta precisa é de esquadrões de F-16 prontos a repelir invasões dos marroquinos; marroquinos esses a quem agora imploramos ajuda aérea. Ao pé desta prioridade da nossa soberania, que interessa que dois kits de modificação de Hercules C-130 para combate a incêndios estejam a apodrecer algures numa base aérea e as respectivas tripulações tenham perdido, à míngua de horas de voo, a certificação necessária para operar os aviões assim transformados?
Agora, resta-nos rezar para que apanhem o Bin Laden antes que isto arda tudo.
The Disquieting Muses
Mother, mother, what illbred aunt
Or what disfigured and unsightly
Cousin did you so unwisely keep
Unasked to my christening, that she
Sent these ladies in her stead
With heads like darning-eggs to nod
And nod and nod at foot and head
And at the left side of my crib?
Mother, who made to order stories
Of Mixie Blackshort the heroic bear,
Mother, whose witches always, always
Got baked into gingerbread, I wonder
Whether you saw them, whether you said
Words to rid me of those three ladies
Nodding by night around my bed,
Mouthless, eyeless, with stitched bald head.
In the hurricane, when father's twelve
Study windows bellied in
Like bubbles about to break, you fed
My brother and me cookies and Ovaltine
And helped the two of us to choir:
'Thor is angry : boom boom boom!
Thor is angry : we don't care!'
But those ladies broke the panes.
When on tiptoe the schoolgirls danced,
Blinking flashlights like fireflies
And singing the glowworm song, I could
Not lift a foot in the twinkle-dress
But, heavy-footed, stood aside
In the shadow cast by my dismal-headed
Godmothers, and you cried and cried :
And the shadow stretched, the lights went out.
Mother, you sent me to piano lessons
And praised my arabesques and trills
Although each teacher found my touch
Oddly wooden in spite of scales
And the hours of practicing, my ear
Tone-deaf and yes, unteachable.
I learned, I learned, I learned elsewhere,
From muses unhired by you, dear mother.
I woke one day to see you, mother, Floating above me in bluest air
On a green balloon bright with a million
Flowers and bluebirds that never were
Never, never, found anywhere.
But the little planet bobbed away
Like a soap-bubble as you called : Come here!
And I faced my traveling companions.
Day now, night now, at head, side, feet,
They stand their vigil in gowns of stone,
Faces blank as the day I was born,
Their shadows long in the setting sun
That never brightens or goes down.
And this is the kingdom you bore me to,
Mother, mother. But no frown of mine
Will betray the company I keep.
Lendo este poema num programa de rádio da BBC, Plath comentou: "It borrows its title from the painting by Giorgio de Chirico--The Disquieting Muses. All through the poem I have in mind the enigmatic figures in this painting--three terrible faceless dressmaker's dummies in classical gowns, seated and standing in a weird, clear light that casts the long strong shadows characteristic of de Chirico's early work. The dummies suggest a twentieth-century version of other sinister trios of women--the Three Fates, the witches in Macbeth, de Quincey's sisters of madness."
Quem quiser ouvir o poema "Lady Lazarus" lido pela própria Plath em 1962, encontra-o aqui.
Não; esta ocupação em destaque não é a de Comentador que desanca os políticos avessos ao fisco e depois congemina artimanhas tortuosas para se evadir ao pagamento de 50% do IRS devido por crónicas e comentários avulsos...
Não. Lembrei-me foi de uma figura que laborava (há alguns anos) em pleno Alentejo; um exemplo de como uma rusticidade aparente pode esconder espíritos inventivos capazes de causar rubores de inveja a Edison.
Este homem gabava-se de ter como principal fonte de rendimento o aluguer de ovelhas. Sim. Alugava rebanhos dos simpáticos ovinos ao dia.
Não para figurantes de cinema nem como parceiros em prática sexuais menos ortodoxas.
A ideia era trocar as voltas aos fiscais do IFADAP. Os produtivos agricultores que solicitavam subsídios para a aquisição de ovelhas nem precisavam de se dar ao incómodo de comprar ou alimentar os bichos. Com um telefonema, era certo que no dia da fiscalização lá estavam os garbosos quadrúpedes a pastar em número coincidente com os subsídios entretanto "aplicados" na compra de mais um Mercedes ou BMW.
Por estas é que um amigo meu teoriza que os dinheiros da Europa desaguados em Portugal serviram mesmo para dinamizar a Indústria; só que foi a indústria automóvel alemã a grande beneficiada...
Já que ninguém se dá ao trabalho de polemizar connosco, declaro aqui aberto o CAPUM - Ciclo Autofágico de Polémicas Umbiguistas no Muro
Não assisti ao auto de fé de ontem. O meu amigo NRA não teve a fineza de me convidar, logo a mim que até já ando saudoso destes linchamentos públicos.
Confesso igualmente que não li o livro do Professor Boaventura em questão, se exceptuarmos resmas de citações emigradas para toda a imprensa no auge da polémica com António Manuel Baptista. O livro deste até li; pareceu-me desnecessariamente maldoso e escrito à pressa, mas mesmo assim bem fundamentado.
Por defeito de educação, cresci muito mais virado para a Ciência do que para as indeterminações da pós-modernidade. Tenho tentado compor este déficit, mas ainda me resta muito que aprender; até hoje, ambiciono debalde entender e aceitar frases como «A ciência moderna não é a única explicação possível da realidade e não há sequer qualquer razão científica para a considerar melhor que as explicações alternativas da metafísica, da astrologia, da religião, da arte ou da poesia»(BVS).
Isto, por mais Vattimo que leia, continua a parecer-me um disparate pomposo.
É inútil, ao que parece, atacar o Professor Boaventura. Veja-se a resposta catedrática do EPC a Manuel Baptista, afirmando que este não percebe nada sobre as distinções entre «pós-modernidade, pós-estruturalismo, desconstrucionismo, construcionismo social, neopragmatismo, multiculturalismo, pós-colonialismo e sociologia das ciências». Eu também nem suspeito dos continentes de divergência que por certo se intercalam entre estas nomenclaturas tão ribombantes. Por isso mesmo, e aqui está o busílis, não uso a sua terminologia.
A verdade é que existe nas Ciências Sociais um discurso parasítico que se alimenta da terminologia da Ciência, como um ácaro que nos rói a pele sem cuidar do que há lá por baixo. É isto que leva Baudrillard a opor o "espaço euclidiano da História" ao novo "espaço não-euclidiano do fim do século XX" em que "uma curvatura maligna invencivelmente desvia todas as trajectórias".
Lacan confunde números imaginários com números irracionais (1). Deleuze e Guattari falam de uma Filosofia que dá um "conhecimento que é peculiar ao virtual". Debray diz-nos que "nenhum sistema pode ser fechado apenas com a ajuda dos elementos petencentes ao sistema". E mais, muito mais.
Desconfio que esta pirataria intelectual não esconde, ao contrário do que pensam Sokal e Bricmont no seu Imposturas Intelectuais(2) uma desonestidade dos autores citados. Julgo mesmo que provém maioritariamente de um desejo de aplicar uma "patine" sexy a teorias que de outro modo poderiam soar enfadonhas.
Em Baudrillard, por exemplo, isto é uma evidência inegável:
"Tudo é como uma enorme máquina simulada a síncrona; uma aceleração dos nossos próprios modelos, de todos os modelos que nos rodeiam, todos misturados e hiper-operacionalizados no vazio". (Simulacros e ficção científica)
"Aqui, o prazer sexual é apenas clímax; por outras palavras, opera no mesmo comprimento de onda da violência do aparelho técnico; ambos estão homogeneizados pela tecnologia e encapsulados num objecto: o automóvel" (prefácio à edição francesa de Crash).
O primeiro pensamento é incompreensível, mesmo mergulhado no contexto original; o segundo talvez se perceba, mas poderia ter sido explanado sem recorrer ao tecno-jargão. Só que aí teria muito menos sex-appeal...
Se recorri a dois textos sobre a obra de Ballard, não foi por acaso. Este autor também incorpora na sua prosa – como se comprova num post abaixo - uma ampla panóplia de expressões retiradas do léxico científico e técnico. A grande diferença é que o faz no domínio da Arte; não tenta fazer passar por reflexão profunda o que não passa de uma colecção de palavras impressionantes e "na moda", ligadas com pouco mais que cuspo. Em Ballard, esta apropriação é fascinante pela estética; nas Ciências Sociais é mistificação pura e simples.
Boaventura Sousa Santos parece encontrar no advento triunfante da Mecânica Quântica a chegada de um novo paradigma: "Em vez da eternidade, a história; em vez do determinismo, a imprevisibilidade; em vez do mecanicismo, a interpenetração, a espontaneidade e a auto-organização; em vez da reversibilidade, a irreversibilidade e a evolução; em vez da ordem, a desordem; em vez da necessidade, a criatividade e o acidente."
Nisto, ele vislumbra uma janela aberta para vir proclamar aos passantes que a astrologia pode ser uma "explicação possível da realidade", perfeitamente comparável à Ciência.
Ao fazê-lo, encontra-se em péssima companhia, mesmo ao lado das hostes de charlatães New Age para os quais tudo é explicado pelo Princípio da Incerteza, das supostas auras Kirlian à "memória da água" que faria funcionar remédios homeopáticos sem uma só molécula de princípios activos. E está na companhia desta gente porque o que ele faz dá mostras de ser exactamente a mesma coisa: transferir à força para o mundo macroscópico fenómenos quânticos que nem sequer se entendem minimamente.
Ora digam-me lá se a citação anterior não parece um eco desta:
Finally, postmodern science provides a powerful refutation of the authoritarianism and elitism inherent in traditional science, as well as an empirical basis for a democratic approach to scientific work.
Alan D. Sokal
Retirado do infame artigo que deu origem a esta choldra toda:
"Transgressing the Boundaries: Towards a Transformative Hermeneutics of Quantum Gravity"
Disparatadamente publicado na revista Social Text em 1996
PS: Julia Kristeva acusou acusou Sokal e Bricmont de colaborarem numa campanha "fracofóbica, política e económica", recomendando-lhes tratamento psiquiátrico.
Bruno Latour, também visado no livro, mostrou um fair play recomendável a EPC, oferecendo a Sokal uma garrafa do melhor Borgonha durante um debate em Paris.
(1)Leiam este pedaço delicioso de prosa Lacaniana, que eu não tive pachorra para traduzir do Inglês: "Thus the erectile organ comes to symbolize the place of jouissance, not in itself, or even in the form of an image, but as a part lacking in the desired image: that is why it is equivalent to the [square root of] -1 of the signification produced above, of the jouissance that it restores by the coefficient if its statement to the function of lack of signifier (-1)."
(2) Este, eu li. E até o ofereci ao NRA, ainda em versão francesa...
Ontem fui enganado. Dirigi-me à Aula Magna para assistir a um debate científico sobre "A Ciência e os seus críticos", organizado por uma sociedade de matemáticos e tropecei num auto de fé, previamente combinado. Em vez de haver uma mesa para discutir o assunto, foi convidado o professor Boaventura Sousa Santos e constituído um pelotão de linchamento. Na mesa estavam: Alan Sokal, Jean Bricmont (colaborador belga do americano), o matemático Nuno Crato e um filósofo qualquer que devia lá estar porque, para além de ter as mesmas posições dos outros três, deve fazer passatempos de aritmética. Somaram-lhe um inocente útil, para dar credibilidade e moderar, e passaram à execução.
Aqueles que estão convencidos que na Ciência se discute honestamente para apurar a melhor opinião possível, saíram do debate esclarecidos: em Portugal tentam-se ajustar contas. O evento estava completamente orquestrado, as intervenções da audiência tiveram um grande sentido da oportunidade. A primeira dada ao professor Baptista para que insultasse longamente o sociólogo de Coimbra foi premonitória.
O nível do debate foi pobre e básico. Estivemos a noite toda a ouvir argumentos de autoridade, de um grupo de velhas e novas glórias do positivismo que, para o seu descanso, nos últimos dois séculos não abriram um livro de filosofia. O tom e o ritmo foi dado pela batuta do "Grande Dragão do Klan", Nuno Crato, que num momento comovente, em tempos de pedofilia, apelou para que fossem retirados da vista das nossas crianças os livros perversos, demoníacos e corruptores do professor Santos.
A organização só falhou num pequeno pormenor: o ar condicionado da sala não estava ligado, o que nos impediu de compartilhar os maravilhosos apetrechos que estavam preparados: a fatiota dos quatro amigos (um lençol branco com um capuz da mesma cor), a cruz de fogo e claro a linda fogueirinha para os livros. Faltou também, vá-se lá saber porquê, a música para alegrar as almas: "Lá vamos cantando e rindo, levados, levados sim..."
PS- Já sei que o Sokal se diz um homem da esquerda, esteve na Nicarágua a ajudar os sandinistas, etc, etc. Mas ontem participou numa espécie de "Processo de Moscovo". Infelizmente não tiveram o tempo e os meios para conseguir a confissão do acusado e a respectiva autocrítica. E por mais pergaminhos de esquerda que tenha, esta fantochada não lhe fica bem.