Tenho estado de férias. Tirei 15 dias. Sai da redacção em que "edito" mais de 80 páginas de uma revista com bons jornalistas, mas que não me satisfaz, a mim, nem a eles. Escolhi fazer uma pausa. Apetece-me mudar de vida e voltar andar em reportagem. Ando por estes dias em campanha eleitoral,
Depois do carrocel das feiras, arruadas, almoços e comícios guardo algumas horas para ultrapassar a lufa a lufa dos dias e leio o último livro de Paul Auster. "A Noite do Oráculo" começa com o protagonista a escrever num "caderno português" (que raio será?). As linhas amontoam-se a partir de uma história contida numa passagem do "Falcão de Malta", de Dashiell Hammett, em que se conta a história de um homem que um dia foge de casa, abandona a mulher e a família. Filcraft, assim se chama este homem comum, tinha vivido a sua vida normalmente até ao momento que uma viga de umas obras fica a uns centimetros de o matar. Ai tudo se torna insuportável. Sem olhar para trás nem se despedir, resolve "viver". Desaparece, vai para uma outra cidade e começa tudo de novo. Passado uns anos, é encontrado a viver uma existência absolutamente igual à que deixou.
Aparentemente segundo Auster e Hammett, tentamos mudar tudo, para que tudo fique na mesma. Mas é esta ilusão de mudança que nos faz querer acordar.
Tropecei recentemente em duas histórias, que me apetece vir um dia a escrever.
Conheci, há muito tempo, uma rapariga, era namorada de um amigo meu, que foi modelo, saía em capa de revistas. E que a certa altura resolveu tornar-se freira. Depois de viver em clausura parece que quebrou e estilhaçou-se. Saiu do convento para curar-se, porque só assim poderia voltar a envergar o hábito sem o qual não consegue aguentar os dias. Parece que está muito diferente, já não se parece com a rapariga despida numa banheira que fazia a capa de uma revista da moda dos anos oitenta. Quando pensei em escrever esta história, fui à procura das revistas e fotografias. Olhei para elas a tentar perceber o que pensava o olhar da foto.
As imagens têm esta capacidade de pararem no tempo e de nos parecerem querer revelar as ideias de quem lá está inscrito num momento suspenso do universo.
Por coincidência, descobri hoje a fotografia de alguém com quem trabalho, junto com um jovem que foi morto a tiro pela polícia. A fotografia mostra o rapaz que veio a ser morto sentado e duas raparigas, em pé atrás dele. Devem ter quase 17 anos. As mãos das miudas estão reposadas nos ombros do rapaz de uma forma cumplíce. Ele olha em frente com a segurança de quem a vida é para ser respirada às golfadas. A minha conhecida é normalmente uma pessoa reservada e timida. A expressão que tem na foto parece muito diferente.
Um dos livros mais geniais de Jorge Luis Borges (Ficciones) tem uma história que dá pelo nome de "O Jardim dos Pinheiros que se Bifurcam". Aqui existem vários tempos sobrepostos que abarcam todas as possibilidades. "Não existimos na maioria desses tempos; em alguns existe você e não eu; em outros, eu, e você não; em outros, os dois. Neste que a sorte me permite, você chegou a minha casa; em outro, você está atravessar o meu jardim e encontra-me morto" (a tradução é minha e demasiado simplista).