fevereiro 14, 2005

Formatação e transparência

Um antigo Presidente dos Estados Unidos da América Woodrow Wilson observou certa vez, a respeito das campanhas eleitorais, "Seremos sempre obrigados a escolher o nosso primeiro magistrado entre atletas sábios e prudentes- uma categoria bastante limitada". É certo que Woodrow Wilson analisava as campanhas norte americanas que duram mais de três meses, entre primárias e eleições. Mas é verdade que a maratona de mercados, jantares, almoços, arruadas e comícios é cansativa e estranhamente inútil. Na maior parte dos casos, as coisas só têm importância quando aparecem na televisão e restantes medias. A nossa acção política limita-se à tentativa de arranjar um cenário, que se tenta que seja diariamente diferenciado, para a cobertura mediática que vai passar a imagem que prova que os candidatos estão a fazer campanha e existem.
O exemplo histórico mais esclarecedor foi o nascimento do mítico "Paulinho das Feiras": há duas eleições legislativas Paulo Portas estava a realizar um comício no início da campanha eleitoral. Na altura, começou a chover abundantemente, militantes, simpatizantes e mirones conseguiram abrigar-se todos em metade do minúsculo palco que encabeçava o evento. A imagem fez a delícia dos comentadores. Nas acções seguintes, Paulo Portas optou pelas feiras e mercados - estão sempre cheios e são um excelente cenário para a sua verve inteligente e simplista.
Um dia conseguiremos perceber que são os media que formatam as campanhas; e estas que formatam o discurso político; e não o contrário. Há que reinventar, ou mesmo inventar, um modelo de acção político que subverta as mediações mediáticas (desculpem a repetição), cada vez mais ditadas pela lógica da simplicidade e do espectáculo. Se não o conseguirmos fazer não haverá expressão política radical e livre que consiga sobreviver.

Publicado por NRA em fevereiro 14, 2005 11:54 PM
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