janeiro 23, 2005

Uma questão de qualidade

Há um debate muito na moda que me põe a bocejar: é o da "qualidade dos políticos". Vários cronistas insistem que a nossa classe política é má, que devia-se reduzir os deputados a poucas dezenas e pagar-lhes bem, e sobretudo que se devia identificar mais o eleitor com o eleito, através de circulos uninominais.
Para além de achar que cada povo tem os políticos, os gestores e comentadores que merece, não consigo perceber aquela necessidade freudiana de elegermos o nosso deputado. Já elegemos os nossos presidentes da câmara e dá no que dá. Esta ideia que a Assembleia da República é um conjunto de deputados na qual representam os seus eleitores da sua freguesia é falsa e mentirosa. Aquilo que se discute no parlamento são leis nacionais, aquilo que é importante nas eleições são os programas e ideologias dos vários partidos. A ideia de que adoptar um deputado seria a panaceia para a democracia é enganadora. A democracia não é refém dos partidos, ela é feita da existência de vários partidos políticos e da liberdade de se não gostamos dos existentes de fazer um outro qualquer.
Escondida nesta maravilhosa discussão está uma intenção muito menos cristalina. O de criar artificialmente maiorias através da liquidação da proporcionalidade. Se dividirmos o país em circulos uninominais só vamos ter deputados do PS e PSD. O centrão dos interesses não terá ninguém para o fiscalizar. Acontecerá como no Reino Unido quando os ecologistas tiveram 14% e não elegeram um único deputado. Isto sim, é uma violação às regras da democracia: ter milhões pessoas a votar sem conseguir eleger alguém.
Eu pessoalmente, não estou interessado em conhecer o meu deputado, muito menos que ele venha cá a casa - embora compreenda esta necessidade do António Barreto e da Filomena Mónica apimentarem a vida -, o que eu quero é que o parlamento expresse a vontade dos portugueses, seja ela qual fôr.

Publicado por NRA em janeiro 23, 2005 11:45 PM
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