Gosto muito de viajar. Gosto da sensação de poder estar num sítio 40 dias a tentar imergir, sabendo que posso voltar a fugir, e que, ao contrário de Portugal, não sou obrigado a lá viver. Estranhamente, não gosto de turismo, prefiro deslocar-me para fazer algo, ou deambular à procura de qualquer coisa. Infelizmente, já não sou jornalista da SIC e, também, a concepção de notícia da maior parte das televisões alterou-se muito: a maior viagem/reportagem que um jornalista pode ambicionar nas redacções é ir à beira da piscina do José Castelo Branco ou a um paquete dos "famosos".
Por isso, resta-me ler enquanto imagino uma próxima saída.
Fica aqui uma passagem de um livro de viagens de Roger Vailland, o livro chama-se "Borubudur" e é uma espécie de apontamentos de viagem do escritor à Ásia e à Indonésia, durante os anos 50 (?).
"Neste mesmo dia de Natal, às 10 horas da noite, o nosso avião pousa em Carachi, capital do Paquistão; é já a India, onde dispomos de três horas para jantar e para o avião se reabastecer.
Os passageiros desatam o cinto e levantam-se para sair do avião:
-Não, não - exclama a hospedeira, que tem a experiência da carreira. -Por favor, por favor fiquem sentados...
Passa um instante.
A porta da cabina entreabre-se. Duas mãos enluvadas de branco segurando uma espécie de grande irrigador passam pela abertura. O irrigador lança na cabina uma nuvem que tem o cheiro daqueles desinfectantes que se vaporizam para matar moscas, mosquitos, traças, percevejos, etc...
O irrigador afasta-se, fecha-se a porta, os passageiros levantam-se outra vez:
Não, não - grita a hospedeira do ar. - Fiquem sentados...
É que são precisos dez minutos, segundo o regulamento do serviço de saúde paquistanês, para que a primeira vaga de desinfectante tenha tempo para matar os mais virulentos miasmas que somos portadores.
Dez minutos passam.
Sobe a bordo um enfermeiro paquistanês, transportando o mesmo irrigador precedente. Aproxima-se de cada passageiro, um por um, envolve-o numa nuvem individual de desinfectante, irriga-o sob a camisa, nos cabelos, na dobra das calças. Depois de terem sido chamados piolhosos durante dezenas de anos por velhas inglesas que não se lavavam numa bacia paquistanesa sem a terem purificado queimando-lhe álcool, os paquistaneses, agora independentes, vingam-se a pulverizar de Flyt os brancos que fazem escala nos seus aeroportos. Os meus companheiros de viagem habituados às atenções dos rapazes da colónia, formulam desejos, em voz baixa, para que o Paquistão inteiro seja votado à destruição atómica.
Só os passageiros provenientes do Ocidente são submetidos a esta desinfecção.Os aviões vindos do Extremo Oriente não são sujeitos a tais medidas preventivas. O Paquistão só teme os miasmas ocidentais".
Manda mais, que a política é mais que os nossos políticos.
Afixado por: jpc em julho 3, 2004 12:37 PMtudo por conta de uma ilusão, a religiao, naum tem jeito muitas coisas dos muitos orientais que sao feitas é por conta da bendita
abraço