O relatório da comissão de inquérito norte-americana aos atentados de 11 de Setembro tem vários detalhes assombrosos do ponto de vista político, mas não é nessa discussão que quero entrar. A guerra tem milhares de anos e práticas, numerosos teóricos e celebrados praticantes, e a violência mais ainda. Talvez não haja, portanto, surpresa nesta cena de uma macabra peça. Algures numa base da Al-Qaeda, no Afeganistão, «os recrutas eram livres de pensar criativamente em formas de cometer assassínios em massa». Excluamos agora a ideológica escolha das palavras, para nos concentrarmos nesta tenebrosa imagem de um brainstorming de morte, com os “alunos” a disputarem entre si a criatividade de um mal maior feito de mortes inocentes. Ser capaz de reduzir o outro a este nada é a vitória do terror. Ora a cultura árabe (a quem se atribui a invenção do zero, por junto com a Mesopotâmia...) não tem, longe disso, este exclusivo – não esqueçamos Hiroshima. A fractura civilizacional está, pois, na recusa da violência, no reconhecimento do outro como igual, na interrupção desta aritmética de morte. Há que começar algures em nós.
Publicado por João Paulo Cotrim em junho 19, 2004 10:55 PM