maio 31, 2004

Descrição terceira

A simplicidade é uma espátula. Um cabo de madeira que se faz à mão, que absorve e multiplica a força. Uma quase lâmina de metal por afiar, mas que ainda assim pode rasgar além de aplicar. A espátula tem tamanhos diferentes conservando em cada um a sua eficácia. Entre o larguíssimo e o estreito, há uma gama de diversidade fascinante. A mais pequena perde em flexibilidade o que ganha em força e direcção, como se soubesse o que fazer. A larga e grande torna-se elástica e verga quase até à dobra em passo de bailado. A estrutura mantém-se: cabo talvez pinho e triângulo talvez ferro. A harmonia quase sempre, o redondo parecendo espalmar-se, abrir-se ao contacto e ao movimento. Aceita bem o gesto vertical, seja subindo com brusquidão ou em descidas macias sem vinco. Ao baixo, dança espalhando líquidos, quem sabe se unindo, se marcando superfícies. Dito assim, a ferramenta aparece-nos esculpida, um bloco só, quando sabemos que combina dois materiais, duas formas, duas intenções, duas maneiras de perceber as leis da vida.

Publicado por João Paulo Cotrim em maio 31, 2004 06:21 PM
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