A simplicidade é uma espátula. Um cabo de madeira que se faz à mão, que absorve e multiplica a força. Uma quase lâmina de metal por afiar, mas que ainda assim pode rasgar além de aplicar. A espátula tem tamanhos diferentes conservando em cada um a sua eficácia. Entre o larguíssimo e o estreito, há uma gama de diversidade fascinante. A mais pequena perde em flexibilidade o que ganha em força e direcção, como se soubesse o que fazer. A larga e grande torna-se elástica e verga quase até à dobra em passo de bailado. A estrutura mantém-se: cabo talvez pinho e triângulo talvez ferro. A harmonia quase sempre, o redondo parecendo espalmar-se, abrir-se ao contacto e ao movimento. Aceita bem o gesto vertical, seja subindo com brusquidão ou em descidas macias sem vinco. Ao baixo, dança espalhando líquidos, quem sabe se unindo, se marcando superfícies. Dito assim, a ferramenta aparece-nos esculpida, um bloco só, quando sabemos que combina dois materiais, duas formas, duas intenções, duas maneiras de perceber as leis da vida.