maio 31, 2004

A frescura do dói-dói

Na histeria redonda em que vivemos, feita de sapatilhas tecnológicas e esforço nacional, sopra por aí um discurso de barba rija. O treinador de todos nós usa bigode, traço que não se usa já em política. O treinador de alguns de nós, às vezes usava barba por fazer. Este, em torno do qual circulava um boato homossexual, convocou as irmãs de quem as tivesse para provar a sua masculinidade, que vai muito, ao que parece, para além da cara de pau. Ora o outro, que terá por um mês muita antena e pouco tempo, anda agora dizer que na equipa que é um país, não há frescura: é ele que põe e dispõe. Também acabou com os jogadores dói-dói, quer ele dizer os mariquinhas que não lutam. E assim se faz uma identidade. Fresco é o que hesita demasiado, que tem superstição e gosto, dói-dói é aquele que não luta, que não se esforça, que não come a relva. Enerva-me que os estereótipos funcionem demasiadas vezes. Irrita-me que os meus amigos confirmem que deixam a roupa suja no chão, mijem na tampa da sanita ou deixem apodrecer restos no frigorífico. A verdade é que, por muito que me custe, não encontrei ninguém com mais força anímica, mais resistente à dor do que as mulheres. Não são elas em abstracto, mas as que se cruzaram na minha vida. Soltam uma lágrima, manifestam afectos, mas aguentam mais do que me faria desmaiar. De igual modo, muitos daqueles que vivem outras sexualidades são lutadores extraordinários. Vivem o seu desejo contra o que quer que seja. Está visto que o bigode tem medo do fio dental. A força bruta do toureiro macho serve para quê, digam-me lá? A glorificação da brutalidade acaba, em dias de politicamente correcto, naquelas macacadas à americana em que ninguém se aleija, mas todos representam músculos e agressões. Eis a frescura: muita garganta sem coreografia alguma. A mim não me dói ver o bailado sobre a bola e um jogador beijar o outro no momento do golo. Ternamente.

Publicado por João Paulo Cotrim em maio 31, 2004 04:12 PM
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