Durante a guerra entre o Iraque e o Irão, quando Saddam Hussein era o “combatente da liberdade” de serviço das administrações dos Estados Unidos da América (EUA), um fotógrafo captou uma imagem muito forte. Num campo de prisioneiros de guerra iraquianos viam-se milhares de homens a rezar. Estranhamente, três deles mantinham-se sentados como se nada os pudesse obrigar. A legenda da foto esclarecia que as orações eram obrigatórias e toda a desobediência castigada. Sobre os três homens que tinham preferido, contra tudo e contra todos, não dobrar a cerviz, nada dizia. O que lhes aconteceu?
Durante muitos meses activistas da ATTAC (rede internacional que luta contra o neoliberalismo e a guerra) reuniram-se, em Lisboa, na livraria "Ler Devagar", sob o tema "Imaginação contra a guerra". Mais de 200 pessoas diferentes uniram os seus esforços, semana após semana, para que parassem os massacres, a irracionalidade gritante e a morte como política "normal" para o nosso tempo.
Quando se entrava na reunião, pelo meio das estantes e dos livros, quase tocávamos numa obra premonitória: “INFERNO” do fotógrafo James Nachtwey, da Magnum.
É a mais espantosa colecção de horrores humanos que é possível ver. O fotógrafo esteve em vários campos de batalha e em muitos continentes.
Dele só conhecia a foto da mulher de burka, quase de rastos, num cemitério sem fim, tocando na laje de um morto. A roupa, a terra, as pedras funerárias counfundiam-se numa trama de sofrimento.
Ele próprio disse de si, que começou por ser “um fotógrafo de guerra, para passar a ser um reporter anti-guerra”. Ao ver os corpos esfacelados, as batalhas sangrentas, as pessoas torturadas, os campos de concentração, as crianças empilhadas vem-nos à cabeça uma interrogação ética. Como é possível ter coragem e distanciamento para fotografar estes mortos vivos?
Nachtwey confessa que é uma testemunha, não tem lado, nem partido. Em qualquer guerra, o seu lugar é o de todos os que sofrem e se conseguir com as suas imagens tornar insuportável um dia na vida dos que vêem as suas obras, no descanso dos seus lares, conseguiu ganhar o dia.
Para além de todo o sofrimento, o mais impressionante é a qualidade mágica e, quase, única das suas fotos. Como é possível estar sobre o fogo das balas ou assistir ao sofrimento das gentes e conseguir a perspectiva, os contrastes e as expressões que capturam um momento do tempo. Aqueles que já estiveram em zonas de combates sabem que a adrenalina e a dor, como se de uma paixão se tratásse, fazem-nos sentir intensamente vivos, quase imortais, sempre à beira do abismo e bêbados de algo. O difícil é saber “pousar um olhar frio”, utilizando uma expressão de Sade, e controlar a vertigem desta estranha paixão.
As fotos são horrivelmente belas como a morte: vários corpos esfacelados numa savana e ao longe alguém a caminhar provando que a vida continua. Um atirador em contraluz faz pontaria para mais um alvo, na ponta da arma advinha-se alguém. Uma mulher de idade ultrapassa uma esquina, a seu lado revela-se na brancura imaculada da neve um homem velho assassinado. Os refugiados colados às janelas da camioneta onde viajam. Pelo vidro passam as expressões de sofrimento e reflectem-se os estilhaços da guerra. Uma mulher atravessa uma avenida deserta e fumegante, os seus olhos expressam um grito silencioso (como a figura do “Grito” pintada por Edvard Munch). Num enterro, os homens transportam um caixão, nas suas faces nota-se o sofrimento e o ódio de quem vive em paredes meias com a guerra e não esquece quem matou.
Há dias que as imagens da tortura perturbam a nossa calma pequeno burguesa. Mas já durante o periodo de guerra "oficial" as imagens já nos tinham avisado. Eu recordo a de Ali Ismail Abbas, a quem o exército dos EUA matou a mãe, que estava grávida, o pai, o irmão, a tia e três primos. Ali está muito queimado e não tem braços. Na imagem, os olhos da criança de 12 anos miram-nos de frente, ultrapassam as barreiras do tempo e da foto de Jerome Delay, interrogam-nos e queimam-nos como as suas palavras quando diz: "nem uma montanha poderia suportar a dor que sinto", e, para todos os cúmplices desta guerra, acrescenta "é assim que tencionam libertar-nos? Matando-nos?".
Nas ruas, os iraquianos saem aos milhares. Nas suas bocas está o grito de "nem Bush, nem Saddam". O presidente norte-americano diz-se feliz. "Os iraquianos manifestam-se porque há liberdade". É preciso dizer-lhe que liberdade significa decidir e que democracia é o poder do povo. Se não o querem, que se vá embora.
Para os "Miguel de Vasconcelos" cá do burgo, que confundem o 25 de Abril com uma invasão estrangeira, talvez seja difícil perceber que os iraquianos não amam, como eles, esses "libertadores", nem sequer o fantoche (perseguido por fraudes bancárias), agora caído em desgraça, que planearam para dirigente de um Iraque "democrático". Mas de facto, há imagens que valem mais do que mil palavras.
Provavelmente se Cristo tivesse nascido neste século, daqui a 100 anos muita gente levaria, ao pescoço, mísseis em vez de crucifixos. E é também isso que o "Inferno" nos mostra.
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Afixado por: business form em outubro 7, 2004 01:51 AM