maio 22, 2004

descrição segunda

O lugar é uma parede. Nem pele, tecido ou superfície polida: rachas, porosidade, tempo e matéria. Podia ser uma parede qualquer. É injusto que seja um museu, devia apresentar-se vestido com a dignidade singela dos muros que sustentam casas, que, permitindo ou não janelas, se fecham para proteger das agruras, que se abrem em ecrãs para as mais intestinas imagens ou palavras. Naquele fragmento de parede, um cão olha o alto, tendo por fundo sensual de distintas pinceladas uma singela floresta de amarelos, verdes, brancos e tudo sujo. O focinho do cão, cortado pela orelha caída, olha sobre uma barreira de castanho mais uniforme que os outros, luminosos. Há um verde seco no topo direito da faixa ao alto. O castanho em baixo sugere subida. A cabeça do animal é um detalhe que se impõe. Para que serve uma pintura que nos oferece uma pequena cabeça canina sobre um mar plástico de cor? A pintura não serve para nada. O gesto de Goya dá-nos um olhar, que não é qualquer, nem o de homem para deus, ou o do escravo agradecido, menos o do afecto em busca de objecto, o da esmola que deseja a mão, ou o da súplica aspirando à misericórdia. Não há mística irreal, prazer bruto, talento pirotécnico. Há solidão, detalhe, humildade, indiferença, vida. Aquele olhar, para a direita, em direcção ao alto, é o de um cego visionário.

Publicado por João Paulo Cotrim em maio 22, 2004 06:15 PM
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