maio 20, 2004

Descrição primeira

A gorda avança para mim, de peito aberto. Se dissesse generoso isso queria dizer oferecido, mas não é assim. A cena desfoca-se na origem, na tela, mas aceito que sejam os meus olhos. Não são os seios dela que me impressionam, e deus sabe o quanto os seios me impressionam. E eu sei que deus se importa com os seios, pois estive no Museu do Prado, lugar onde descobri ser filho de mãe generosa. São os olhos dela que pressionam os meus, em um só sentido, por detrás da nuvem, sobre os seios, para além deles. Não juro que a legenda diga prostituta, mas podia ser. A gordura é lasciva e excessiva. A tela ganha uma carne feita de humanidade para além do humano. Fico perante o quadro, aspirando aos bastidores de madeira branca e simples, enquadrada mas não presa. O cinza sem foco de Richter (ao Museu do Chiado) transborda da parede, do limite de aproximação, da vigilante gorda, e toca-me para me dizer: olha-me nos olhos, apesar dos seios. Seios de olhos que avançam, pois é esse é o movimento da tela, para além da gordura e da legenda. Ela que avança, sinuosa sem sorrir, gioconda de formas bailarinas, levantando-se, aleitando. Ela levanta-se depois de cair? Caiu para se dar no altar do ver, de leite derrubado? Levanta-se pedindo desculpa em tons de leito? Não sei, mas sei. E sei que sabes. Fujo?

Publicado por João Paulo Cotrim em maio 20, 2004 04:54 PM
Comentários

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Afixado por: government grants em outubro 5, 2004 10:45 PM