maio 11, 2004

A temperatura em que arde a liberdade

O primeiro filme de Michael Moore, "Mr Roger and me", é o relato das tentativas do autor para entrevistar o presidente da General Motors para lhe perguntar porque tinha fechado a fábrica em Flint, terra de Moore. Essa viagem aparentemente falhada, vai revelando os meandros da economia de mercado e os efeitos destrutivos numa pequena cidade americana que tinha sido construída e vivia à sombra dessa fábrica. O percurso vale para Moore - o pai era operário nessa fábrica - mas também simboliza toda a política económica dos EUA. Esta empresa que transforma Flint numa cidade fantasma não é uma empresa qualquer, foi sobre ela que um presidente dos EUA cunhou a célebre frase: "o que é bom para a General Motors é bom para os EUA!".
Este primeiro filme de Moore é um retumbante êxito, foi vendido à Waner Bros, em 1989, por 3 milhões de dolares - dos quais Moore doou 25 000 dolares aos sem-abrigo - e rendeu 25 milhões de dolares.
Talvez por isso, Michael Moore, vencedor do Óscar do melhor documentário com "Bowling for Columbine", estava mal habituado. Ele dizia, parafraseando uma célebre frase de Lénine, "enquanto eles poderem fazer dinheiro comigo, não ligam à mensagem. É este defeito do capitalismo: eles venderiam por um dolar a corda que os vai enforcar".
Parece que o capitalismo também aprende, e as comédias de Moore arriscam-se a viver em tragédia. O seu último filme "Fahrenheit 911 - a temperatura que arde a liberdade" vai ter muitas dificuldades em poder ser visto nos EUA. O documentário que mostra as ligações "perigosas" da família Bush à família real saúdita e aos parentes de Ossama bin Laden está a ser alvos de um fogo cerrado da Admnistração dos EUA e dos seus amigos nas empresas. A Disney (grande contribuinte para a campanha de George W Bush) que comprou a produtora que distribui o filme de Moore (Miramax) afirma repetidamente que não vai distribuir o documentário. Tentando que o mesmo fique na gaveta, para só ser passado em alguns festivais europeus. Tudo isto, apesar de "Bowling for Columbine" ter sido um sucesso visto por 30 milhoes de norte-americanos. Como diz o Espada, o espadinha e os seus apóstolos: não há liberdade sem economia de mercado!

Publicado por NRA em maio 11, 2004 12:08 PM
Comentários

eu não gosto muito do columbine e não vi o roger and me. mas o filme que ele fez entre os dois, the big one, achei simplesmente fantástico – como política e como humor.

Afixado por: rui tavares em maio 20, 2004 07:56 PM