Em 22 de Maio de 2002, o filósofo Zizek publicou na "The London Rewiew of Books" um texto premonitório sobre as implicações nos direitos humanos da guerra permanente e preventiva ao "terrorismo". O autor revelava as pressões crescentes para legitimar publicamente a tortura. Todos sabemos que há muito que os Estados Unidos da América utilizam, promovem e divulgam esse método milenar. Um dos exemplos mais conhecidos eram os cursos promovidos, pelas diferentes administrações dos EUA e pelos seus serviços secretos, na chamada "Escola das Américas",onde os esbirros, de torcionários de várias ditaduras da américa latina, podiam aprender ao vivo: os segredos do electrochoques e outras minudências da arte. A situação não era segredo para ninguém, foi várias vezes denunciada. Na memória destes protestos ficou a conhecida cena do filme "Estado de Sítio", de Costa Gravas, em que se visualizam as dificuldades destas originais aulas. A novidade dos dias de hoje é muito diferente. Actualmente, há pensadores e intelectuais que teorizam sobre o regresso autorizado à tortura e pretendem dar legitimidade "democrática" a essas práticas.
Cite-se, à laia de exemplo, um conhecido artigo de Jonathan Alter, na revista "Newsweek", em que o autor começa por nos avisar que "o mundo mudou: para sobreviver, pode ser necessário recorrer a técnicas antigas que pareciam fora de questão"; verifica, com algum enlevo, que "há alguns tipos de tortura que claramente funcionam"; e acaba por concluir que apesar da tortura negar "os valores norte-americanos" é preciso recusar as hipocrisias fáceis. No mesmo sentido, vão os argumentos de Alan Dershowitz: "não apoio a tortura, mas se temos de torturar, então devemos contar com a aprovação dos tribunais". Linda democracia, em que a justiça recomendará como medidas duras mas justas: as violações, os choques electricos e os espancamentos. Tudo, claro, para preservar a liberdade e a dignidade humana. Bem-vindo Torquemada!