fevereiro 10, 2004

Cházinho e política

Do nosso colaborador João V. Claro segue um avisado texto:

A ponderosa questão das relações que a política deve manter com a civilidade tem sido indevidamente esquecida pela ciência política. À primeira vista, a questão não tem segredos: como dizia a minha avó, o cházinho nunca fez mal a ninguém, tanto na porca da política como no resto. Mas há limites: poderia o Bush, por exemplo, tomar um chá com o Saddam, se para tal fosse convidado? (o Rumsfeld, esse, tomou, e não consta que lhe tenha caído mal); podemos nós almoçar com o Pinochet, em nome da razão de Estado, ou tratar o Salazar por “Professor”, em nome da razão académica, sem levantarmos (justificadíssimas) suspeitas? Onde acabam as boas-maneiras e começa a complacência com o objectivamente abjecto? Pode-se ser neutral em face do mal, pegar-lhe com pinças, levá-lo a sério e tratá-lo por sôtor? Eu acho que não pode. A questão ressurgiu-me a propósito de uma das últimas crónicas de Manuel Villaverde Cabral publicadas no DN: Villaverde Cabral, um universitário respeitável, um tipo que vale a pena ler (mesmo que às vezes ferva em pouca água), informado e informativo, fala de um qualquer congresso de ciência política e, de passagem, da obra meritória do seu mentor, o doutor João Carlos Espada, escrito assim mesmo, sem umas aspas sequer, como se o horrível Espada pudesse ser nomeado como uma pessoa normal. Sucede que Villaverde Cabral não pode deixar de saber o que é que o Espada é, nem deixar de conhecer as abundantíssimas razões, tanto éticas como estéticas, que justificam o estabelecimento de um rigorosíssimo cordon sanitaire à sua volta, que resguarde a vista das pessoas decentes do espectáculo da sua indignidade. Um amigo meu disse uma vez com graça, na altura em que o infame Espada fazia currículo à conta do indefeso Popper, que o tipo era uma espécie de Marta Harnecker do liberalismo; mais prosaicamente, eu acho que ele é sobretudo um saloio, que ora me dá vontade de rir, ora de chorar, mas que levar a sério e tratar com respeito, com doutor por extenso e tudo, isso é que nunca.
PS: Abyssus abyssum invocat: o ridículo atrai o ridículo, e o Espada criou um discípulo, um puto pretencioso chamado João Pereira Coutinho, que o inevitável Expresso alberga e ao qual tudo o que aqui vai escrito sobre o seu mestre se aplica – em doses reforçadas, que a juventude tem que ser bem alimentada.

Publicado por NRA em fevereiro 10, 2004 01:39 AM
Comentários

Tem razão no comentário mas há razões, que o coração não conhece, de natureza académico-corporativa que explicam a "neutralidade" de comentários como aquele que me critica.
"Meritório" é aliás um adjectivo à couble tranchant!
Cordialmente,
MVC

Afixado por: Manuel Villaverde Cabral em maio 20, 2004 05:19 PM