janeiro 28, 2004

Esta senhora não bate bem da bola



Por sugestão do bengelsdorff, encontrei esta coisa. Um texto -vou chamá-lo assim, à falta de termo melhor- da autoria da Clara Ferreira Alves. Uma demonstração cabal que a boçalidade, quando aliada à vaidade e a uma absoluta falta de gosto, é imparável. Nem consigo fazer mais comentários.

A morte do artista

Entrou no palco com um sorriso na boca e o cabelo a voar, deslizou até ao centro e tomou o lugar que lhe competia. Rodeado pelos outros, sentia-se bem, sentia-se o centro do mundo, que era como se sentia sempre antes de entrar em acção. Aquilo era a sua vida, o seu sonho, tudo o que sempre desejara desde que se lembrava de ter tino, corpo, mãos, pernas, pés, ossos, músculos.

Uma máquina em sintonia perfeita, da qual ele tratava como se fosse um cavalo de corrida, dos que valem milhões de dólares. Ele também valia, ou melhor, valeria, se tudo corresse bem, se fosse tão bom que fosse o melhor, o mais bem pago. A ideia abria-lhe na boca um sorriso maior, como se estar ali naquele lugar àquela hora fosse uma espécie de destino cumprido, com a brisa morna da noite a varrer-lhe os cabelos e a confiança de oiro a reluzir.

A entrada no palco era o momento, o ronco atento do público, a respiração parada da multidão antes do ataque, a agressão controlada ao adversário, a deixa certa, a ocupação do tempo e do espaço como processos absolutos, obedecendo a leis tão destruidoras e tão caprichosas como a lei da natureza. Aquilo começou, era a hora. A multidão levantou-se e deu a ordem da batalha.

O suor caía-lhe pela pele, um visco quente que o aquecia mais, cada vez mais, como se estivesse a arder, como se fosse um gladiador dentro do circo. As mãos tinham deixado de existir excepto para agarrar, tactear, impedir o outro, impedir o intruso entre ele e a sua hora, o seu milésimo de segundo, aquele milésimo de segundo que decide quem ganha e quem perde.

Naquele palco ou se perde ou se ganha, não há segundos nem terceiros, não há medalhas de prata nem bronze. A multidão estava de pé, exaltada, esgotada, molhada ela também de suor e delírio, e no palco ele corria como um animal na selva buscando a presa, perseguindo-a até levá-la a fazer o que não queria, entrar na ratoeira.

Cada vez que a presa caía na ratoeira, a multidão levantava-se e roncava a vitória de um dos grupos, e tinha de ser o dele, era para isso que vivia, para vencer.

De repente, sentiu o coração a explodir, o corpo a vaguear, a fugir-lhe como se não lhe pertencesse. Sorriu uma derradeira vez e caiu no chão como uma árvore derrubada, um árvore que ainda não parara de crescer.

A multidão estava sobre ele, abraçava-o, chorava-o, dava-lhe socos no peito parado, gritava com ele para ele viver. Ele já não os ouvia, os seus fãs, o seu público. A sua vida. O coração despedaçado recusou continuar, fez-se um grande silêncio de choro suspenso, e o jogo de futebol acabou ali.

No instante de glória em que o gladiador tombara na arena antes do tempo. A bola, presa abandonada, rolou para o canto e deixou-se ficar imóvel, uma coisa chorando a morte do homem que lhe dera tantos pontapés. Tantos pontapés.

Morreu como os toureiros, disseram depois. Morte de artista.

Porra. Digo eu.

Publicado por Mac em janeiro 28, 2004 02:44 PM
Comentários

Há aqui um perfume de mediocridade que dificilmente Clara Ferreira Alves logra disfarçar - por mais que envergue aquela carranca de sumidade da cultura lusa. A morte é um assunto sério. A escrita de Clara Ferreira Alves nunca o foi. Como compatibilizar as duas coisas?

Afixado por: Carlos Neves em janeiro 28, 2004 06:11 PM

Citando:"Literatura de elevador". Se bem que, desta vez, é melhor sair directamente no primeiro andar para evitar grandes delongas literárias. Exercício físico é bom e faz sempre falta...

Afixado por: Pantera em janeiro 29, 2004 03:55 PM

Tadinho do morto!
Não lhe bastava a morte, ainda tinha que ter tal sorte.

Afixado por: mijanaesquina em janeiro 30, 2004 11:52 AM

Porcos!!!!!!!!!!!!!!!

Afixado por: Ardelua em fevereiro 1, 2004 09:40 PM