janeiro 12, 2004

O "Espadinha" vai ao cinema...

Este sábado, ao folhear o Expresso, vislumbrei coisa familiar numa das páginas dos fundos. À primeira olhadela, reconheci logo a temática e o estilo. E disse para comigo: "Olha; mudaram a coluna do João Carlos Espada de sítio..."
Mais: ao ler um texto encimado pelo trocadilho berucha "Certidão de Hobbitt", pensei: "O gajo está pior; há umas semanas era o Harry Potter que representava a vitória dos valores tradicionais, e agora já é O Senhor dos Anéis"...

Mas estava equivocado. Aquilo não tinha saído da pena do Espada. Era antes fruto das meninges espremidas de um seu esforçado discípulo. João Pereira Coutinho de seu nome.
O tema era a visita a Portugal de um biógrafo de Tolkien –Joseph Pearce- e o fulcro das sua mensagem: que a trilogia dos anéis "procede directamente da moral cristã". Nada que o próprio autor não tivesse dito, aliás.

As coisas começavam a descarrilar logo a seguir: quando o escriba nos informa que o cristianismo inclui "uma moralidade onde o Bem e o Mal se confrontam na sua ontológica objectividade".
Disparate. O que o JPP descreve são as teologias dualistas, do Maniqueísmo ao Catarismo, que vêem o universo como uma arena onde os princípios das trevas e da luz travam combates sem fim à vista. O Cristianismo não é assim. Mais: o Cristianismo sempre foi violentamente antagónico a esta visão do mundo, como o prova a Cruzada Albigense, que esmagou os Cátaros do Languedoc....

O que aconteceu é óbvio: JPC, na sua ânsia de ver confirmações das suas crenças por todo o lado, nem cuidou de ler o que o citado Joseph Pearce escreveu. Na realidade, as ligações entre o Cristianismo e a obra de Tolkien que ele vislumbrou são bem mais simples e plausíveis: a escolha dos Hobbits como portadores do anel enquanto símbolo das virtudes dos humildes; o "carregar da cruz" que a tarefa de Frodo representa; a forma como até o Mal pode trabalhar a favor do Bem, patente nos actos de Gollum; etc, etc.
Esta pequena falsificação não impediu JPC de seguir directo para as suas conclusões: se um rio caudaloso de espectadores inunda as salas de cinema onde a fantasia de Tolkien está em cena, é apenas pelo desejo que o povo tem de "matar o pós-modernismo", reafirmando a sua necessidade de dicotomias "ontológicas" claras.
A oposição entre o Bem e o Mal – eis a "realidade moral que nós conhecemos e reconhecemos como nossa." Que mundo tão simples e reconfortante aquele onde perambula o JPC... até o universo do Dragon Ball é mais complexo, com vilões que podem bem passar a heróis no espaço de uma dezena de episódios.

Nem passa pela cabecinha do cronista que as multidões procuram e sempre procuraram enredos simplórios, onde seja fácil tomar partido por uma das facções em luta e onde o universo possui um sentido claro e unívoco. Um mundo simples para gente simples, em suma.
É isto que faz – para além das óbvias virtudes oficinais- o êxito destes filmes. Tal como já acontecera com a Guerra das Estrelas e infindáveis resmas de outras produções similares.
Aliás, a saga de George Lucas, por si só, bastaria para concluir que, afinal, o pós-modernismo já estava defunto bem antes desta pretensa "certidão de Hobbitt". Ou que, afinal, talvez nunca tenha existido...

Por sinal, esta simplicidade pacóvia, onde tudo é o que parece e não é preciso fazer escolhas difíceis, este mundo feliz a preto e branco, também descreve admiravelmente a visão de JPC. E explica muito do seu sucesso junto a alguns leitores.

Os seus textos incluem sempre a chalaçazita rasteira, a generalização forçada, a citação a esmo de "inimigos" – mesmo que ele nem se dê ao trabalho de aprender a soletrar os seus nomes: Foucault foi a vítima da semana – tudo a coberto de um humor "irreverente" e fácil.
Seria engraçado construir um "gerador" de "frases JPC". Bastaria combinar descritivos coloridos como a "trupe", a "tropa fandanga", a "malta", as "hordas" e os inevitáveis vilões: os "pós-modernistas", os "anti-americanos", os "ecologistas", a "esquerdalhada". 80% dos textos deste cronista são mesmo assim.

Noutro texto na mesma coluna, o homem escreve sobre o conhecido e recente caso de canibalismo passado na Alemanha. Para concluir que o Estado deve proteger-nos de nós mesmos.
JPC acha que fazermos banquetes de entrecosto humano é "uma abominação". Até sou capaz de concordar; e depois?
Abomináveis também são, para muitos meios religiosos, coisas como a homossexualidade, a contracepção, o trabalho aos sábados...

O que ele deseja não é que nos protejam daquilo que nós queremos. Não; ele deseja mesmo é proteger os outros daquilo que ele não quer.

E é isto que passa por uma luminária da nossa direita. Que tristeza.

Publicado por Mac em janeiro 12, 2004 12:39 PM
Comentários

LOL! Mas vocês ainda lêem o Expresso?

Afixado por: Troll em janeiro 14, 2004 06:44 PM

Parabéns por um texto muito interessante.

Afixado por: CMF em janeiro 16, 2004 02:47 AM

Boa malha, Mac.

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 21, 2004 10:13 AM

Exacto. vocês ainda lêm o expresso?
Já agora... não será possível que as pessoas gostem de ler/ver o Senhor dos Anéis apenas porque isso as diverte e não tenham, por isso mesmo, de querem matar pós-modernismos-ecléticos-e-mais-não-sei-o-quê?
Por amor de Deus. Eu vi e gosto. E também gosto dos filmes do Lars Von Trier. E agora? Serei eu próprio uma negação de mim? Irei implodir? Socorro. Que o JPC me ajude. E o Mac também...

Afixado por: bf em janeiro 21, 2004 11:27 AM

Mas, por favor, porquê perder tempo com gente que do mundo apenas conhece o seu (dele, próprio, de mais ninguem...)?

Afixado por: jc em fevereiro 4, 2004 02:15 PM

olá

não vou falar do harry potter e não vou falar do senhor dos anéis mas vou falar da molly moon: uma jovem heroína desconhecida em Portugal mas k fez furor por esse mundo fora (traduzida em mais de 20 países e os espanhóis chamaram-lhe a noiva de harry potter, e... venderam 100 000 exemplares à conta!...). E mais: há-de vir a dar 1 filme produzido por kem produziu harry potter! E em Portugal a imprensa decidiu ignorá-la!... Enfim!... Molly Moon e o incrível livro de hipnotismo da colecção estrela do mar da Presença é 1 livro para os fãs da boa imaginação

Afixado por: paula em fevereiro 18, 2004 07:25 PM