dezembro 18, 2003

Doce vida

O filosofo esloveno Slavoj Zizek tem uma instrutiva obra sobre o totalitarismo ("Did Somebody say totalitarism?"). Na introdução, partindo da analogia com uma bula de um chá medicinal, Zizek defende que o conceito de totalitarismo funciona como uma espécie de "anti-oxidante" ideológico para "radicais livres". Para ele, a aceitação, por parte da esquerda, da designação de pensamento "totalitário", para qualquer iniciativa de transformação da sociedade , significa aceitar colocar a discussão no "terreno do inimigo". Defende o filósofo que “no momento em que se aceita a noção de “totalitarismo” cai-se no horizonte democrático e liberal.” O livro pretende, assim, “mostrar que a noção de “totalitarismo”, longe de ser um conceito teórico efectivo, é uma espécie de subterfúgio que, em lugar de permitir-nos pensar, obriga-nos a adquirir uma nova visão da realidade histórica que descreve, desobriga-nos do dever de pensar e, inclusivamente, impede-nos activamente de pensar”.
Para além da capacidade de ir contra o discurso estabelecido, o autor tem bastante humor. A suposta dedicatória da obra é surpreendente. Zizek conta que depois da queda de Chausesco, às mãos dos seus colegas da nomenklatura, um amigo, dele, norte americano, foi trabalhar para a universidade da libertada Roménia. Uma noite telefonou para a namorada e contou-lhe as suas impressões: “a Roménia é um país pobre, mas toda a gente está entusiasmada e a tentar melhorar as coisas”. Depois de cinco minutos de conversa, despediu-se e desligou. No momento seguinte, o telefone toca. O americano atende e ouve, num inglês macarrónico, as seguintes palavras: “eu sou sicrano, o oficial da Securitate encarregue de o escutar, queria agradecer-lhe as maravilhosas palavras que teve para o nosso país e desejar-lhe uma agradável estadia”.
Zizek dedica o livro a “este anónimo funcionário romeno da polícia secreta”.

Publicado por NRA em dezembro 18, 2003 09:47 PM
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