Do nosso colaborador João V. Claro, segue o arguto comentário.
Disse há umas semanas que o José Manuel Fernandes, verbalista congénito que, na sua actual incarnação jornalística, colocou o seu verbo fácil ao serviço da causa da administração Bush, era a primeira vítima colateral do apodrecimento da situação militar no Iraque. Menti: José Manuel Fernandes, vítima será, mas primeira é que não. Como já há mais de um século alguém dizia, os nossos escribas limitam-se a traduzir em calão os originais franceses, no caso vertente de André Glucksman e Bernard-Henri Lévy. Curiosa a sorte destes “novos filósofos” (prova provada se bem que póstuma das virtualidades de algum pensamento estrutural): AG, para justificar juridicamente o injustificável juridicamente (a invasão do Iraque) salta a fronteira entre o normativo e o simplesmente político com piruetas de que nem o Vichinski dos piores tempos seria capaz; quanto ao insuportável (de cabotino) BHL, de tanto festejar o fim do “império vermelho” e a vitória das forças “do bem”, substituíu “os amanhãs que cantam” pela celebração dos dias que passam, quaisquer que eles sejam. No fundo, fazem-me pensar que, tivessem estes dois nascido num burgo perdido dos Urais e não algures no seizième, escreveriam loas ao “Pai dos Povos” em vez de ensaios pretenciosos, supostamente a dizer mal dele; acessoriamente, fazem-me também pensar na falta que uma utopia de jeito faz: é por não haver nenhuma agora, que temos de aturar esta gente a explicar-nos, como padres medievais, que não vale a pena mudar o mundo, não porque haja um paraíso à espera (felizmente deixaram-se disso), mas porque simplesmente não há felicidade possível para além da felicidade existente, na vida de merda de nove décimos da humanidade.
É engraçado reparar que a direita portuguesa “fazedora de opinião”, embora se declare maioritariamente filo-britânica, continua a seguir as modas culturais de Paris (inevitavelmente atrasadas). Por razões que o Manuel Villaverde Cabral saberá melhor do que eu, a intelectualidade nacional despreza na maior parte dos casos a França, país “onde a política se faz na rua”; e embora nem toda seja tão ridícula como o Espada (que estamos todos à espera de ver aparecer um dia com um bonézinho à Sherlock Holmes enfiado na cabeça), a verdade é que, do Pulido Valente ao Cutileiro, passando pela Filomena Mónica e por muitos outros personagens menores, quando lhe falam ao coração, confessa-se anglo-saxónica. O problema é que, neste caso como em muitos outros, os portugueses em geral, e as suas putativas elites em particular, conhecem-se mal; e tomam por inglês ou americano aquilo que, na realidade, neles é francês. O tom belicoso do Público em matéria de política internacional, por exemplo, é típico dessa “guerra fria tardia” de que boa parte da intelectualidade francesa actual padece, como muito bem diagnosticou o Hobsbawm, e a portuguesa importou. Outro exemplo menor, e vagamente anedótico: o anglófilo Pulido Valente, que sob vários pontos de vista resume uma geração de gosto, elege para escritor português do século XX o Cardoso Pires (se calhar convencido que ele é um contador de histórias à americana) e prega “O Delfim” em cinema (ou seja, mais rigorosamente, adapta-o para o filme do Fernando Lopes) - não reparando que, by the way, impinge aos espectadores de 2001 ou 2002, dos quais metade não tinha ainda nascido na altura do 25 de Abril e a outra metade é capaz de confundi-lo com a comédia de costumes sobre o mesmo tema da Maria de Medeiros, uma variação sobre o tema arqueológico do “marialva”, por sua vez derivado, se bem que por oposição, do defunto “libertino” de Roger Vaillant! Percebem o filme?