novembro 24, 2003

Portugal abreviado

Há umas semanas, vi num noticiário televisivo uma peça que, se não fosse trágica, seria de um cómico irresistível: um pescador clandestino de amêijoas, algures no Algarve, lobrigou à distância uma lancha da Polícia Marítima em alta velocidade. Em pânico, deu corda ao motor e zarpou pelos baixios afora, acabando por encalhar e cair à água, onde se afogou. Acontece que a dita lancha ia em perseguição de um contrabandista qualquer e nem tinha dado pelo desditoso infractor.
Queixa da família do afogado e do cúmplice sobrevivente: a Polícia devia pagar pelos prejuízos sofridos!

Dias depois, foi a rábula dos assaltantes disfarçados de taxistas no aeroporto de Lisboa. Aqui, os colegas dos meliantes apanhados tinham uma proposta infalível para acabar com a ladroagem que ataca os pobres turistas mal põem pé nesta choldra que ainda consegue passar por país: aumentar as tarifas cobradas nas viagens que ali tenham origem. Isto porque eles, coitados, têm de esperar horas por clientes; e, como toda a gente sabe, são obrigados a estar ali, em vez de circular por Lisboa.

Por fim, o já muito comentado ataque dos vândalos sub-21 aos balneários onde comemoravam a vitória sobre a selecção francesa. Aqui, a culpa era do facto de os rapazes serem "novos" e "virem do campo". Para os garbosos artistas da bola, a destruição foi chata, mas o importante era "a vitória". Nem o Rumsfeld o diria melhor.

Nestes três singelos episódios, jaz toda a alma de um povo. Melhor, de uma maltosa que nunca tem culpa de nada e que vive em perpétuo estado de inimputabilidade.

Publicado por Luis Moura em novembro 24, 2003 11:06 AM
Comentários

A alma de um povo (o nosso)é, efectivamente, preenchida com episódios destes.
No entanto, ela não jaz aqui. estes episódios são a grandiosa manifestação do esplendor de um povo.
Quem se não revê no pobre pescador (qual clandestino?), à cata da ameijoazita que, de súbito, é surpreendido por uma lancha (em alta velocidade?, como?)da P.M..Certamente preocupado com o destino de seu compadre, que tentava introduzir uns pacotitos de "L.M." no mercado nacional. lançou-se, qual lobo do mar, em auxílio deste, vindo a sucumbir perante as poderosas vagas da Ria Formosa.
Quem não simpatiza com os velhos taxistas da nossa praça que, sacando uns cobres extras aos turistas parolos que nos visitam (e que pensam que parolos somos nós), mais não fazem do que arrecadar receitas extraordinárias e contribuír para o equilíbrio da balança de pagamentos?
Balneários franceses? Porra, o que é que isso interessa? Se calhar preferiam que saíssemos de lá com uma abada (como é costume) e, ainda, tivesse-mos que lavar os balneários.

Afixado por: ALF em novembro 26, 2003 12:16 PM