Enquanto tento arrumar todas as explicações para a inenarrável blogo-moleza que me atacou desde que regressei de férias - o trabalho amontoado, a preparação de um lançamento na micro-editora em que me atasquei, o livro que já devia estar na gráfica em vez de estar a ser revisto pela 14ª vez, etc. - vai valendo ao pobre Muro a boa vontade dos recém-alistados. O meu bem-haja ao J.P. Cotrim e a essa "personagem de mistério" , o João V. Claro.
Mas outros andaimes lá vão adiando a nossa derrocada. Leitores como o Helder Ventura têm a caridade de nos presentear com colaborações sempre bem-vindas. Aqui fica a última:
Tenho andado aflito com a Casa da Música. Aquela obra ali à rotunda da Boavista, no Porto. Como se trata de construção, pensei que algo se passasse por aqui, mas nada. Nem mesmo os muito célebres e eruditos blogs tratam o assunto.( Apenas umas coisitas aqui e ali..) Ora o que se passa em torno desta obra reflecte apenas a triste gestão do nosso território e das cidades em particular. (Ministério das cidades... mistério nas cidades).
Embora me apetecesse, não vou tecer considerações sobre se a obra, belíssima e revolucionária no panorama de qualquer cultura arquitectónica, deverá ser acompanhada ou não por um edifício anónimo e brutalista de mais uns quantos escritórios envidraçados à boa maneira dos idos anos de Dallas. Menciono no entanto o facto de que o nosso território continua a ser ordenhado (disse ordenado?) por jogos de monopólio nada esclarecidos cedendo sempre à fria lógica dos valores numéricos, os valores de equilíbrio, complementaridade, mobilidade, diversidade e excepção. Valores determinantes na consolidação de uma sociedade evoluída, mas também como factores identitários das Cidades, cada vez mais em disputa por algo que as distinga da mediania e da mediocridade.
E assim, ainda nem sequer está inaugurado e concluído determinado património, e já o estamos a dilapidar e a descaracterizar.
Tempos Modernaços estes, que nos obrigam a becos sem saídas fáceis.
CADA MACACO NO SEU GALHO
Amigos, que vos encostais à sombra
do alto muro que'ora construís,
deitai fora a vergonha que sentis
e fazei-vos assim autores d'arromba.
Se do Porto vos toca a ilustre Casa,
e se ela pela música incomoda,
só tendes de rejeitar a alta roda
e não vades em voos sem ter asa.
E se o fizerdes pensai bem, então,
que a música só toca s'afinada
estiver, bem assim aparelhada
com tudo o qu'é preciso ter à mão.
Não percais vosso tempo qu'é dinheiro
e não mete folgança a quem tem siso
pois s'o tem todo mais nada é preciso
qu'a vergonha anda aí o dia inteiro !
Frassino Machado
In RUDIMENTOS