O homem é mesmo obtuso. Não há volta a dar à questão; o José António Saraiva é decididamente um caso perdido.
Alicerçado no volume brutal de vendas do Expresso, a criatura julga-se investida de um qualquer manto de infabilidade, à semelhança do geronte do Vaticano. Vai daí, coroa-se semanalmente oráculo oficial dos portugueses, fazendo passar as débeis fantasias que lhe iluminam os neurónios por ponderadas análises do que se passa em Portugal e no Mundo. É como se o Marco Paulo quisesse, porque vende muitos discos, ditar quem pode ou não tocar no Grande Auditório da Gulbenkian. Ou como se os senhores das Páginas Amarelas, santificados pelas suas enormes tiragens, desatassem a postular aforismos para nos governar as existências.
O homem não tem emenda. E já nem há pachorra para a desculpa do costume: "coitadito, faz o que pode; não deve ser lá muito esperto…"
O editorial desta semana, intitulado "Lágrimas de crocodilo", oferece-nos a resplandecente miopia do arquitecto em todo o seu desfocado esplendor.
A propósito do ninho de vespas que os americanos não param de agitar no Iraque, começa por atacar o "raciocínio, largamente expendido por certa esquerda" que nos leva "por caminhos complicados. Por exemplo: se Angola não se tivesse tornado independente não teria havido guerra civil (…)"
Ou seja: uma colónia tornar-se independente é igual à invasão de um estado independente. Mesmo que todas as resoluções dos organismos internacionais competentes fossem a favor do primeiro evento e contra o segundo.
Depois, informa-nos que muitas das "lágrimas que (a esquerda) chorou foram lágrimas de crocodilo." Porque "esta morte até conveio a essa esquerda". São coisas como estas que dão forças às sinistras teorias eugénicas que pretendem acabar com os idiotas antes que eles tenham tempo de contaminar a sociedade.
Mas há pior. Muito pior.
Agora, as patranhas das "armas de destruição maciça" foram "apenas o pretexto para a invasão. A sua ‘razão formal’. A questão essencial teve (e continua a ter) com o terrorismo. Imagine o leitor que vivia num sítio problemático, perto de um reduto de marginais que um dia lhe assaltavam a casa, matando um membro da família. O que faria, se tivesse meios para combater os marginais; ficaria à espera de ser de novo assaltado ou iria ao encontro deles, tentando neutralizá-los?"
Nem sei bem se isto é só estupidez ou dissimulação disfarçada de estupidez. No 11 de Setembro, os EUA foram atacados brutalmente por terroristas inspirados e financiados pela Arábia Saudita. Respostas? Atacar as bases de Osama no Afeganistão (compreensível, apesar de tudo) e, passados uns meses, atacar o Iraque, que nunca teve relações com os Wahabitas da Al-Quaeda que não fossem antagónicas. Mesmo a famosa pista Checa, respeitante a um suposto encontro entre Atta e autoridades iraquianas, já tinha sido amplamente desmentida.
Na bonita fábula do arquitecto, isto equivaleria a alguém ser atacado e não molestar em retaliação a casa do vizinho (é vasta a noção de "sítio problemático" do escriba) com culpas no cartório, mas sim a de um outro caramelo que sempre o irritara, embora ele já tivesse sido amigo útil em tempos não mui distantes. Uma vez lá chegada a milícia, expulsa-se o vizinho incómodo e trata-se da saúde a muita gente inocente que por acaso vive na casa errada, na ocasião errada. Isto depois de várias queixas falsas à polícia, sobre um suposto e terrível arsenal que o "vizinho" amontoara.
Como pode o fulano dizer que os EUA foram "dar luta aos terroristas nos seu terreno", quando só agora há notícias de actos de terrorismo ligados ao Iraque?
Mas ele pode mais ainda. Ele sabe que "a América tem sobretudo metido medo aos ditadores – de Hitler a Saddam. (…) as grandes disputas dos EUA, desde a II Guerra ao Vietnam, têm sido contra regimes totalitários."
Pensava eu que só o Rumsfeld teria lata para dizer tal coisa. Mas esta sinistra personagem sempre conta com a ajuda de uma inteligência poderosa. O arquitecto tem de se contentar com a presunção de ignorância ou amnésia dos seus leitores. Tem de imaginar que ninguém se lembra já da queda de Allende; ou do apoio dado a Saddam contra o Irão; ou da formação dispensada pela CIA aos moçoilos de Osama no Afeganistão; ou da "democracia" que reinava no Vietname quando lá andavam os GIs.
Nada disto interessa agora à alucinada pena do Director. Importante para ele é que o Michael Moore possa ter tido a oportunidade de "vociferar no palco" contra o Monkey Boy. Isto é que é "a maior prova de democracia". Isto é que é "tranquilizador para os espíritos livres"!!
Ou seja; que um representante da tal "certa esquerda" tenha ido contra as instruções expressas da organização dos Óscares, acaba por legitimar tudo. Agora, podemos dormir tranquilos.
Será que o caramelo nem lê jornais? Não saberá ele o que aconteceu às Dixie Chicks por terem demonstrado coragem semelhante?
E, mesmo que a Democracia dormisse tranquila nos EUA, porque teria eu de partilhar esse sono dos justos?
Se os americanos continuassem a disfrutar de todas as liberdades, -coisa de que muitos hoje duvidam - poderia eu ver aí um sinal de que o resto do mundo ia permanecer em paz, livre das invenções sangrentas do Presidente americano? Claro que não; hoje, a ideia é sempre preservar o American way of life; não o way of life de mais ninguém.
Eu, por mim, não volto tão cedo a comprar o Expresso.
Publicado por Luis Moura em agosto 30, 2003 07:06 PM
um abraço solidário
http://000randomblog.blogspot.com/
um abraço solidário
Digamos que, embora seja contra o director do jornal onde publico, e embora ache o seu discurso um tanto violento para ele, concordo no essencial com o seu ponto de vista... Acho a visão de JAS desajustada da realidade.
Afixado por: Paulo em agosto 31, 2003 12:56 AMAs críticas ao JAS e aos blogues fascistas já foram sentidas como provocações (marsalgado.blogspot.com)
Afixado por: mjo em agosto 31, 2003 01:15 AMobrigado, Muro, por este tijolo. hoje ao ler esse serôdio texto fiquei com raiva nos dedos e com vontade de poder escrever no meu blog antes do fim das minhas férias. a questao é tanto ao mais grave quanto com um descaramento sem limites este homem vem dizer que a fundamentação democrática de um agir democrático, é uma questão formal. nem o safa escrever no mesmo jornal que publica um, hoje, oportuno texto de clara ferreira alves. será que ele leu o último parágrafo des texto? continuem a colocar tijolos neste mundo, isto sem indignação não vai lá! obrigado.
Afixado por: jpn em agosto 31, 2003 01:57 AMAcho que ao fazer aquela comparação entre a reacção norte-americana ao 11 de Setembro com uma família que vai atacar um grupo de marginais, o arquitecto violou três artigos do Código Penal. Fez a apologia de um crime (artigo 298), incitamento à desobediência colectiva (artigo 330) e ainda incitamento com ligações ao estrangeiro (artigo 331). Seis meses de prisão na primeira, 2 anos na segunda e 5 anos na terceira.
Afixado por: Para Mim em agosto 31, 2003 10:10 PM