agosto 25, 2003

Um livro para o Mata-Mouros, que depois podem emprestar ao Abrupto...

No Mata-Mouros, tiveram a generosidade de nos recomendar um manual de "Protestos para Idiotas Utéis", simpatia que o Nuno já teve ocasião de agradecer. Deve ser fascinante, pelo menos o prometido capítulo dedicado aos "Aging Hippies", no qual talvez me reconheça um pouco...

Aproveitando a embalagem, na sua periódica distribuição de Óscares Blogueiros™, atribuíram o seguinte prémio para a "Melhor Frase": "Não há 'dirigentes moderados' numa organização terrorista, ponto", do Abrupto.
Ponto. E pronto.
Mani não o diria de forma mais sucinta.

Como é fácil e confortável ter certezas assim, comodamente sentadas a milhares de quilómetros dos locais onde as coisas se passam, sem vermos as nossas terras ocupadas por colonos com confortáveis piscinas, enquanto vivemos em casas com água racionada; sem termos as nossas aldeias e vilas retalhadas por estradas, muros, check points, etc. Isto para já nem mencionar a macabra contabilidade de caixões que a B'Tselem continua a actualizar.

Ignorar que o Hamas é muito mais do que um grupo terrorista é simplesmente fechar os olhos à complexidade da realidade. É ignorar o que até a Anti-Defamation League constata no seu site: que o Hamas gere uma rede de hospitais, creches, escolas e caridades diversas. É ignorar a própria génese do movimento, surgido em 98 como oposição à notoriamente corrupta entourage de Arafat.

Este pequeno livro, escrito por dois académicos israelitas, pode elucidar-vos sobre as dissensões internas que têm atravessado o Hamas, sempre oscilando entre duas teses: a brutalidade pura e dura e a procura de soluções negociadas.
Ismail Abu Shanab era um dos rostos deste último ponto de vista. Era.
Se não quiserem gastar 20 euritos no livro, leiam ao menos este artigo de um outro "idiota útil", o Jerusalem Post.

Sobre o livro, fica ainda o comentário da Columbia University Press:
"Since it emerged as a challenger to the PLO during the Palestinian Intifada, Hamas (the Islamic Resistance Movement) has been associated in the public mind with terror and violence. Now two Israeli experts show that, contrary to its image, Hamas is essentially a social and political movement, providing extensive community services and responding constantly to political realities through bargaining and power brokering. The authors lift the veil on Hamas´s strategic decision-making methods at each of the crucial crossroads it has confronted: the Intifada and the struggle with the PLO, the Oslo accords and the establishment of the Palestinian National Authority, and the dilemmas surrounding the choice between absolute Jihad against Israel versus the option of controlled violence."

O maniqueísmo exibido com o orgulho do costume por Pacheco Pereira poder-me-ia levar a dizer que "todos os ministros, secretários de estado, contínuos ou apoiantes de um Governo que bombardeia prédios em bairros que são dos mais populosos do mundo, matando crianças e chamando ao acto 'um grande sucesso' são terroristas. Ponto." (Lembram-se disto, não?)
Assim, ficaria sintonizado com quem se acha no direito de julgar, por exemplo, um médico que trabalha nos campos de refugiados e é pago pelo Hamas, apondo-lhe o labéu de "terrorista".

Mas não me passa pela cabeça concordar com tal tese. Parece-me um bocado tonta.

Publicado por Luis Moura em agosto 25, 2003 12:45 PM
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