agosto 14, 2003

A APRENDIZAGEM DA DECEPÇÃO

Ontem fui ao aniversário de um antigo e excelente camarada da SIC, o Ricardo Espírito Santo. Há muito tempo que não estava com jornalistas do minha antiga redacção. Estamos, quase todos, dez quilos mais velhos. Nestas ocasiões vêm-me a memória a frase assassina de um político inglês: "quando o país esperava que ele crescesse, ele engordou" (não estou a falar do Ricardo). Lembro-me quando chegamos à SIC, a estação parecia um cenário de James Bond. O antigo armazém de bananas (??) estava todo em obras, menos a sala da redacção que estava miraculosamente pronta. Era suposto fazermos, pelo menos, um mês de emissões experimentais. Não conseguimos fazer uma. A força de vontade, os muitos bons profissionais e o improviso luso, fizeram que tudo tenha corrido bem na abertura.
Durante anos acreditamos ser possível fazer uma televisão melhor em Portugal. Em pouco tempo, os repórteres de imagem da SIC, os editores de imagem e depois os jornalistas tentaram novos caminhos, novas reportagens e formas diferentes de noticiar, sem cair no "Portugal sentado". Hoje, muitos tiveram sucesso: não mudaram a vida, mas, pelo menos, mudaram de vida. Do cimo dos carros da empresa, estou convencido que os mais inteligentes vêem-se como a "geração de 70", nos "Vencidos da Vida". Como diria Fialho de Almeida: "os Vencidos da Vida", quando juntos , o que pretendem é jantar."
Claro que gente inteligente e talentosa continua a fazer boas coisas, mas ficaram muito aquém do que queriam. Como explicava Eça de Queiroz: "…Para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida, depende não da realidade aparente a que chegou, - mas do ideal íntimo a que aspirava. Se o sujeito largou pela existência for a com o ideal supremo de ser cabeleireiro, este benemérito é um vencedor, um grande vencedor, desde que consegue ter nas mãos uma gaforina e a tesoura para tosquear, embora atravesse o Chiado cabisbaixo e de botas cambadas. Por outro lado, se um sujeito, aí pelos vinte anos, quando se escolhe uma carreira, decidiu ser milionário, um poeta sublime, um general invencível, um dominador de homens (ou de mulheres, segundo as circunstâncias), e se, apesar de todos os esforços e empurrões para diante, fica a meio caminho do milhão, do poema ou do penacho - ele é para todos os efeitos um vencido, um morto da vida, embora se pavoneie por essa Baixa amortalhado numa sobrecasaca do "Poole" e conservando no chapéu o lustre da resignação."

Publicado por NRA em agosto 14, 2003 06:57 PM
Comentários

lembro-me bem de te ver lá, naquele "porta aviões". durante uns 90 e poucos dias, o tempo que durou o meu estágio. tempo que usei não para tentar ficar na estação - não podia, não só financeiramente, eticamente, era insuportável o trabalho pelintra para um tipo que já tinha uma profissão, como também eu não podia querer ficar numa estação onde o único programa que me interessava era a P.Pública - mas para apreender o trabalho de muito bons profissionais. Aprende-se tanto a respirar o mesmo ar. A ver um bom profissional a trabalhar (e um mau, sem dúvida). E a visionar cassetes de trabalhos antigos. Porque no efémero do ofício há uma porção de ar que não se evapora. E tu sempre foste um dos jornalistas a quem dei atenção. Tanto no ver-te trabalhar, éramos quase vizinhos de mesa, como em materiais de arquivo que ia requisitando amiude. Não só conseguias contemporizar um ar de quem não é dali (felizmente!) com um à vontade e um estar por direito próprio que me impressionou. Talvez não fiques com orgulho disso - afinal o jornalismo em Portugal será acreditável, pensarás tu!- mas se eu hoje acredito no jornalismo em Portugal, foi por ver o trabalho de profissionais como tu ( e outros que não vou aqui citar). Agradeço-te isso, NRA.

Afixado por: jpn em agosto 15, 2003 02:19 AM

lembro-me bem de te ver lá, naquele "porta aviões". durante uns 90 e poucos dias, o tempo que durou o meu estágio. tempo que usei não para tentar ficar na estação - não podia, não só financeiramente, eticamente, era insuportável o trabalho pelintra para um tipo que já tinha uma profissão, como também eu não podia querer ficar numa estação onde o único programa que me interessava era a P.Pública - mas para apreender o trabalho de muito bons profissionais. Aprende-se tanto a respirar o mesmo ar. A ver um bom profissional a trabalhar (e um mau, sem dúvida). E a visionar cassetes de trabalhos antigos. Porque no efémero do ofício há uma porção de ar que não se evapora. E tu sempre foste um dos jornalistas a quem dei atenção. Tanto no ver-te trabalhar, éramos quase vizinhos de mesa, como em materiais de arquivo que ia requisitando amiude. Não só conseguias contemporizar um ar de quem não é dali (felizmente!) com um à vontade e um estar por direito próprio que me impressionou. Talvez não fiques com orgulho disso - afinal o jornalismo em Portugal será acreditável, pensarás tu!- mas se eu hoje acredito no jornalismo em Portugal, foi por ver o trabalho de profissionais como tu ( e outros que não vou aqui citar). Agradeço-te isso, NRA.

Afixado por: jpn em agosto 15, 2003 02:19 AM

Fialho não dizia que os Vencidos da Vida se reuniam para jantar, mas que eram um grupo de jantantes «que se reuniam para envelhecer».
É conveniente citar os autores com algum cuidado.
Até breve.
Maria da Fonte

Afixado por: em julho 13, 2004 04:39 PM

Cara Maria da Fonte,

Entrada do Dicionário de Eça de Queiroz, organizado e coordenado por A. Campos Matos e editado pela Caminho, pag 613:

"Fialho de Almeida, n'Os Gatos (n'4, Março-Junho de 1890), começando por lhes chamar "dúzia e meia de ratões", escreve: Os vencidos da vida quando juntos, o que pretendem é jantar, depois do jantar o que intentam é digerir; e, digestão finda, se alguma coisa ao longe miram, tanto pode ser um ideal como um water-closet. Não há portanto razões para sobressaltos. Que os vencidos da vida jantem em paz".
Cara Maria da Fonte, em matéria de seriedade de citações estamos esclarecidos.

Afixado por: Nuno Ramos de Almeida em julho 13, 2004 08:07 PM