No chão brilha a humidade rejeitada pelas raízes adormecidas da tília. As caves estão frias, como convém à conservação das batatas. Junto a uma chávena partida, um rótulo já sem cor anuncia a ninguém milagres esquecidos. Mesmo ao lado, térmites digerem laboriosamente a estrutura onde repousa o peso de corredores, salas e quartos. Dos seus sonhos cegos apenas sobrevivem regulares montículos de poeira amarelada, detritos da fricção do tempo.
O calor do dia foge pelas pedras imensas escondidas na alma das paredes. Elas são a força bruta, o esqueleto que não quebra sob o estuque há muito rachado por tremores de terra suaves demais para serem sentidos. Onde traves e tubos penetram as paredes, soam lentos compassos para cantar a saudade do Sol: um ranger de preguiça agora, um contraponto de estalidos inquietos depois.
No sótão, arcas e arcas de memórias descartadas corrompem-se sem pressa, indiferentes à hora; é-lhes interdita a redenção do sono dos homens. Dúzias de chapas fotográficas esquecem cerimónias, poses solenes, crianças felizes nos seus bibes. Um maço de cartas por abrir. Uma medalha roubada a um morto noutra guerra, noutra fronteira. Uma colher de prata ainda à espera de ser encontrada por criadas com olheiras. As aranhas negligenciam as suas teias e sonham com a dança da reprodução.
A Casa dorme.
De que livro foi retirado o excerto?
Afixado por: Lain em agosto 7, 2003 03:27 AM