julho 30, 2003

Uma Pintura

Ontem, dediquei parte da minha noite a partilhar uma paixão, um amor desordenado que já tem mais de vinte anos: a pintura de Giorgio de Chirico.
Saquei do excelente e monumental De Chirico: The Metaphysical Period, 1888-1919, de Paolo Baldacci, e revisitei imagens que nunca realmente chegam a sair de dentro de mim.
Nem sei bem por onde comece a gabar a obra de Chirico. Ele continua a ser, para mim, o espírito mais radicalmente original de toda a Arte moderna. Sim; sei que foi influenciado por Arnold Böcklin e talvez por Fuseli. Sei que a geometria do cubismo também contagiou as praças povoadas de presságios e de monumentos solitários do italiano. Mas mesmo que a Arte fosse um mero concurso de invenções, Chirico seria por certo medalha de ouro.



Este quadro, A Incerteza do Poeta, é de 1913. Pertenceu a Paul Eluard e a Roland Penrose. Agora, com a minha modesta ajuda, está na Tate Gallery.
Descobri-o em 1985, estava eu em Londres, após a saída da faculdade, entretido naquilo a que os americanos alegremente chamam bumming around in Europe: lavava pratos num restaurante e gastava todas as libras que me caíam nos bolsos em visitas a museus, livrarias e discotecas.
Devo ter entrado na Tate com ar do que era mesmo: um patego embasbacado por tanta maravilha. Do meu primeiro Robert Longo à sala de Mark Rothko, logo perdi conta às revelações.
Mas foi ao deparar com A Incerteza do Poeta que me caiu um raio em cima.

A melancolia imensa que nos assalta, a sensação de que algo ali está prestes a acontecer, muito para lá dos simples pigmentos sobre tela, justifica de imediato a classificação que é sempre aposta a esta fase de Chirico: Pintura Metafísica.
Podemos tentar enumerar "ingredientes" que alicerçam a estranheza de tal imagem: a perspectiva distorcida, o tratamento descontínuo das variações de cor no céu, a incongruência do vento que empurra o fumo do comboio e a vela do barco em direcções opostas, etc. Mas há um mistério quase sagrado numa obra assim; algo que vive longe do alcance das palavras.

André Breton sentenciou que "a beleza será convulsiva ou não será." Muito provavelmente tendo em vista a pintura de Chirico. Aliás, este pintor emprestou genes a toda a vertente "ilusionista" do movimento Surrealista, de Magritte a Dali, passando por muito Max Ernst. Yves Tanguy era marinheiro até ao dia em que deparou com o Canto de Amor numa montra. Saltou do eléctrico em andamento e caiu. Quando se levantou, já decidira vir a ser pintor.

Eu tomei decisão mais modesta: prescindi do almoço do dia e deixei duas notas de cinco libras no caixote de acrílico com que a Tate cravava aos visitantes contributos para adquirir a obra. Desde aí, a A Incerteza do Poeta ficou a ser ainda um pouco mais minha.

Publicado por Luis Moura em julho 30, 2003 01:45 PM
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