Uma pessoa lê aquilo e estranha; a coisa não se entranha mas incomoda, assim tipo comichão de pulga persistente. Umas semanas depois, há mais; não foi portanto um hacker a tentar ridicularizar com disparates apócrifos as páginas do venerando Expresso. Não; o João Carlos Espada é mesmo capaz de existir. A atestá-lo fica a foto patusca de um homenzinho a obrar, de Montblanc na mão, um ar quase inteligente para a câmara.
É fácil resumir o conteúdo das prosas da criatura. Na realidade, é sempre o mesmo artigo, distinguindo-se cada um apenas pelo número de vezes que cita o nome de Karl Popper. Por isso, vou circunscrever-me à "coisa" desta semana, sendo certo que contém em si todos os bizarros genes que poderão ajudar-nos a decifrar as demais.
Sob o anódino título "Livros para férias" Espada dedica-se a receitar-nos a panaceia universal para todas as maleitas deste nosso bárbaro tempo: a gentlemanship. Não se trata de entidade redutível à comezinha ambição de um dicionário que nos poderia traduzir tal substantivo por "cavalheirismo". É gentlemanship e pronto.
Este ingrediente miraculoso que tanta falta faz à nossa sociedade é uma relíquia nostálgica dos tempos do Império; mas não do nosso arremedo imperial, que isso até podia passar por provinciano (oh my dear!) e desvalorizar a nossos olhos uma figura tão íntima de Sir Karl (Popper para os não-íntimos). A tal gentlemanship é, na sua verdadeira e saudosa essência, Inglesa, Vitoriana e Cristã.
Ao que parece, a gentlemanship tem um dos seus melhores símbolos em Rudyard Kipling, mais uma pobre vítima da sinistra "contracultura", aliada do "relativismo", amigada com a "esquerda anti-americana" e até talvez mancomunada com os extraterrestres de Roswell.
Kipling terá méritos poéticos inegáveis mas sempre celebrou o "Glorioso meio século Imperial" na Índia, durante o qual a esperança de vida média no subcontinente indiano desceu 20%. A redentora gentlemanship deixou outros legados civilizacionais por aquelas paragens: entre 1757 e 1947, o rendimento médio indiano não subiu de todo e a independência encontrou seis sétimos da população iletrada. Isto para não mencionar feitos como a Fome de Gujarat, massacres vários, caminhos de ferro, portos e canais que deslumbraram Marx mas que eram construídos com dinheiro de impostos locais e destinados ao transporte de recursos rapinados, etc. etc .
Em África, a gentlemanship teve pontos altos como a repressão da revolta Mau-Mau, onde os garbosos soldados britânicos recebiam 5 libras por cada rebelde morto...
Um vate que antecedeu estes lindos valores foi, segundo Espada, Cícero; o paradigma das virtudes humanistas e liberais que ordenou a execução ilegal e sem julgamento de cinco dos conspiradores de Catalina e aplaudiu o assassinato de Júlio César.
É contra este aglomerado titânico de virtudes angélicas que se ergue o fanatismo islâmico e a pouco higiénica tribo dos órfãos de Woodstock em todo o mundo (a "contracultura dos anos 60"). Como já o haviam feito os "desesperados ateus de Lenine e os desesperados pagãos de Hitler e Mussolini". ( Mas fazem-no debalde, que a gentlemanship conta entre os seus defensores com alguém tão poderoso como Harry Potter, se bem me lembro de uma crónica anterior...)
A ideia que o Nazismo foi um movimento pagão já foi inúmeras vezes desmontada. E tenho até a ousadia de recomendar a Espada a leitura de algumas palavras onde se vislumbra sem dificuldade uma possível origem da sua luta contra os "relativismos" que andam a dar cabo da nossa juventude:
"Retirem à Humanidade de hoje os seus princípios religiosos e dogmáticos – ou, na prática, os seus princípios ético-morais – abolindo a educação religiosa sem a trocar por um equivalente, e o resultado será um grande choque nas fundações da sua existência."
"A nossa vida pública presente é como uma estufa para ideias e simulações sexuais. Basta olhar para o que nos servem nos cinemas, no vaudeville e nos teatros, para não podermos negar que este é o alimento errado, sobretudo para os jovens..."
"Também digno de nota é a luta cada vez mais violenta contra as fundações dogmáticas das várias igrejas, sem as quais a existência prática de uma fé religiosa não é possível."
Quem foi o paladino da Civilização Ocidental que escreveu tão prescientes avisos?
Adolf Hitler. Talvez agora o Professor Espada deixe de destratar um vulto com quem tem tão evidentes analogias de bossas...
Além de recomendar leituras sobre Kipling e Cícero, Espada recomenda com desvelo um livro do director do Público; o JMF que, pelo que se lê na pag 23 do mesmo número do Expresso, já teve ocasião de exercer a sua gentlemanship deixando empurrar para trabalhos degradantes uma funcionária do Público que cometeu o imenso pecado de ocupar a posição desejada pela sua mulher.
Depois, a prosa segue para recomendar com reverência alguns livros de santas figuras eclesiásticas e fecha com uma deslumbrada apologia dos "Jantares de smoking ou fato escuro", em oposição aos jantares em "T-shirt, chanatos e umbigo ao léu", mais uma sinistra invenção da contracultura dos anos 60.
É mesmo verdade. O homem escreveu isto.
Não resisto à tentação maldosa de encerrar este assunto com uma citação, de Sir Karl himself, que parece feita à medida do Duque de Espada: "o nosso conhecimento só pode ser finito, enquanto que a nossa ignorância deve necessariamente ser infinita."
Publicado por Luis Moura em julho 28, 2003 01:36 PM