Em 2001, depois de o Google me ter indicado uma pista de aterragem transviada algures no Brasil, dei de supetão com o fenómeno dos blogs.
O blog onde fui cair era apenas e tão somente o diário de uma mocinha estouvada, em que ela expunha amizades, aventuras, gostos e desgostos, etc. Dali fui saltitando de link em link para outros blogs similares. Tudo aquilo tinha o fascínio dos pequenos prodígios: gente anónima partilhava com o mundo as suas vidas; por vezes com verve, por vezes sem graça nem estilo, em grande parte dos casos dispensando até a ajuda de uma ortografia decente... Assim uma espécie de "power to the people" em versão digital.
Então depois de admirar o registo franco e desinibido com que as nossas irmãs de além-mar expunham as suas vidas eróticas, o peeping tom que vive algures nas minhas meninges ficou feliz. Mas isso é outra conversa.
Em suma, aqueles blogs apareceram-me como uma manifestação do espírito brasileiro tal como jaz no nosso armazém de estereótipos: extrovertido, alegre, "desencucado".
A minha reacção epidérmica foi um imediato: "Isto nunca poderá pegar em Portugal". Por cá, os nossos "blogs" cantam-se aos turistas com acompanhamento de guitarras plangentes; em histórias tristes de fatalismos, amores perdidos, destinos manhosos e inevitáveis.
Enganei-me. Ou talvez não.
Os blogs acabaram por desembarcar na pátria do Fado. Mas não o fizeram de mansinho, num movimento ancorado em milhares de pequenas raízes anónimas. Não; aqui, tudo tem de ser em grande.
A primeira vaga de colonizadores da "Blogoesfera" (haverá denominação mais patusca?) chegou de Mayflower, não em naus periclitantes e ajoujadas de povo: Escritores, Colunistas, Editores, Políticos, gente em busca de mais uns wattzitos de luzes da ribalta. Mesmo um modelo que eu juraria ser imune a tentações intelectuais, como a "Suruba Digital", só para citar um exemplo, transplantou-se para Portugal sob a forma de pipi-com-ambições-de-Bocage.
Para os fazedores de opinião, o "who’s who" do mundo dos blogs é uma mera adenda ao que já tinham nas cabeças mirradas.
Para os candidatos a bloguistas, este meio é assim como um "DN Jovem" em autogestão; todo o farrapo de prosa, todo o arroubo poético é digno de ser posto na montra, sujeito aos olhares críticos dos "blogo-papas" que generosamente hão-de emitir as suas pontíficas bulas louvando a "fina prosa", as posições políticas "desassombradas", o humor "genial". Só não me atrevo a declamar um asinus asinum fricat! porque até leio com prazer as encíclicas de muita dessa malta.
Para mim... enfim, não sei bem. Vou pensar no assunto e voltarei quando tiver inventado uma desculpa convincente para aqui estar.
Que tal, não teres onde cair morto.
Afixado por: CaçaBimbos em julho 25, 2003 01:55 PMantes de tudo. a tua análise do mundo dos blogs dá-me para pensar que és uma mais valia para esta blogosfera. Muro sem vergonha é um blog que irei tentar seguir e acompanhar.
além do mais há muito que aprecio o teu trabalho e a tua atitude como jornalista. tive a vantagem de ter aproveitado o meu estágio da SIC para conhecer de perto o processo de fabricação das notícias e o teu trabalho sempre foi uma daqueles que destaquei, pela sobriedade, pela inteligência.
Agradeço desvanecido os comentários preclaros sobre o meu trabalho e a minha inteligência.
Passa-se apenas que não sou jornalista. Confundiste-me com o Nuno R. de Almeida; por menos que isso já desafiei gente para duelos.
Mas obrigado de qualquer forma...
Sou do Brasil, e estou a tentar bolsa em projeto de mestrado para a USP- o tema é justamente a melancolia em Portugal à alta Idade Média, sob o reinado de D. Duarte, o prazo vai até dia 30 destp mês...por isso toda ajuda me é benvinda.
Obrigado já de antemão
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