Este post foi aqui deixado apenas à laia de experiência, pois o José Mário Silva já tinha tido a caridade de o "publicar" no seu excelente Blog. Mas, uma vez que a Sandra até se deu ao trabalho de o comentar, por cá ficará...
Ontem mesmo, deixei-me arrastar para o lançamento de um livro de nome «MilitärMusik». Atraído pela promessa de encontrar uma «figura polémica e extravagante» na pessoa do autor russo Wladimir Kaminer, e sensibilizado pelo apelo dos editores que receavam uma sala às moscas, lá fui ao Instituto Goethe. A apresentação do livro explicou-me que se tratava de uma sátira aos anos finais da URSS, escrita originalmente em alemão, num tom assim à laia de «Woody Allen no País dos Sovietes».
Até aqui, tudo bem; o pior foi quando chegámos à parte das perguntas. A princípio, a tradutora ainda se esforçou por acompanhar a pedalada da figura extravagante, em companhia do inevitável número das gargalhadas a retardador, emitidas por quem só percebia as graças um minuto depois dos falantes de alemão ali presentes.
Quando a coisa começou a ficar viva, a tradução foi tragada por areias movediças. Consegui entender que uma das senhoras alemãs na sala se ofendera com uma resposta do autor e pouco mais. Não concordo com a ideia, nascida na minha mesa, de que aquilo seria «surreal», pois o Surrealismo ainda me soa a coisa com pés e cabeça. Mas lá que parecia uma cerimónia Dadá, parecia.
Agora divertido a sério foi ouvir a mesma pergunta angustiada ser repetida umas três vezes, em português e, pelo que me explicaram depois, no idioma da casa: como fora o acolhimento dispensado pelo público russo a tão irreverente prosa?
O bom do Wladimir torcia-se na cadeira e falava de «perspectivas diferentes», «traduções defeituosas», etc. Conseguiu durante largos minutos bailar à volta do óbvio sem nunca o nomear: como poderíamos querer que os russos se divertissem com um relato das suas tragédias – do glorioso Socialismo ao promissor mundo do Mercado Livre & Mafias Associadas – feito em tom burlesco? Que recepção seria por cá dada a um livro que retratasse os anos anteriores ao 25 de Abril como uma paródia infindável?
Uma coisa, lícita e frequente, é proporcionar divertimento à custa da infelicidade alheia. Outra bem diversa é esperar que as vítimas riam connosco.
PS: o diabo do livro até tem graça. Fica aqui o link do bravo Cavalo de Ferro para mais informações.
Publicado por Luis Moura em julho 23, 2003 05:35 PMDisseste-me que estavas a trabalhar até tarde. Afinal foste ao Kremlin com uma perua tua amiga
Afixado por: Chavália em julho 24, 2003 06:07 PMTambém lá estive mas o que me irritou mesmo foi a presença constante de uma necessidade aguerrida de nacionalismo por parte de quase todos os presentes de nacionalidade alemã.
Pensei que era para se falar sobre o livro, e não sobre se o autor tinha orgulho da sua nacionalidade, se a tinha esquecido, pq não escrevia em Russo... enfim... ia sempre bater no mesmo - detestas ou não o país onde nasceste? Ou um quase directo: Não tens vergonha de não mostrares com orgulho a tua nacionalidade?
Bolas!!!